Uma menina aparece morta numa pequena aldeia na Extremadura, num crime de contornos hediondos. “Isto é coisa dos vermelhos separatistas”, diz o presidente da junta local. “Não”, diz Arturo Andrade. “Isto é coisa de algum grandessíssimo filho da puta.” Arturo é capitão dos serviços secretos na Espanha de Franco e o personagem de ficção mais importante da obra de Ignacio del Valle. Depois de seis anos em silêncio, a série policial regressa com Céus Negros e parte de um caso real que chocou Espanha: os milhares de bebés roubados do Franquismo.

Porque é que uma série tão seguida e premiada como a de Arturo Andrade esteve em suspenso durante seis anos? “Porque não encontrei nenhum tema de que gostasse”, responde prontamente ao Observador Ignacio del Valle, numa entrevista na sede da Porto Editora, que publicou Céus Negros em fevereiro. Até que, em 2012, o escritor leu uma notícia sobre o roubo de bebés durante todo o pós-Guerra Civil de Espanha. Foram milhares de crianças separadas das suas famílias biológicas republicanas, de modo a que fossem educadas por famílias simpatizantes do regime fascista de Francisco Franco.

A tal notícia que leu dizia respeito a acontecimentos passados nos anos 1980, época em que o escândalo rebentou no país vizinho. As notícias, que também chegaram a Portugal, visavam a Soror María Gómez Valbuena, uma religiosa octogenária detida por vender bebés de mulheres solteiras. Maria Valbuena, que não roubava os bebés a mando do Estado mas sim por iniciativa própria, enfrentou julgamento em 2012, já com uma idade avançada. Morreria no ano seguinte. “Esta senhora fez isto a vida toda, tinha uma rede de clientes em casas de acolhimento, a que acorriam jovens sem recursos. Estas jovens davam à luz e eles muitas vezes roubavam-lhes os bebés. Na época, vendiam-nos por um milhão de pesetas“, relata Ignacio.

“Céus Negros” foi publicado em fevereiro de 2017, tem 320 páginas e custa 17,70€.

Os primeiros raptos de bebés começaram em 1937, dois anos antes do fim da Guerra Civil. “A Frente Republicana estava a perder a guerra contra a Frente Nacional e as prisões estavam cheias de ‘vermelhos'”, explica Ignacio del Valle — a Frente Nacional, de Franco, chamava os Republicanos de “vermelhos” porque estes eram apoiados por socialistas, comunistas e anarquistas. “Então o Estado começou a trabalhar para que toda aquela massa pertencesse, no futuro, ao Estado Franquista. E como é que isso se faz? Através da educação, da doutrinação”, sublinha.

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A tarefa de reeducar os derrotados opositores foi entregue a um psiquiatra militar chamado Antonio Vallejo-Nájera. “Ele desenvolveu um programa de reeducação das massas republicanas através da instituição Auxílio Social, que socorria mães e crianças republicanas nas ruas e nas prisões”. O programa, de cariz católico e fascista, “utilizava, por um lado, parâmetros militares e muita violência”. Por outro lado, havia a adoção, ou perfilhamento, por parte de famílias simpatizantes com o regime fascista. É do que trata o livro Céus Negros.

“Isso fez-se com a aprovação de duas leis: uma de 1940 que permitia às mães prisioneiras ter os seus filhos só até aos três anos de idade, altura em que seriam entregues a instituições sociais, e outra de 1941 que permitia mudar o apelido a essas crianças. Com isto, podiam fazer o que quisessem, eles desapareciam!”, lamenta o escritor, que coloca Arturo Andrade a descobrir cada vez mais pistas sobre o funcionamento deste esquema das instituições do regime espanhol. Estima-se que cerca de 30 mil crianças tenham sido roubadas.

Quando o escândalo rebentou, nos anos 80, muitas famílias começaram a vasculhar o passado e a procurar os parentes biológicos. “É um tema tabu e há muitas vítimas, ainda há muita gente à procura dos pais. Mas como não há registos escritos de nada, é muito difícil. O que há são muitos testemunhos de pessoas que estiveram no Auxílio Social, e de outras que descobriram mais tarde o que aconteceu”, explica Ignacio del Valle. O caso da menina assassinada no livro “é uma metáfora”, afirma. “Mas acredito que se passaram crimes semelhantes.”

