Em Tomar, por estes dias, dificilmente a aldeia de Cem Soldos passa despercebida. Nas simples indicações rodoviárias ou nas habituais dúvidas dos condutores, a resposta está na ponta da língua: “Vai até à rotunda, vira à direita, passa pela ponte e vai sempre em frente. E depois, já está no sítio onde quer”, diz uma senhora na junta de freguesia. Não foi preciso dizer do que estávamos à procura, descobriu que o destino era o festival Bons Sons – talvez porque responde às mesmas questões, todos os anos.

O Bons Sons regressou esta sexta-feira a Cem Soldos, concelho de Tomar, e ali decorre até segunda-feira. Na bagagem traz dez anos de música portuguesa, de festa e de muita comunidade e união – os habitantes da aldeia participam ativamente na logística e produção do evento, mas não só. Centenas de voluntários vêm de todo o país à procura de viver a experiência do Bons Sons. Desde o sotaque do Norte aos alfacinhas de gema, a variedade das localidades portuguesas sente-se em cada secção de voluntariado. No total são cerca de 300 pessoas a ajudar, onde se incluem os filhos da terra. “Até já tivemos inscrições de estrangeiros”, acrescenta Jorge Silva, coordenador do voluntariado no Bons Sons.

Por falar em trabalho e porque no primeiro dia, a máquina ainda está a afinar e a retocar os últimos pormenores, os voluntários estão a todo o gás. Os festivaleiros não dão descanso, nem o calor. Mesmo antes de entrarem no recinto – que corresponde ao perímetro de Cem Soldos – muitas pessoas refrescam-se nas torneiras à moda antiga, de ferro e sem automatismos. Ao Observador, a organização garante que alguns voluntários têm uma ajuda do ar condicionado. É o caso do Benjamin Protásio de 19 anos.

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Benjamin Protásio é voluntário nos autocarros do festival © André Marques/Observador

O jovem de dupla nacionalidade, portuguesa e francesa, viveu em Tomar e têm participado nas últimas edições do festival como voluntário. Hoje passa a sua pasta, por breves minutos ao Observador – a venda de bilhetes no autocarro (transfer) que faz a viagem entre Tomar e Paialvo até Cem Soldos. “Caso venha alguma pessoa com mochilas e carregada, primeiro deixamos entrar e depois é que pedimos para pagar o bilhete”, explica. A tarefa parece simples, porém exige agilidade, raciocínio e uma pitada de simpatia – tira-se o bilhete, pede-se 1,5 euros, dá-se o troco caso seja necessário e deseja-se um “bom festival” ou um “bem-vindo à aldeia”.

Benjamin Protásio acredita que a tarefa que lhe foi incumbida é a ideal para conhecer e conviver com várias pessoas. A cada passageiro que entra, o voluntário esclarece algumas dúvidas e dá alguns conselhos aos festivaleiros. “Temos de ter um pouco de humor a falar com as pessoas, para se sentirem bem em Cem Soldos”, diz. Os voluntários têm turnos com horários fixos, no entanto a flexibilidade existe, principalmente “quando querem ver muito um concerto e fazem-se trocas”.

Em Cem Soldos, a tixa manda

De trocas e baldrocas, a próxima secção de voluntariado passa pela banca do merchandising, onde a famosa tixa – mascote do festival – é rainha e senhora. A variedade de peças é notória: são as t-shirts, os ganchos, os pins, os porta-chaves, os CDs, as bolsas, as mochilas, as canecas de alumínio e os cinzeiros (grátis, para o bem do meio ambiente). Porém, este ano há uma peça essencial num verão quente e seco, que não está para brincadeiras por estes lados: um borrifador de água. Tal e qual um spray limpa-vidros, só que com água dentro, vários festivaleiros pagam três euros por borrifador, para enfrentar as altas temperaturas.

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Os borrifadores de água para refrescar © André Marques/Observador

Sofia Santos é uma cem-soldense de 19 anos, para quem o Bons Sons nunca passou ao lado. “Desde pequena que me lembro de preparar o bolinho de todos os santos [doce típico da região] com a minha mãe”, afirma. Há algumas edições do festival que assumiu o cargo de voluntária efetiva. Este ano subiu de posto: é coordenadora da banca do merchandising. Talvez por ser o primeiro dia, ainda há muitas dúvidas por esclarecer e Sofia tenta ser prática. Coloca as coisas no devido lugar, organiza as t-shirts dos voluntários e ajuda algumas crianças a encher os borrifadores nas torneiras da aldeia.

