Rádio Observador

Vodafone Paredes de Coura

Último dia em Paredes de Coura. O melhor do resto

Os LCD Soundsystem parecem ter queimado os cartuchos todos. O cartaz deste ano não foi particularmente interessante e este último dia foi a prova disso. CHVRCHES à parte, assim se passou o sábado.

Portugal. The Man

HUGO AMARAL/OBSERVADOR

O quarto e último dia do Festival Paredes de Coura começou com um grito de revolução. Os nova-iorquinos The Last Internationale entraram a pedir liberdade, “power to the people” e paz no mundo. Explosivos, deram, sem sombra de dúvida, um dos melhores concertos do dia e um dos poucos em que o público teve banda sonora para se mexer.

A partir daí, seguiu-se um rol de atuações mornas, paradas e até a roçar o lamechas, como foi o caso de The Talest Man On Earth. Depois, Cigarettes After Sex embalaram sem adormecer, transportando a audiência para outras paragens, mas Portugal. The Man deixou uma incógnita. O que é, afinal, a banda do Alasca? Um mosaico de influências, que muitas vezes não encaixam.

No final, dos CHVRCHES veio a salvação, foi o que valeu num dia onde ficou a impressão de que podia ter sido melhor. Mas vamos ao resto.

paredes de coura 2016, chvrches,

Lauren Mayberry, vocalista dos CHVRCHES

Portugal. The Man

Passaram sete anos desde que os Portugal. The Man, nascidos no Alasca, passaram por Paredes de Coura. O concerto, realizado no dia das atuações de Peaches e Nine Inch Nails, ainda lhes está na memória — tão fresco que fizeram questão de o lembrar este sábado, perante uma multidão de gente entusiasmada que não pareceu intrigada pela existência de uma banda norte-americana com “Portugal” no nome.

É que, apesar de se chamar Portugal. The Man, a banda formada em 2004 tem tanto de portuguesa como os portugueses têm de americanos. Criados na cidade de Wasilla, no Alasca, o nome não passa de uma coincidência estranha. Quase tão estranha como o som do grupo, composto por John Gourley, Zachary Carothers e Kyle O’Quin.

Os norte-americanos subiram ao palco depois dos concertos de The Tallest Man On Earth e Cigarettes After Sex, dois concertos calmos. O público pedia barulho, e foi isso que os Portugal. The Man — até certa medida — lhe deram. Não foi um concerto de rock puro e duro, mas foi o suficiente para o crowdsurfing regressar a Paredes de Coura. Em “Holy Roler” até houve um bocadinho de mosh.

Mas chamar ao concerto dos Portugal. The Man um espetáculo de rock pode ser puxado. A setlist extensa foi composta por temas tão variados que se torna difícil dizer o que é que os norte-americanos são. A temas mais duros, seguiram-se canções de um pop quase demasiado leve. Houve uma cover de Oasis, “Don’t Look Back In Anger”, e uma música com mais de dez minutos que chegou mesmo a fazer lembrar (perdoem-me) Pink Floyd.

No final, a banda despediu-se entre muitos “obrigados” e elogios, mas é difícil dizer o que é que deixou para trás. O concerto foi uma pergunta sem resposta, tal como o porquê dos Portugal. The Man terem Portugal no nome. [RC]

Cigarettes After Sex

Entraram em palco sob um cenário enevoado. As luzes azuis, fracas, mal deixavam ver a cara de Gireg Gonzalez e dos Cigarettes After Sex, uma das bandas mais esperadas da noite. Ou, pelo menos, foi o que garantiram muitos dos festivaleiros com quem o Observador se cruzou ao longo do dia.

Criados em 2007, os Cigarettes After Sex têm algo de especial. O seu som minimalista — que descrevem como ambiente pop — tem qualquer coisa de único, de diferente. O ambiente nebuloso, associado à voz profunda do vocalista e principal compositor Grieg Gonzalez, torna-os misteriosos. Essa aura adensa-se quando se olha para a curta discografia, composta por apenas um EP, I. (2012), e um single, “Affection” (2015).

