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“Como se explica tanta boa disposição numa equipa?”, perguntou um jornalista russo a Rui Vitória, depois de ter visto o ambiente de confraternização e camaradagem entre os jogadores do Benfica em plena Arena CSKA Moscovo. “Acreditamos que vir para cada treino com um sorriso na cara e boa disposição é meio caminho andado para ser melhor profissional e ter melhor rendimento. Foi assim que alcançámos alguns êxitos e é assim que vamos continuar a trabalhar”, respondeu o treinador encarnado, num registo descontraído e de confiança.

Até esta época, sobretudo em termos europeus, havia razões para isso entre o conjunto da Luz. Mas quando Zhamaletdinov completou a reviravolta do CSKA Moscovo em Lisboa na primeira jornada da Liga dos Campeões, o sorriso começou a ficar amarelo. Com o passar do tempo, foi deixando de existir. Agora, quando Jardel fez um autogolo 70 dias, 20 horas e 51 minutos depois desse 2-1 dos moscovitas em Portugal, desapareceu por completo: o Benfica somou na Rússia a quinta derrota consecutiva no grupo A da Liga dos Campeões (desta feita, por 2-0) e está fora das provas europeias com uma jornada ainda por disputar. Nunca tinha acontecido ao clube, nunca tinha acontecido a um cabeça-de-série. E mais registos negativos estão aí à porta.

No campo dos ‘ses’, como seria se o Benfica, que até estava melhor nesse encontro, não tivesse perdido com o CSKA na primeira jornada? Provavelmente estaríamos agora a escrever num contexto e num cenário diametralmente opostos. Mas, em nove minutos, perdeu. E seguiu-se uma pesada goleada na Suíça, frente ao Basileia (5-0). E mais dois jogos com o Man. United decididos com autogolos do guarda-redes. E, agora, outra derrota com um golo fora-de-jogo e outro autogolo (agora de um defesa). Os ‘ses’ não existem no futebol e aqueles nove minutos acabaram por ser um bater de asas da borboleta que atirou os encarnados para uma interminável teoria do caos que conheceu agora o seu epílogo. Mas não explicam, por exemplo, os 400 minutos seguidos sem marcar (e a contar).

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Ficha de jogo

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CSKA Moscovo-Benfica, 2-0

5.ª jornada do grupo A da Liga dos Campeões

Arena CSKA Moscovo, na Rússia

Árbitro: Deniz Aytekin (Alemanha)

CSKA Moscovo: Akinfeev; Vasili Berezutski, Vasin, Ignashevich; Mário Fernandes, Natcho, Golovin, Schennikov (Nababkin, 50′); Vitinho (Kuchaev, 77′), Dzagoev (Gordyushenko, 84′) e Wernbloom

Suplentes não utilizados: Pomazun, Chalov, Zhamaletdinov e Olanare

Treinador: Viktor Goncharenko

Benfica: Bruno Varela; André Almeida, Luisão, Jardel, Eliseu (Zivkovic, 83′); Fejsa, Filipe Augusto (Raúl Jiménez, 57′), Pizzi; Salvio, Diogo Gonçalves (Cervi, 46′) e Jonas

Suplentes não utilizados: Fábio Duarte, Lisandro López, Samaris e Seferovic

Treinador: Rui Vitória

Golos: Schennikov (13′) e Jardel (56′, p.b.)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Eliseu (31′), Wernbloom (39′), Luisão (61′), Nababkin (70′) e Natcho (72′)

Com André Almeida e Eliseu de regresso às laterais, o meio-campo habitual de combate versão Champions (Fejsa-Filipe Augusto-Pizzi, porque Krovinovic não foi sequer inscrito…) e Jonas sozinho na frente, cedo se percebeu que o Benfica iria sentir dificuldades. E a forma como Vitinho, aos quatro minutos, deixou o primeiro aviso com um remate em arco ao lado da baliza de Bruno Varela acabou por dizer muito mais do que se poderia pensar na altura.

Os comandados de Rui Vitória foram conseguindo ter mais bola e foram tentando jogar no meio-campo adversário, mas falharam sempre naquela que seria a chave do jogo: controlar os tempos e os momentos de jogo, algo que os russos fizeram na maioria do tempo. O CSKA Moscovo, que mantém há mais de uma década um esquema tático e um modelo praticamente intactos, até pode revelar algumas fragilidades em termos defensivos no ataque organizado dos adversários, mas esconde essa fraqueza com a força das transições. E fez assim a diferença.

Aos 13′, no seguimento de um lance confuso mas onde a passividade da defesa encarnada foi evidente, Schennikov apareceu isolado frente a Bruno Varela e inaugurou o marcador. Como se perceberia depois na repetição, o médio recebe a bola adiantado em relação à defesa do Benfica (e não havendo vídeo-árbitro, o erro acabou por passar), mas a forma como Natcho consegue solicitar o companheiro sem pressão no corredor central é demasiado má.

Dois minutos depois, após uma assistência de cabeça de Salvio, Jonas falhou onde não costuma falhar (entrada da pequena área) e como não costuma falhar (pegou mal na bola, que saiu quase em rosca ao lado). As águias tiveram uma oportunidade de ouro para o empate e para ganharem asas para outros voos no jogo; ao invés, perderam essa hipótese de vez. E, até ao intervalo, a melhor oportunidade pertenceria a Dzagoev, que obrigou Bruno Varela a uma fantástica defesa (26′). Rebobinando esse lance, contamos tudo o resto: Vitinho fez um sprint até à esquerda para evitar de carrinho que a bola saísse pela linha lateral, levantou-se ainda atabalhoado, reocupou posição, recebeu a bola e cruzou sem grande pressão de adversários; depois, o corte deficiente de Luisão fez o resto.

Na segunda parte, o Benfica entrou ligeiramente melhor. Ou, pelo menos, conseguiu estabilizar um pouco o jogo, não pela substituição feita ao intervalo (Diogo Gonçalves deu o lugar a Cervi) mas pela melhor colocação das unidades do meio-campo na transição defensiva. No entanto, e quando se pensava que já nada de “anormal” podia acontecer, uma boa saída rápida que explorou a velocidade de Vitinho em profundidade acabou com um cruzamento que foi bater na perna de Jardel e enganar Bruno Varela. Aos 56′, o 2-0 “matou” o encontro.

Raúl Jiménez e Zivkovic (a sete minutos do fim, mais descontos) ainda entraram, mas a verdade é que os dois remates enquadrados que o Benfica – que precisava ganhar na Rússia, convém reforçar – tinha até à entrada dos últimos 20 minutos tinham pertencido aos dois laterais, Eliseu e André Almeida. Perante isto, não há muito mais a acrescentar. Assim como o CSKA não mais acrescentou, porque desceu linhas e prescindiu dos elementos que lançavam as transições rápidas para controlar da melhor forma o encontro, o que conseguiu.

No final do jogo, dificilmente algum jornalista russo terá perguntado sobre a boa disposição que de vive no plantel do Benfica. E que é salutar. Mas, nesta altura, o tempo é de reflexão. Porque, por mais azares e infortúnios que se possa ter, cinco derrotas consecutivas e um registo de um golo marcado e 12 sofridos diz praticamente tudo, sobretudo para um clube que tinha na ambição europeia um dos seus pilares de crescimento a nível financeiro, de reputação e de prestígio, é demais. Agora, na receção ao Basileia, o objetivo mesmo é fugir aos piores registos de sempre na Liga dos Campeões…