Tecnologia

Bitcoins. O que são, como se produzem e para que servem as moedas virtuais que os “hackers” exigem como resgate

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Oito coisas que deve saber sobre as moedas virtuais que os hackers estão a exigir para desencriptarem os ficheiros dos 45 mil ataques que fizeram a 74 países, em 10 horas, na sexta-feira.

George Frey/Getty Images

Os hackers que organizaram o gigantesco ataque informático que atingiu 74 países em 10 horas (e que envolveu mais de 45 mil ataques) exigiram um resgate em bitcoins para devolver os ficheiros encriptados às empresas. Tinham seis horas para pagarem o resgate e o valor ia subindo à medida que as horas iam passando, explicou Kurt Baumgartner, principal investigador da Kaspersky Lab, à CNN. “A maior parte das pessoas que pagaram os resgates estão a pagar cerca de 300 dólares nas primeiras horas”, acrescentou. Mas o que são, para que servem e que perigos escondem estas moedas virtuais?

O que são bitcoins?

São moedas virtuais, que não se veem, não se tocam, não se sentem. São códigos encriptados, para os quais existem carteiras próprias na web ou no computador, e cuja emissão e transmissão não é controlada por nenhum banco central ou Governo. Estas operações são feitas por uma rede de computadores distribuída pelo mundo inteiro, cujo histórico é aberto e transparente, sendo guardado numa base de dados a que se chama blockchain. Os donos dos computadores que participam na produção de bitcoins são uma espécie de “mineiros”.

A 3 de março de 2017, o valor de uma bitcoin superou pela primeira vez, a cotação de uma onça de ouro, atingindo 1.268 dólares. Não foi um máximo histórico, mas foi a primeira vez que a moeda virtual superou o valor, em dólares, da unidade de medida mais comum para o ouro, a onça (que cotava quinta-feira nos 1.233 dólares). Nesta sexta-feira, uma unidade de bitcoin valia 1552,46 euros.

Quem são os “mineiros”, que produzem bitcoins?

São indivíduos que disponibilizam super computadores a esta blockchain para validar e gerar consenso entre as transações. Em troca, recebem bitcoins. Quando a moeda virtual apareceu, bastava descarregar um software num computador normal para contribuir para a validação das operações, mas, hoje, os “mineiros” são tantos, que são precisos computadores específicos, ASIC, para fazer a mineração. O grau de dificuldade é cada vez maior e o tempo necessário para obter lucro com o investimento também.

Joaquim Lambiza, diretor-geral da Captain Wings, empresa que produziu o primeiro ATM de bitcoins em Portugal, explicou ao Observador em 2014 que, para conseguir obter o retorno de cinco mil euros de investimento num super computador, (ou seja, para receber em bitcoins o equivalente a este valor), é preciso que ele esteja a trabalhar 24 horas por dia durante 250 dias. Ao valor do aparelho soma-se o gasto com a eletricidade. E é cada vez mais difícil entrar no sistema.

“É como ter um ferro de engomar constantemente ligado”, explicou Ricardo Gonçalves, outro “mineiro”, ao Observador, que, em 2013, investiu 900 euros num computador normal e em duas placas gráficas “relativamente poderosas” para minerar litecoins, uma moeda que resulta da modificação que fizeram no código da moeda lançada por Nakamoto. “Já era tarde para entrar na mineração de bitcoins“, conta. Já era preciso um ASIC.

O que é que os “mineiros” recebem em troca?

À medida que o super computador dos “mineiros” vai confirmando as transações na rede, eles vão recebendo parcelas da moeda em questão. Mas em 2014 já eram tantos os “mineiros” envolvidos que estava a tornar-se cada vez mais difícil entrar no processo de mineração e contribuir para a validação das transações. Ou seja, é cada vez mais difícil receber bitcoins. “O próprio sistema que regula a produção deteta quando há muito poder informático a entrar na plataforma e aumenta a dificuldade do enigma criptográfico que o computador tem de resolver para conseguir minerar”, explicou Joaquim Lambizo ao Observador.

Onde é que se produzem mais bitcoins?

