Título: “A Guerra não tem Rosto de Mulher”
Autora: Svetlana Alexievich
Editora: Elsinore
Páginas: 392

A Guerra Não Tem Rosto de Mulher

Acostumámo-nos a ver na Segunda Guerra Mundial (1939-1945) quase apenas homens. As mulheres, quando aparecem, por exemplo, nos filmes, raramente são personagens principais nos combates. Recordo-me apenas de poucas excepções: o filme soviético “As auroras nascem tranquilas”, baseado na novela homónima de Boris Vassiliev, e “As bruxas da noite”.

Por isso, Svetlana Alexievich soube encontrar este valioso filão e aproveitá-lo ao máximo na sua estreia literária. Sim, porque o romance A Guerra não tem Rosto de Mulher foi o primeiro que ela editou em 1985, ainda pressionada e limitada pela censura soviética. Por outro lado, esta jornalista-escritora lançou-se numa aventura arriscada tendo em conta que na URSS tinham sido publicados milhares de livros sobre a Segunda Guerra Mundial (conhecida na história soviética como Grande Guerra Patriótica), entre os quais autênticas obras-primas como a novela já citada.

Além disso, Svetlana Alexievich escreve na Bielorrússia, terra massacrada por essa guerra e pátria de brilhantes escritores que antes dela escreveram sobre a maior matança do século XX. Basta recordar Ales Adamóvitch, que ele considera “o meu mestre”, ou Vassili Bykov. A Bielorrússia foi um dos países que mais sofreu na Segunda Guerra Mundial. Fazendo parte da União Soviética naquela altura, foi alvo das maiores crueldades dos invasores nazis alemães. Um terço dos seus habitantes foi exterminado; desapareceram, completa ou parcialmente, do mapa 209 das 270 cidades, 5454 aldeias.

E esta é, talvez, uma das principais razões que levou Svetlana Alexievich a dar voz a mais de 200 das cerca de um milhão de mulheres soviéticas que combateram nos campos de batalha, dando origem a palavras novas como “atiradora”, “condutoras de tanques”, “batedora”. A outra razão é revelada pela própria autora:

Depois da guerra. A aldeia da minha infância era feminina. Das mulheres. Não me lembro de vozes masculinas. Isto ficou dentro de mim: sãs as mulheres que falam da guerra. Choram. Cantam como choram”.

A importância desta obra reside também no facto de não se tratar de um romance ou novela, no sentido clássico da palavra, mas uma obra real, com discursos directos de pessoas, sem retoques.

Já acima falei das “bruxas da noite”, esquadrilha soviética de aviões pilotados por mulheres que recebeu esse nome dos alemães porque elas sobrevoavam e bombardeavam durante a noite as posições do inimigo, lançando o pânico. Quando estudei na Universidade de Moscovo, ouvi várias vezes uma delas contar os seus feitos e os das suas colegas durante a guerra, relatos impressionantes de heroísmo, mas que deixavam a sensação de que estavam incompletos, de que algo ficava por dizer, a parte mais cruel, mais suja, se assim de pode dizer, da matança mundial.

night witches

As “bruxas da noite”

E esse algo está no livro de Svetlana Alexievich, que só agora chega ao leitor português, e isto porque recebeu o Prémio Nobel por outras obras escritas mais tarde. Ela escreve na introdução:

“Dizem-me: bom, as recordações não são história nem literatura. São simplesmente vida, cheia de lixo e não trabalhada pela mão do artista. É o material bruto de um discurso, todos os dias estão cheios dele. Há tijolos destes em todo o lado. No entanto, os tijolos ainda não são um templo! Mas eu vejo tudo de outra forma… A alegria prístina está dissimulada e a insuportável tragicidade da vida posta a nu precisamente na quente voz humana, no vivo reflexo do passado. O seu caos e a sua paixão. A unicidade e a inescrutabilidade. Lá, ainda não foram sujeitos a qualquer tratamento. São genuínas.

Edifico templos com os nossos sentimentos… com os nossos desejos, desencantos. Sonhos. Do que existiu, mas pode escapar”.

