Título: “Lenine no Comboio”
Autora: Catherine Merridale
Editora: Temas e Debates
Páginas: 344 páginas

A historiadora Catherine Merridale aborda um dos episódios mais negros da biografia de Vladimir Ulianov (Lenine): a sua viagem de Zurique até Petrogrado organizada pelas autoridades alemãs com o objectivo de desestabilizar a situação na Rússia e levá-la a retirar-se da Primeira Guerra Mundial, em que combatia ao lado da Inglaterra e França.

Merridale conta todas as peripécias desta longa e arriscada real, mas vai intervalando a sua narrativa com capítulos sobre a evolução da situação política, económica e social na Rússia antes e depois da Revolução de Fevereiro/Março de 1917, o que ajuda o leitor a orientar-se nos corredores das intrigas da política russa e das posições das principais potências estrangeiras: Alemanha, França e Inglaterra face a ela.

Numa escrita leve e agradável, esta historiadora consegue, ao mesmo tempo que prende o leitor, colocar questões fulcrais, nomeadamente a moralidade do acto de Lenine de aceitar ajuda material e financeira de uma potência inimiga do seu país para alcançar os seus objectivos políticos.

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São muito ilustrativas as citações com que a autora do livro começa os capítulos do seu estudo, recorrendo a citações de Lenine tão claras que não deixam dúvidas quando ao maquiavelismo deste político que influenciou seriamente os destinos do século XX.

“Ministro hoje, banqueiro amanhã, banqueiro hoje, ministro amanhã. Um punhado de banqueiros que tem todo o mundo na sua mão, está a ganhar uma fortuna com a guerra”, escreve o futuro dirigente do golpe de Estado comunista de Outubro/Novembro de 1917.

Mas foi também junto de alguns desses banqueiros e especuladores alemães que ele conseguiu dinheiro não só para chegar a Petrogrado, mas para fazer a sua revolução. São os casos de Parvus, Keskula ou Furstenberg-Hanecki, três figuras proibidas na historiografia comunista, mas bem reais na vida de Lenine e do Partido Bolchevique. E o “dirigente do proletariado” tem explicação para isso: “Por vezes, um patife é útil ao nosso partido precisamente por ser um patife”.

Vladimir Lenine era implacável na crítica dos seus adversários de todos os quadrantes políticos, não poupando epítetos para os qualificar:

“Para o socialismo, o mais difícil de suportar não são os horrores da guerra… mas sim os horrores da traição exibidos pelos líderes do socialismo nos nossos dias”, mas ele considera não estar entre os “traidores” mesmo quando recebe dinheiro e ajuda do governo alemão.

Verdade seja dita, ele não aceita imediatamente a ajuda alemã, até negoceia pormenores pitorescos, mas o desejo de chegar a uma Rússia mergulhada numa “revolução democrático-burguesa” justificava tudo.

Durante o regresso e após à chegada à capital russa, o “mais humano dos humanos”, como dizia a propaganda soviética, receava ser acusado de espionagem pelas autoridades russas, o que veio a acontecer, mas uma das suas linhas de defesa era que ele tinha feito outra opção porque a Grã-Bretanha não permitiu o seu regresso através do seu território.

Este acto da vida de Vladimir Lenine não teve consequências negativas para ele porque foram poucos os que levaram a sério depois de pronunciar as suas famosas “Teses de Abril”. Numa das reuniões realizadas com os seus camaradas, estes ficaram petrificados ao ouvir da boca dele: “Aquilo que caracteriza a situação actual … é a passagem da primeira fase da revolução [democrático-burguesa] para a segunda, que deve depositar o poder nas mãos do proletariado e dos sectores mais pobres do campesinato”. Nikolai Sukhanov, apoiante de Lenine, constatou “o total isolamento intelectual de Lenine, não só entre os sociais-democratas em geral, mas também entre os seus próprios discípulos”. A esposa do dirigente bolchevique, Nadejda Krupskaia, vai ainda mais longe e diz a um amigo: “Receio que pareça que Lenine enlouqueceu”.

Catherine Merridale explica a fórmula do êxito de um marxista extremista. Lenine prometeu ao povo aquilo que este mais queria e o Governo Provisório saído da Revolução de Fevereiro tardava em dar: paz, pão e emprego. Neste sentido, o populismo de Lenine em pouco difere do daqueles que circulam actualmente no mundo, pintados de várias cores políticas. Soluções rápidas para problemas difíceis em situações em que o poder se encontra nas mãos de políticos desacreditados.

Outro dos aspectos importantes para que a autora chama a atenção é para a política irresponsável, por vezes suicida, das potências ocidentais a fim de conseguirem os seus objectivos. Os alemães apostaram em Lenine e perderam, os ingleses e franceses não conseguiram deslumbrar o perigo das palavras radicais de Lenine.

Por isso, não se pode deixar de estar de acordo com Catherine Merridale quando escreve:

“Neste momento, há quase tanta instabilidade no Planeta como existiu no tempo de Lenine e um conjunto ligeiramente diferente de grandes potências continua a trabalhar arduamente para garantir a sua supremacia no topo. Uma técnica que utilizam nos conflitos regionais, uma vez que o envolvimento militar directo tem tendência para custar demasiado, é ajudar e financiar rebeldes locais, sendo que alguns estão no terreno, mas outros têm de ser colocados lá precisamente como aconteceu com Lenine”.

E para concluir, um exemplo que mostra o regime selvagem que Lenine criou e se desenvolveu com Estaline: praticamente nenhum dos passageiros do comboio escaparam ao Grande Terror estalinista. Salvo Nadejda Krupskskaia, que passou “a marcar passo” quando Estaline ameaçou “arranjar outra viúva para Lenine”. Quanto ao continuador das ideias de Lenine, ele, na pintura que ilustra a capa, aparece atrás do seu mestre na chegada a Petrogrado, o que não corresponde à verdade histórica.