Duas horas de caminhada entre Fermil e Mondim de Basto, pela berma da estrada nacional, é desporto radical que desaconselhamos: bólides de matrícula amarela, tratores agrícolas, camiões interessados em figurar no remake de Um Assassino pelas Costas, condutores com vocação desperdiçada de pilotos de rally. No entanto, nem tudo é velocidade e violência latente. Uma menina dos seus quatro anos, agarrada a um panda de peluche, vem à porta de uma casa e chama pela avó que está com o outro neto na esplanada do café: “Vamos embora que aquela já acordou.” Bem acordados têm de andar os ciclistas amadores cujo número aumenta à medida que nos aproximamos de Mondim. Um quase fica a conhecer biblicamente o retrovisor de um Mercedes branco: “olha-me o filha da puta!!!” Recupera o equilíbrio e regressa à estrada.

São 10h30 e as ruas da vila de Mondim de Basto são cruzadas por viaturas da GNR e carros de bombeiros. Famílias de mantas estendidas e mesas de piqueniques montadas no parque municipal aprestam-se para uns nada escandalosos déjeuners sur l’herbe. A avenida Dr. Augusto Brito foi tomada de assalto pela parafernália publicitária dos patrocinadores da Volta. Os camiões de merchandising de Sporting e Porto são os mais espaventosos, mas o povo, atraído pelas câmaras da RTP e por canções como “Sou Calceteiro” ou “Anda Cá ao Pai”, concentra-se na Praça do Município.

O presidente da Câmara de Mondim de Basto, Humberto Cerqueira, recebe-nos no seu gabinete, onde não chega o som do festival no exterior. À frente da autarquia desde 2009, quando o PS conquistou um velho bastião social-democrata, reconhece a importância da Volta para o município que dirige, mas também diz que não imagina a Volta sem a etapa da Senhora da Graça. Perguntamos como é que encarou a novidade de este ano a etapa se realizar a um dia de semana: “a Volta fica a perder, mas nós não somos envolvidos no processo de decisão. Há um contrato com a duração de três anos e não há nenhuma cláusula que estipule o dia da semana em que a etapa se realiza.” Apesar de uma decisão tão importante estar nas mãos da organização, o investimento da Câmara, “55 mil euros, mais IVA”, sublinha o edil, justifica-se pelo “retorno direto nas áreas da restauração, da hotelaria e do comércio, e pelo retorno indireto de quatro horas de transmissão televisiva, incomparável com outras formas de divulgação”, diz-nos. A expectativa é a de manter a etapa e discutir com a organização o reforço do número de equipas participantes: “Não depende de nós, mas estamos até disponíveis para aumentar o investimento.”

“Olhe que ainda é um quilómetro até lá acima”

Depois do almoço, está na hora de atacar o Monte Farinha e, mesmo com uma temperatura amena, é melhor fazê-lo no interior de um táxi com ar condicionado. Quando a estrada começa a empinar, roulottes e tendas de campismo começam a colorir a berma. À falta de seis quilómetros para a meta, a maioria dos ciclistas amadores, incluindo um que enverga a camisola às bolinhas vermelhas de líder da montanha do Tour que me lembra Chiappucci e Virenque, dá sinais de cansaço, mas não de desistência. Do outro lado das barreiras de segurança, adeptos comem vagarosamente à sombra de toldos improvisados. Alguns alinham com paciência e esmero dezenas de garrafas de cerveja no chão, outros desfraldam bandeiras dos clubes e um atreve-se a trepar umas rochas íngremes para aí afixar um pano com a imagem imortal de Che Guevara, a quem não se conhecem proezas velocipédicas (era apreciador dos prazeres das duas rodas, mas com motor).