Tarefa árdua numa época em que apenas existia uma versão oficial da história da Grande Guerra Patriótica, repleta de mentiras e de meias verdades. Por isso, como sublinha Svetlana Alexievich, as suas personagens “abordam este tema rara e cautelosamente. Ainda hoje estão paralisados não só pela hipnose e pelo medo estalinista, mas pela fé de então. Ainda não conseguem deixar de amar o que amaram. A coragem na guerra e a coragem do pensamento são duas coragens diferentes. E eu julgava que eram a mesma”.

O poder comunista de então não precisava da verdade, mas apenas da “sua verdade”, por isso, a escritora recebeu numerosas vezes recusas de editoras:

Já levo dois anos a receber recusas das editoras. As revistas guardam silêncio. A sentença é sempre igual: uma guerra demasiado aterradora. Demasiado horror. E naturalismo. Não mostra o papel do Partido Comunista como líder e guia. Numa palavra, não é a guerra como deve ser…”

Mas o que é que indignava tanto a censura comunista? Da conversa do censor com a autora:

“- Mas quem é que vai combater depois de um livro destes? A senhora humilha a mulher com um naturalismo primitivo. A mulher heroína. Faz dela uma mulher comum. Uma fêmea. Mas as nossas mulheres são santas.

– O nosso heroísmo é estéril, não quer saber nem da fisiologia, nem da biologia. Não se acredita nele. Não foi só o espírito, a carne também passou por provações. O invólucro material.

– Onde foi buscar estas ideias? São ideias alheias. Não são soviéticas. A senhora ri-se dos que jazem nas valas comuns. Terá lido demasiado Remarque… Mas aqui o remarquismo não passará. A mulher soviética não é um animal…”

Mas quais eram essas acções e sentimentos “soviéticos” que não se enquadravam no “socialismo realista”. Felizmente a censura comunista desapareceu e podemos ler a versão completa da obra. Dois exemplos do “lápis azul”:

“Estava no meu turno da noite… Entrei na enfermaria dos feridos graves. Estava lá um capitão… Antes do turno os médicos avisaram-me de que ele iria morrer durante aquela noite. Não chegaria à manhã… Pergunto-lhe: “Como estás? Em que posso ajudar?” Nunca me esquecerei… Ele sorriu de repente, um sorriso tão luminoso no rosto extenuado: “Desabotoa a bata, mostra-me o teu peito… Não vejo a minha mulher há muito tempo…” Fiquei desconcertada, nunca tinha sido sequer beijada. Respondi-lhe uma coisa qualquer. Saí a correr e regressei uma hora depois.

Estava morto. Com aquele sorriso no rosto…”.

Ou: “Avançamos… As primeiras povoações alemãs. Somos jovens… Fortes. Há quatro anos sem mulheres. Nas caves há vinho. Comida. Apanhávamos raparigas alemãs e… Dez homens violavam uma. Havia poucas mulheres, a população fugia do Exército Soviético. Apanhávamos raparigas novinhas. Meninas… Doze, treze anos… Se chorassem, batíamos, metíamos qualquer coisa na boca. As suas dores faziam-nos rir. Agora não percebo como fui capaz… Sou filho de uma família de gente culta… Mas fui eu…

A única coisa que temíamos era que as nossas raparigas descobrissem. As nossas enfermeiras. Sentíamo-nos envergonhados perante elas”.

Relatos de numerosas mulheres, que olham para a guerra de formas diferentes, mas com um denominador comum: mostrar que a guerra não é masculina, nem feminina, é um campo onde homens e mulheres revelam os sentimentos mais paradoxais — ódio e compaixão, bondade e crueldade sem limites, heroísmo e cobardia. Relatos que ajudam a completar o quadro apocalíptico da guerra, uma das mais infernais invenções do género humano. De leitura difícil, não devido à tradução, que é excelente, mas pelas experiências relatadas, este livro é imprescindível para se conhecer novos aspectos da Segunda Guerra Mundial.