Na China. De acordo com um artigo publicado pela BBC, em 2016, há uma instalação de super computadores numa montanha chinesa — tão elevada que é preciso levar garrafas de oxigénio para lá chegar — e onde não há rede de telemóvel, só internet. Nesta montanha, há uma empresa que tem centenas de computadores a validar as transações.

Chandler Guo, o fundador da empresa, conta que são emitidas 50 bitcoins por dia e que o peso destas “minas” na China tem vindo a crescer exponencialmente. Em 2016, representavam 70% da atividade mundial.

Como se controla a inflação nesta moeda?

A inflação da bitcoin está predefinida matematicamente na tecnologia, logo está controlada, bem como a quantidade de moedas que podem ser produzidas: 21 milhões. Atualmente, a cada dez minutos, são gerados 12,5 novas moedas, ou seja, bitcoins, que podem ser divididos em oito casas decimais – cêntimos das bitcoins chamam-se satoshis. Após a emissão das 21 milhões de moedas permitidas, a economia da bitcoin passa a ser deflacionária.

Há risco de haver burla nas transações com bitcoins?

Sim, há risco, mas é ínfimo em relação a outras moedas descentralizadas, que podem alterar saldos sem ninguém perceber. Chama-se double spending, que, em português, significa algo como “gasto duplo” — os consumidores utilizam a mesma moeda para efetuarem duas transações. E a culpa é de um sistema que se chama “ataque 51%”. Como funciona?

Todos os super computadores que estão ligados ao sistema geram 100% do poder de processamento de bitcoins, que está dividido por várias pools (computadores que agregam “mineiros”) e por “mineiros”. Como há poucas pessoas a minerarem sozinhas, porque é mais difícil obter retorno, as pools mais conhecidas agregam mais “mineiros” e podem fazer uma distribuição desproporcional do poder de processamento. Ou seja, quando uma só pool é responsável por 51% das confirmações do sistema, o risco de burla aumenta. Porquê? Porque as confirmações das transações demoram mais tempo a serem efetuadas ou podem nem sequer existir. Nesse compasso de espera, o utilizador fica livre para utilizar a mesma moeda em várias operações.

O double spending é um problema, mas é muito pouco provável que exista uma pool a concentrar 51% da mineração.

O que diz o Banco de Portugal sobre as bitcoins?

Em 2014, foi inaugurado o primeiro ATM para bitcoins, onde os utilizadores desta moeda podem trocar o valor que têm em bitcoins por euros. Na altura, o Banco de Portugal alertou para os “riscos de utilização destas moedas virtuais”, advertindo que o ATM “não está integrado no sistema de pagamentos português”.

Citada pela agência Lusa, a instituição financeira sublinhava que “as moedas virtuais não são seguras” e que as entidades que as emitem e comercializam “não são reguladas nem supervisionadas por qualquer autoridade do sistema financeiro, nacional ou europeias”. Além disso, “em caso de desvalorização parcial ou total das moedas virtuais, não existe um fundo que cubra eventuais perdas dos utilizadores”, acrescenta o banco central.

Mais: o consumidor pode perder o dinheiro na plataforma de negociação e corre o risco de o dinheiro poder ser roubado”, sem que haja garantia de reembolso. O BdP alerta ainda que “as transações em moeda virtual podem ainda ser utilizadas indevidamente em atividades criminosas, incluindo no branqueamento de capitais”.

Quem é que criou as bitcoins?

Durante muito tempo, acreditou-se que o pai das moedas virtuais era um japonês chamado Satoshi Nakamoto, mas, à partida, esse seria o pseudónimo do empresário australiano Craig Wright, que há cerca de um ano revelou ser o criador das bitcoins. À BBC, Craig Wright apresentou documentos e provas que só podiam estar na posse do verdadeiro pai das moedas virtuais, como as mensagens numeradas que incluíam os primeiros códigos encriptados. Apesar de ter apresentado essas provas, essa autoria ainda não esta provada. O verdadeiro criador das bitcoins ainda está por descobrir.

Artigo atualizado às 8h30 de sábado com mais detalhes sobre o criador das bitcoins.

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