Com tão escassa clientela, o Rei dos Cachorros, na sua majestosa roulotte, tem a monarquia em perigo, pelo menos por hoje. Da Maia, terra de tradições velocipédicas, veio o auto-denominado Condomínio do Penico, nome cuja origem não pudemos determinar. A dois quilómetros da meta, instalou-se a Casa da Trofa do Futebol Clube do Porto o que não é de estranhar porque, à excepção de uns friorentos sportinguistas munidos de cachecóis, as camisolas azuis e brancas dominam na subida. “Edgar Pinto – Rápidas Melhoras” reza um cartaz em homenagem ao infeliz ciclista que caiu na etapa anterior e foi obrigado a desistir. À entrada do último quilómetro, um militar da GNR impede a passagem de automóveis. Espreita para o interior do táxi: “É da organização?” O nosso ar perplexo torna inútil a resposta. “Mas espere aí que vou ver se pode ir lá.” Agradecemos, mas ficamos mesmo ali. “Olhe que ainda é um quilómetro até lá acima”, diz o militar de óculos escuros, mas visivelmente desconfiado da nossa capacidade física para suportar o ordálio.

Um atleta é assistido durante a etapa da Senhora da Graça.

A caminho do Alto da Senhora da Graça ouvimos, de raspão, a conversa de um grupo encostado às barreiras metálicas. Um dos homens explica à mulher deitada sobre uma toalha que “quem fizer os 1.600 e tal quilómetros em menos tempo é que ganha a Volta.” Como o esclarecimento parece insuficiente acrescenta que “hoje pode ganhar um mas se amanhã perder muito tempo passa logo para trás.” E assim é. Um pouco mais à frente, encontramos três jovens imberbes vindos de Vila Pouca de Aguiar no dia anterior e que pernoitaram ali numa minúscula tenda. O líder do triunvirato, Francisco Fernandes Pinto, veste uma camisola do Porto e na cabeça tem um boné à moda antiga que comprou na Volta à Espanha do ano passado. Começou a vir para a Senhora da Graça com o pai, mas este ano o pai não pôde por estar a trabalhar: “Como é dia de semana há muito menos gente.” Mas, de acordo com o jovem, o problema não é só o dia: “Nos últimos cinco anos tem estado fraco. Antigamente havia o dobro das pessoas”. Atribui a responsabilidade à organização: “Devia haver mais montanha, as etapas são mal planeadas. Ainda no outro dia, em Castelo Branco, os ciclistas enganaram-se no caminho.” Adepto do Porto, acha que o espanhol Gustavo Veloso é o grande candidato à vitória final, mas gostava de ver um português a ganhar.

“Os ciclistas a passar é só dez minutos. O resto é que é especial”

Francisco não é apenas um adepto da modalidade, também é praticante e já subiu várias vezes a Senhora da Graça. “Não aconselho”, diz-nos com a serenidade da experiência. Mas qual é o grau de dificuldade desta etapa comparado com o de outras lá fora? “Esta é mais fácil. Na Volta a Espanha, há a subida de Lagos de Covadonga, nas Astúrias, e aquilo são 20 quilómetros e com inclinações superiores às daqui.” Um dos amigos, Rui Sousa, de 12 anos, sai da tenda e com autoridade de geógrafo garante que “quando vêm por Vila Real é mais difícil.” E esta etapa faz falta à Volta? “Claro. Sem a Senhora da Graça a Volta perdia a magia.” E o que traz aqui as pessoas, diz Francisco, é o convívio: “os ciclistas a passar é só dez minutos. O resto é que é especial.”

Prosseguimos a escalada, em ritmo de penitência, atingidos por farrapos de conversas: “A maior parte são do Porto, ainda só vi um do Sporting a passar”, “anda, velho!” grita um jovem ciclista para o elemento mais atrasado de um grupo a pedalar com esforço, “vergonha é ter amigos como tu, sportinguistas”. Passa outro grupo de ciclistas na cauda do qual vem uma curiosa motoreta com sistema de som e o malhão a marcar o ritmo.