A jovem é chamada a responder, quando as restantes colegas não estão prontas para esclarecer as dúvidas ou inquietações do público mais exigente do Bons Sons. “Mas o ano passado não davam as canecas de graça?”, pergunta uma jovem festivaleira. “Este ano, optamos por vendê-las e manter a vertente ecológica”, explica Sofia. Pagas ou não, as canecas continuam a sair bem. Por entre as ruelas da aldeia, é comum ouvir o tilintar do alumínio, que com ganchos se prende facilmente às mochilas ou ao cinto das calças.

No pico da tarde, Cem Soldos está mais cheio do que nunca e Sofia Santos é a primeira a comprová-lo: “É uma aldeia muito pacata, nem no arraial da aldeia tem tanta gente”.

É tanta gente, que não há energia que aguente

É por entre festivaleiros que o Observador chega ao próximo destino de voluntariado: a sede do Sport Club Operário de Cem Soldos, transformada no posto de informações do festival. É aqui que Sofia, Ana, Laurinda e Catarina ajudam as pessoas a carregar os telemóveis, explicam onde se devem dirigir no recinto, fazem as inscrições para as sessões com as crianças, guardam os pertences dos festivaleiros e dão pulseiras aos moradores. Torna-se uma bússola para quem se sente perdido na aldeia de Cem Soldos.

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Sofia, Ana, Catarina e Laurinda são voluntárias no posto de informações © André Marques/Observador

O serviço mais requisitado é o carregamento de telemóveis. “Já aconteceu termos de dizer às pessoas para voltar mais tarde, porque não tínhamos mais tomadas”, explica Sofia, que veio de Lisboa para ser voluntária no Bons Sons. Cada pessoa tem direito a uma hora para carregar o telemóvel: deixa o carregador e dispositivo na sede, leva uma ficha com a identificação e volta mais tarde. “Torna-se útil para as pessoas que estão a acampar”, esclarece a jovem. A afluência é tanta que talvez não seja de estranhar que a luz da sede vá abaixo, como acabámos por constatar.

A hora do jantar aproxima-se e com ela, a fome de muitos festivaleiros. Está na altura de colocar as mãos na massa e passarmos para a restauração. Num pequeno jardim de uma casa particular foi montado um restaurante de petiscos: caracóis, pica-pau, pataniscas, caldo-verde, moelas e tantas outras iguarias consolam os estômagos. Quando chegamos, o ambiente está calmo, mas logo após se vestir o avental e as luvas, as pessoas chegam e fazem os pedidos.

Na frente e a servir os clientes está a Beatriz e o Nuno, já a “Zé” – a cozinheira local de serviço – está na copa a refinar os últimos pormenores na comida. Ainda assim, mais descansada do que quando preparava o banquete. São eles que explicam ao Observador como servir, os cuidados a ter e sempre com a máxima de “porções generosas” para os festivaleiros. Ao lado, o tixão – bebida típica de Cem Soldos – está a ser preparada. “Não digo os ingredientes porque é segredo”, explica o barman a uma cliente.

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A “Zé” é a cozinheira dos petiscos do Bons Sons © André Marques/Observador

Mais uma vez, a luz falha e a “Zé” apressa-se a aquecer o caldo verde. Há uma pressão extra para que tudo corra bem, porque há rumores de que a “ASAE anda aí”. Tudo fica rapidamente resolvido: os voluntários e os habitantes querem que o Bons Sons corra muito bem porque é a imagem de Cem Soldos que está na berlinda. Para o público, o Bons Sons parece o regresso à casa da avó, que de repente tem na sala de estar um palco de concertos. E onde não falta a sopa caseira: “Olhe pode aquecer-me um bocadinho o caldo-verde?”, diz uma festivaleira.

O Bons Sons continua até segunda-feira na aldeia de Cem Soldos, em Tomar. Os bilhetes diários custam 17 euros.