Durante longos anos, os números 26 a 32 da Rua 1.º de Maio, em Alcântara, pertenceram à Urceira Lda., uma loja de móveis e eletrodomésticos com uma montra apinhada de aspiradores e varinhas mágicas com etiquetas coloridas. Porém, em julho deste ano, a empresa anunciou que ia mudar de instalações para um outro edifício não muito longe dali, localizado na Rua Fradesso da Silveira, em frente ao Consulado de Angola.

Fechada a Urceira, nos números 24 a 44 as obras não tardaram a começar. A fachada, forrada a azulejos verdes, encheu-se de andaimes. A aguçar a curiosidade de quem estava acostumado a ver as mesmas arcas de madeira à porta da antiga loja de eletrodomésticos estava um placard azul que anunciava: “The Berardo Collection. Futuro Museu Berardo. Art Nouveau, Art Déco”. Estaria o museu instalado no Centro Cultural de Belém (CCB) desde 2007 prestes a expandir-se até Alcântara?

Estávamos em agosto, e o Observador contactou o Museu Berardo para perceber o que estaria a acontecer na Rua 1º de Maio. Foi-nos dito que em Alcântara não estaria a nascer um novo museu, mas uma outra coisa, sem mais esclarecimentos. Da parte da autarquia, foi possível confirmar que o imóvel em causa “não é municipal”. Em Santos apareceu entretanto um anúncio ao novo museu que ninguém parecia saber que existia.

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Entretanto, as obras na fachada foram dadas por concluídas. Os andaimes foram retirados e uma parte dos azulejos verdes foi substituída por azuis (deixando muitos lisboetas descontentes, que prontamente se manifestaram no Fórum Cidadania LX, um grupo do Facebook). O site de lazer Lisbon Lux avançou entretanto com uma data de abertura — início de 2017, o mesmo ano em que o museu de Arte Moderna e Contemporânea assinala dez anos de permanência no CCB.

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Ainda segundo o mesmo site, o novo museu lisboeta irá albergar cerca de 300 peças da coleção de Arte Nova e Déco do empresário madeirense, uma das várias que constitui a Coleção Berardo. Entre as mais de três centenas de obras de arte, incluem-se objetos decorativos de artistas como Lalique, Leleu, Perzel, Brandt, Porteneuve e Ruhlmann, numa coleção que já esteve exposta em espaços como o Museu de Serralves ou o próprio Museu Berardo.

Com o Museu Colecção Berardo, instalado no CCB, não foi possível obter mais informações. A Metalgest, empresa ligada a Berardo, não confirmou nem as informações nem as datas avançadas pelo site Lisbon Lux, mas também não foi desmentida a abertura de um novo museu. Na Junta de Freguesia de Alcântara não foi possível, até ao momento, obter resposta. O próprio Berardo, contactado pelo Observador por telefone, não quis fazer nenhum comentário.

Enquanto isso, na Rua 1.º de Maio, imagens de peças de decoração preenchem as janelas. Além dos cartazes com a frase “The Berardo Collection. Futuro Museu Berardo. Art Nouveau, Art Déco”, existem outros que dizem “Under the Bridge”. É que o “novo museu Berardo” foi colocado aí mesmo — debaixo da Ponte 25 de Abril.

Quando ao Museu Coleção Berardo, o acordo de 10 anos que foi firmado com o Ministério da Cultura termina a 31 de dezembro de 2016. A dois meses e meio do fim, ainda não se sabe se a Coleção Berardo vai deixar o CCB ou se ali permanecerá. No ano passado, Joe Berardo admitiu a hipótese de construir um novo espaço expositivo caso o acordo não fosse renovado.

O Observador contactou o gabinete de Luís Filipe Castro Mendes, mas não conseguiu obter uma resposta. No entanto, numa entrevista em julho, ao jornal Público, o ministro da Cultura referiu que as negociações, que ainda estavam a decorrer na altura, estavam “a caminho de uma solução razoável que é as obras continuarem no lugar onde estão”. Ou seja, o Museu Berardo deverá continuar instalado no CCB. E a morada das obras — pelo menos estas — não deverá mudar para a Rua 1.º de Maio.