Outros grupos que facilmente se destacam dos adeptos indiferenciados são os de apoiantes de certos ciclistas, como João Benta, César Fonte ou Frederico Figueiredo. De camisolas verdes com a fotografia do ciclista, familiares e amigos deste último instalaram-se a 500 metros da meta. O pai, José Figueiredo, 50 anos, praticou ciclismo como amador e acha que a Senhora da Graça, onde vinha com o pai, é uma etapa especial. “Gostava que o meu filho chegasse no lugar que costuma e que não caísse”. Emília, mãe de Frederico, corrobora: “sim, que ele não caia.” Os pais e a mulher, que o acompanham em todas as etapas da Volta e em muitas outras provas, sofrem muito e o culpado da paixão de Frederico pelas bicicletas está ali, silencioso e incógnito: “Foi o tio que lhe pôs o bichinho”, diz Emília e aponta para o irmão. “É o Carlos Pinho”, esclarece José.

Carlos Pinho, que correu por equipas como a Sicasal e a Barbot, foi um dos mais notáveis trepadores do pelotão português na década de 90. Dizemos-lhe que sem a camisola azul, símbolo do líder da montanha na Volta, não é fácil reconhecê-lo. Emília diz que o irmão, desde que abandonou o ciclismo, nunca mais voltou a pegar numa bicicleta. “Não tenho saudades, mas a Senhora da Graça era uma das subidas de que mais gostava”, afirma com a ligeira malícia de quem parecia subir de mota. Vem para apoiar o sobrinho e também pelo ambiente de convívio que só conheceu depois de se retirar.

Falamos da carreira de Frederico, que hoje representa o Sporting Tavira, depois de ter corrido pela Rádio Popular Boavista no ano passado: “é de quem lhe pagar mais”, diz a mãe, “mas é mesmo sportinguista”. José acha que o regresso dos clubes grandes à modalidade pode ser positivo: “têm muitos adeptos mas se for para regressarem e desistirem logo não vale a pena.” Mesmo com Sporting e Porto na estrada, o clima não é idêntico ao da guerra civil no futebol: “o espírito é outro, no ciclismo as pessoas vêem o sacrifício do atleta e respeitam-no, independentemente da cor.” E não têm vontade de dar uma ajudinha ao filho? “Dá vontade”, sorri José, “mas há respeito por todos.” Por falar em empurrões (ler o artigo de ontem), Carlos Pinho chama a atenção para um grupo de ciclistas que se aproxima de nós: “olha quem vem ali! É o Venceslau.” E é mesmo ele. Aos setenta e dois anos, Venceslau Fernandes, vencedor de uma Volta a Portugal em 1984, ainda sobe a Senhora da Graça a pedalar e sem empurrões. É tão magro que se confunde com a própria bicicleta, como se fossem um só.

“Quando era ao domingo, vinha com a família toda”

Junto à meta, vários ciclistas amadores recuperam o fôlego. Um deles é Ernesto Morais, bombeiro sapador, ciclista nas horas vagas e quase licenciado em Senhora da Graça: “Venho cá desde há cinco anos. Hoje viemos de Ponte de Lima, fizemos 135 quilómetros” diz, num discurso estranhamente articulado e coerente para quem acabou de subir o Monte Farinha. A motivação é a de “sentir um pouco o que os profissionais sentem”. E o que sentem? “Pá, é duro.” E este ano foi ainda mais duro para Ernesto porque veio praticamente sem ter treinado, “mas para o ano não me enganam”. Não vem? “Venho, claro, só se não tiver saúde, mas vou treinar, aliás, costumo treinar com profissionais como o César Fonte.” Nesse momento, chega um dos elementos do grupo de Ernesto. É o Virenque por quem passámos a seis quilómetros da meta.

O pódio já está pronto para receber o vencedor, colaboradores da organização enchem insufláveis publicitários, bailarinas ao serviço de um dos patrocinadores fumam cigarros soturnos (dali a poucas horas irão executar coreografias quase perfeitas com uma obrigatória alegria comercial), amadores abastecem-se de cerveja preta e refrigerantes, ouvem-se bombos e um acordeão, turistas entram na loja de recordações religiosas e saem de mãos vazias. Hoje, de sagrado, a capela só tem a sombra que oferece aos visitantes. É ali perto que encontramos um numeroso grupo de aficionados do pedal vindos de Braga, Paredes e Barcelos. Apetrechados de extensões, mesas desmontáveis e cadeiras de esplanada, impõem respeito, quase tanto como as garrafas de vinho vazias, altivas como sentinelas.

