Coura sem chuva não é Coura. É quase um adágio que se confirma ano após ano. O céu esteve indeciso, mas a pouca chuva fez apenas assentar o pó sem fazer lama. Desta vez as previsões falharam, os aguaceiros fortes não caíram durante o horário nobre do festival, mas a temperatura desceu muito. Mudou o vestuário mas não a atitude.

Como é hábito também, no último dia fazem-se balanços e o deste ano superou todas as expetativas. O diretor do festival, João Carvalho, mostrou-se feliz com a maior enchente de sempre (100 mil pessoas esgotaram os quatro dias) e garantiu ao Observador que o futuro não passa por aumentar a lotação, mas por fazer com que as pessoas comprem os bilhetes mais cedo, porque a experiência não pode ser sacrificada pelo número. São boas notícias. E outra: o Vodafone Paredes de Coura 2016 decorre entre 17 e 20 de agosto. Mas vamos ao dia de ontem, sábado 22.

A antevisão confirmou-se: a dupla nova-iorquina Ratatat foi a grande protagonista da noite e, nota nossa, deram o melhor espetáculo desta edição do festival. Foi uma alucinação visual e sonora.

O Rock tem muitas franjas, é um género que suporta um sem número de derivas e fusões. Uma das mais interessantes é justamente a que acontece com a eletrónica e os Ratatat ilustraram isso mesmo, num espetáculo de encher o olho que transformou o recinto numa pista de dança gigante. Parece simples, mas não é. Dois homens (Mike Stroud e Evan Mast), várias guitarras, sintetizador, caixa de ritmos e percussão. Lá atrás, a cada tema a projeção sincronizada de imagens animadas, tais como os elementos que fizeram as capas dos discos (os periquitos brancos de “LP4”, o felino de “Classics” ou as estátuas brancas de “LP3”), mas também formas geométricas coloridas e até um excerto do filme “O Predador”. A juntar a tudo isto, vários projetores de luz laser, coisa à séria, portanto.

Depois, a música. Mais de dez anos de carreira, cinco álbuns de estúdio às voltas com a mesma fórmula, guitarras, baixo e música sintetizada, sempre mais do mesmo mas sempre com qualquer coisa de diferente. A competência técnica é indiscutível e a isso juntaram a presença em palco (são até fisicamente parecidos e estavam vestidos de igual) e doses moderadas de simpatia. Os Ratatat deram um espetáculo com as letras todas, feito de música para ouvir e luz e imagem para pintar, numa montagem rigorosa (ainda que estanque). Partiram imagens e conseguiram bater o recorde de crowdsurfing, os seguranças no fosso passaram o tempo a recolher corpos do ar.

Os dois guitarristas terminaram a atuação (uma hora e pouco) a bater em tambores, milhares pediram um encore mas nada. Talvez por falta de mais “adereços” mas é mesmo assim, um espetáculo é um pacote que se compra e vende. Ficará na memória o que foi, mesmo que tenha apetecido mais.

Num registo completamente diferente, os britânicos Temples foram os outros grandes protagonistas da noite. Vimos muita gente a correr (e a escorregar) para não perder pitada. Começaram com “Sun Structures”, tema título do primeiro e único álbum de estúdio. A partir daí fizeram uma atuação de guitarras bem oleadas, indie rock psicadélico cruzado com harmonias genuinamente pop. Contradição? Não, é uma maneira inteligente de cruzar estilos e os Temples foram muito bons a fazer isso, com o bónus de esticar os instrumentais com a energia (e garra) que faltou no dia anterior aos The War on Drugs. Os Temples vieram dar um ar da sua graça e têm muita, vamos esperar para ver o que vem a seguir.

Lykke Li interrompeu as férias para vir até ao Vodafone Paredes de Coura, para uma das duas únicas atuações em festivais de verão este ano (a outra foi Coachella). Foi um espetáculo para conhecedores, que eram muitos e fáceis de identificar pelas letras sabidas de cor. Aquela bela voz perdeu-se (outra vez) na segunda metade do anfiteatro, só lá à frente a projeção foi sentida. A artista sueca entrou a desfilar de enfiada alguns singles (e uma versão, “Hold on, we’re going home” de Drake), mas é um tipo de música que pede outro ambiente. Lykke Li é um nome excelente para vender o cartaz de qualquer festival, mas este é um contexto onde só tira proveito quem já leva a música na cabeça. Soube a pouco.

No palco secundário, os Fuzz (de Ty Segall) seguiram as pisadas dos Temples, mas com mais violência. Deram outro exemplo de como o rock é capaz de dispensar palavras, basta saber pôr os instrumentos a falar uns com os outros, quem os ouve acaba quase sempre por receber a mensagem, mesmo que distraídos pela conversa e pelos copos, há música que se mete na pele.

Também no palco Vodafone FM, a dupla norte-americana Sylvan Esso foi uma das boas surpresas do dia (e desta edição do festival, arriscamos a dizer). O público foi chegando, atraído pela eletrónica do produtor Nick Sanborn e pela voz de Amelia Meath. Ambos muito energéticos e animados, fizeram abanar o palco e as pessoas com ele. A estreia em disco ocorreu no ano passado e estiveram ontem, pela primeira vez, em Portugal. Tocaram alguns temas novos e pela amostra vão continuar a subir. E vão voltar, seguramente.

Uma nota ainda para Natalie Prass, considerada por alguns críticos uma das revelações deste ano. Lenta e melancólica, canta a desgraça com algum encanto. Não é só porque tem a voz doce, está muito bem acompanhada pela banda. Um nome a seguir.

Os Woods estiveram no palco Vodafone a marcar os dez anos de carreira. Folk polida e psicadélica (o termo esteve na moda este ano) fez-se de longos instrumentais muito bem executados, já a voz de Jeremy Earl, nem tanto. Houvesse sol e calor e teria sido um final de tarde à Paredes de Coura, com música a compor a luz.

Antes, a abrir este último dia, o consórcio luso-brasileriro Banda do Mar voltou a marcar presença num festival de verão (o terceiro, no caso). São um case study de sucesso (formaram-se há pouco mais de um ano), justificado pelo talento e empenho do português Fred Ferreira e do casal Mallu Magalhães e Marcelo Camelo. “Coisa linda!”, dizia o brasileiro. E explicou sorrindo que este espetáculo em Paredes de Coura foi “o fecho da digressão e de um ciclo”, seja lá o que isso queira dizer, no modo e no tempo. Nós também (por aqui) gostámos e para o ano há mais música junto ao rio Coura, de 17 a 20 de agosto. Até lá.