Francisco Franco (segundo a contar da direita), ao lado da mulher, prestes a entregar “avultadas quantias de dinheiro” a pais de famílias numerosas, simpatizantes do regime. © Getty Images

Céus Negros foi publicado no país vizinho no ano passado. “Politicamente, não teve nenhuma repercussão. Mas é isto que se passa em Espanha, não esperava outra coisa”, desabafa o autor. Isto porque, apesar da gravidade dos crimes, não houve ninguém a pagar por eles. “Que eu saiba, não houve uma única condenação. A Madre, por exemplo, morreu antes da sentença.”

A ausência de culpados deve-se, segundo o escritor, a um pacto de silêncio decorrente da transição para a democracia, ocorrida após a morte de Franco, em 1975. “Sem alguns pactos de transição, talvez não tivesse havido democracia. Não interessava entrar por certos caminhos”, diz. Mesmo após a descoberta do caso, “não houve muitas notícias, não há muitos livros. Porque é um tema muito sensível e no qual há muita gente implicada. Muitos dos filhos e netos dessas pessoas estão no poder.

“Se estás com um bloqueio criativo é porque não estás a trabalhar.”

Céus Negros é o quarto volume da série de Arturo Andrade, depois de A arte de matar dragões, de O tempo dos imperadores estranhos (adaptado ao cinema sob o título “Silencio en la nieve”), e de Os demónios de Berlim, com o qual venceu o Prémio da Crítica das Astúrias. Ao todo tem publicados 10 romances e um livro de contos. O mais recente saiu este ano em Espanha e chama-se Indigo Mar. “É um romance experiência publicado por uma editora independente, sobre os mecanismos mentais, as tensões, frustrações e bloqueios por que passam alguns escritores na hora de criar”, adianta.

Não queria fazer um ensaio, então inventou uma história sobre um escritor que está a passar por um bloqueio criativo. Experiência autobiográfica? “Bastante, bastante”, admite. Com uma ressalva algo surpreendente: “Nunca tive um bloqueio”, diz, firme. “Já tive dias maus, mas nunca um bloqueio.” “Que sorte”, comentamos. Ignacio não concorda. “Considero que… Se estás com um bloqueio é porque não estás a trabalhar. Se trabalhas todos os dias, é impossível que tenhas um bloqueio. Estás continuamente a assimilar informação, só tens de cruzá-la para criar”, defende.

Ignacio del Valle esteve em Portugal para participar no festival Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim. © Divulgação

Ou seja, aqueles seis anos sem pegar em Arturo Andrade não se deveram a qualquer bloqueio. Apenas a um “fim de ciclo”, explica. “Tinha estado oito anos a escrever sobre Arturo Andrade, três romances seguidos, e cansei-me dele. Se há coisa que não podes fazer quando escreves é aborrecer-te. Eu meti-me nisto porque não consigo viver sem escrever. Não passo bem, sou feliz a escrever. Se não és feliz, algo se passa.”

Parar a série significou perder dinheiro, “evidentemente”, confessa. Mas preferiu ganhar menos e escrever outros livros que lhe dessem mais prazer. “Há pouco tempo morreu Zygmunt Bauman, e ele tinha uma frase que me parece muito acertada: ‘A felicidade não deriva da ausência de obstáculos, mas sim da superação dos obstáculos.’ Na vida temos de encontrar obstáculos e superá-los para sermos felizes, e eu nessa altura já não estava a encontrá-los.”

A ideia agora é deixar o capitão em silêncio durante mais seis anos. Até que apareça outra história que o inspire? “Não, não. A história eu já tenho, mas tenho outro projeto na cabeça”, adianta. Trata-se de um romance histórico sobre as conquistas espanholas. “Sinto que ainda há muito para contar, tal como ainda há muito para contar sobre as conquistas portuguesas. E vocês também viram meio mundo.” Sobre as descobertas, promete contar tudo: “as coisas boas e as coisas más.”