Manuel Oliveira vem cá há “sete ou oito anos.” É outro dos que se queixa de a etapa ser a uma terça-feira: “Quando era ao domingo, vinha com a família toda. Este ano há muito menos gente, uns 30% do habitual”, diz com um insólito rigor estatístico. Jorge Vilaça, que veio de Braga, é mais contundente: “A organização não respeitou quem aqui vem há anos. As subidas são o que traz gente” e quem assim fala habituou-se a ir com os pais à Senhora da Penha, ao Bom Jesus, “nos tempos da Coelima”, e ao “circuito místico de Vila do Conde”. Ainda se lembra quando, numa subida em Guimarães, o ciclista Firmino Bernardino “se meteu entre dois carros e desceu aquilo aos trambolhões. Fodeu-se todo pela mata abaixo mas ainda ganhou a prova”, recorda Jorge Vilaça com nostalgia. “Naqueles tempos o capacete era o cabelo. Se fosse hoje o Joaquim Agostinho não tinha morrido”. A evocação do maior ciclista português de sempre traz-lhe outras memórias: “No tempo do Agostinho e do Fernando Mendes, que era do Benfica, ouvia tudo na rádio, eles a dizerem ‘Agostinho parou agora num fontanário’.” Gera-se então uma discussão menor sobre a lenda heróica do começo tardio da carreira de Agostinho: “ele ia buscar as taleigas de farinha na bicicleta e passou pelos ciclistas da Volta”, diz Jorge. “Isso não foi bem assim”, retorque um amigo que conhece uma versão que envolve batatas.

Pergunto-lhes porque é que nunca mais tivemos um ciclista do nível de Joaquim Agostinho. “Já tivemos, as pessoas é que já não se lembram dele”, corrige um dos homens que até aí tinha estado em silêncio: “O Ribeiro da Silva [vencedor de duas Voltas nos anos 50], que morreu muito novo num acidente de mota, era tão bom como o Agostinho. Até lhe fizeram uma estátua lá em Lordelo.”

A conversa não distrai quatro membros do grupo que disputam uma sueca renhida: “Se fizeres uma renúncia o melhor é fugires”, “o meu companheiro está seco”, “qual é o trunfo?” O sino dá as cinco badaladas. Não falta muito para os ciclistas chegarem, mas ninguém parece ter muita pressa. “A gente vem cá pelo convívio e o gosto pelo ciclismo”, afirma Jorge Vilaça. “Não faça como um colega seu, acho que do Jornal de Notícias, que me perguntou porque é que eu vinha cá e eu disse que era para ver as gajas. Ele pôs aquilo no jornal e a mulher queria dar-me com o rolo da massa.” [gargalhada geral] Um dos amigos acompanha a transmissão televisiva no telemóvel: “Está quase.” Zé, que foi substituído na sueca, olha com admiração para o telemóvel do outro: “eu tenho lá em casa um telemóvel cinco estrelas, mas não sei trabalhar com ele, não me entendo com os dedos”. Como prova da sua inaptidão tecnológica exibe um telemóvel arcaico com um certo orgulho ludita.

Raúl Alarcón, da W52-FC Porto, venceu a etapa-rainha da Volta a Portugal em bicicleta.

De repente, recolhem o baralho, arrumam a mesa e partem à prcura de um lugar de onde se veja a meta. Dez minutos depois, anunciados com antecedência pelo helicóptero, chegam os primeiros ciclistas. O vencedor é o camisola amarela, Raúl Alarcón, da W52-FC Porto. Mas, quando se trata da Senhora da Graça, isso é apenas um pormenor.