Como o novo álbum está agendado para breve, os fãs de Paredes de Coura tiveram direito a uma pequena antevisão, com músicas como “Flash” e “Sunsets”. O palco Vodafone FM estava cheio, e essa enchente justificou-se. Os temas de Gonzalez e dos Cigarettes After Sex são música que embalam, mas sem adormecer. Fazem-nos olhar para dentro e tentar compreender. [RC]

The Last Internationale

Coube aos nova-iorquinos The Last Internationale a tarefa ingrata de abrir o palco principal, a uma hora em que muitos festivaleiros se encontravam ainda nas margens do rio Coura, a aproveitar os últimos raios de sol. O recinto estava morno, e nem os acordes frenéticos do meio português Edgey Pires foram suficientes para acordar o público. Apenas alguns fãs, mais entusiastas, decidiram ir saltar para a frente do palco. Ontem, à mesma hora, o cenário era bem diferente (talvez também devido ao céu nublado).

Mas foi uma pena. Conhecidos pelos seus concertos energéticos — tempestuosos –, os The Last Internationale deram um concerto para mais tarde recordar. Com língua afiada, cantaram sem preconceitos sobre temas como a liberdade e a opressão. O homem dos tempos modernos. E, a pensar nos fãs, até apresentaram um tema novo, a acabadinha de compor “Modern Man”, que fará parte do próximo álbum.

Em “Wanted Man”, a banda pediu a ajuda do público, que bateu palmas de bom grado ao som do baixo da vocalista Delila Paz. Na hora da despedida, “1968” foi dedicada a todos os presentes. “Esta é a nossa canção para as pessoas”, explicou Paz. Atrás do palco, no écrã gigante, onde antes estava uma imagem que dizia “este banner mata fascistas”, surgiram várias fotografias do 25 de Abril. “People have the power”, cantou a vocalista e baixista, antes de se despedir dizendo simplesmente: “Paz”. [RC]

Encontra muitas outras referências sobre estas e outras atuações no liveblog deste quarto e último dia.

Este ano, passaram pelo recinto quase 100 mil pessoas. Faltaram só umas centenas para chegar à afluência do ano passado, que foi o que mais vendeu em toda a história do festival, disse ao Observador João Carvalho, o homem forte do Vodafone Paredes de Coura. Se quem andou pelo recinto se sentiu mais à larga, isso tem uma explicação. “Aumentámos ligeiramente o anfiteatro para dar mais conforto às pessoas. Puxámos o palco para trás”, o que implicou encher o solo com “centenas de camiões de terra” para criar terreno estável. O número de bilhetes disponíveis não aumentou, nem vai aumentar: a ideia é melhorar o conforto, a visibilidade e as condições em que o público recebe o som vindo do palco.

Em 2017, Coura comemora as bodas de prata, nos dias 16, 17, 18 e 19 de agosto. Vale a pena esperar surpresas? “Obviamente que sendo a 25ª edição queremos fazer ainda melhor. O que posso dizer é que há já dois meses que começámos a falar com determinados agentes para a contratação começar ainda mais cedo”, disse, acrescentando logo que ainda não podia adiantar nomes. Mas fez uma espécie de wishlist: “Se pudesse, gostava de ter no cartaz os Lambchop, mesmo que isso “não venda bilhetes”, disse a rir-se. “Há muitas bandas que passaram por Paredes de Coura que fariam todo o sentido vir quando se comemoram 25 edições. Queens of the Stone Age, por exemplo, Nick Cave também fazia sentido.”

Em 2016, o Vodafone Paredes de Coura teve o seu maior orçamento de sempre: 3,3 milhões de euros. Os LCD Soundsystem levaram uma boa fatia — João Carvalho não especificou qual, porque “seria deselegante”. Para o ano, talvez a organização tenha “mais um bocadinho”. Mas ainda nada está confirmado. Resta esperar. [SOC]

Esperamos também que os alinhamentos futuros tenham menos repetentes, este ano foram muitos os nomes que já pisaram mais que uma vez os palcos do Vodafone Paredes de Coura. Não que isso represente um pecado ou fraqueza, mas abona pouco a favor de um festival que sempre esteve na vanguarda da música alternativa.

Uma nota final, e inevitável, à notícia que chegou ao final da tarde: 150 pessoas apresentaram “sintomas gastrointestinais” na noite anterior, devido a causas ainda por esclarecer.

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