Juan Carlos I celebra esta sexta-feira 80 anos. O homem que reinou Espanha durante 38 anos, um período que o El País assegura ter sido o de maior prosperidade democrática e económica do país, nasceu a 5 de janeiro de 1938 em Roma, onde a família real se encontrava exilada desde a proclamação da República espanhola, em 1931.

O rei emérito de Espanha passou grande parte da juventudo no Estoril, concelho de Cascais, para onde se mudou aos 8 anos. Foi na Vila Giralda que a família real se instalou e foi junto à praia que Juan Carlos viveu momentos felizes e outros trágicos — o seu irmão mais novo, Alfonso, foi vítima do disparo acidental de uma arma fogo e perdeu a vida aos 14 anos.

[Veja neste vídeo oito momentos-chave da vida de Juan Carlos I, um por cada década]

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As suspeitas sobre a morte de Alfonso são um peso que Juan Carlos ainda hoje carrega — recentemente, o historiador e jornalista José Maria Zavala publicou o livro O Segredo do Rei, onde dá a entender que terá sido o rei emérito a disparar sem querer sobre o irmão mais novo. O pequeno Alfonso foi enterrado num cemitério em Cascais, depois de morrer a 29 de março, quinta-feira santa. A arma que o vitimou foi lançada ao mar pelo próprio pai.

Foi nas praias de Cascais que a família real espanhola enterrou a mágoa pela perda de Alfonso e foi também aí que Juan Carlos encontrou uma paixão que ainda hoje põe em prática. Não, não se trata de nenhuma pessoa: falamos da vela, desporto no qual se sagrou campeão mundial pela primeira vez aos 79 anos (venceu por 12 vezes a Copa de Espanha, 11 vezes o Troféu Conde de Godó e outras seis a Copa do Rei, tal como escreve o jornal Sol).

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Do mar para a terra: a primeira vez que Juan Carlos pisou o país de origem foi em novembro de 1948, tinha 10 anos. Em 1954, Juan Carlos termina o bacharelato e recebe instrução militar na Academia Geral Militar de Saragoça entre 1955 e 1957. Segue-se a Escola Naval Militar de Marín, em Pontevedra, e a AGA (sigla espanhola para “Academia General del Aire”, localizada em Múrcia).

O casamento entre Juan Carlos I e Sofia da Grécia acontece a 14 de maio de 1962 em Atenas. À data, toda a Europa conseguiu assistir à cerimónia através da televisão, à exceção de Espanha, uma vez que o ditador Franco proibiu a sua transmissão — as poucas imagens que circularam foram aquelas em que não apareciam os pais do noivo. Sofia, a mulher de Juan Carlos I, viria a ser a rainha consorte de Espanha entre 1975 e 2014 — é filha do rei Paulo da Grécia (1901-1964) e da princesa Frederica de Hanôver (1917-1981).

Juan Carlos e Sofia casaram-se a 14 de maio de 1962. AFP/Getty Images

O Palácio da Zarzuela, nos arredores de Madrid, torna-se a residência oficial do casal e a primeira filha, Elena de Bourbon, nasce em 1963. Seguem-se Cristina de Bourbon, em junho de 1965, e o atual rei de Espanha, Felipe VI, que nasceu em janeiro de 1968 — no próximo dia 30 completa 50 anos.

Cristina, aquela que chegou a ser considerada a menina bonita da Casa Real espanhola, é hoje um nome envolto em polémica. A infanta nasceu num berço de ouro, mas o casamento com Iñaki Urdangarin distanciou-a da família e levou-a à justiça. Cristina foi absolvida do caso Nóos no começo do ano passado, mas o marido acabou por ser condenado a seis anos e três meses de prisão por crimes de prevaricação, desvio de capitais, fraude, tráfico de influência e delitos contra o tesouro.

Em 1969, Juan Carlos foi oficialmente designado herdeiro ao trono e foi-lhe dado o título de “Príncipe de Espanha” depois de jurar fidelidade a Franco e ao Movimento Nacional — refira-se que o título em questão foi criado pelo ditador, de modo a evitar o nome “Príncipe das Astúrias”. Franco morre em novembro de 1975, aos 82 anos, após quase 40 anos de ditadura. No mesmo mês, Juan Carlos é proclamado rei — na fotografia da cerimónia, tal como escreve o El País, Sofia usa um vestido vermelho vivo, um símbolo claro de tempos de mudança (é só em maio de 1977 que o pai de Juan Carlos lhe confere os direitos dinásticos e a chefia da Casa Real espanhola).

Juan Carlos, a mulher e os três filhos do casal, fotografados em outubro de 1973. STRINGER/AFP/Getty Images

O reinado de Juan Carlos é tido por especialistas como o período de “maior pujança democrática e económica de Espanha”, com a ação do então chefe de Estado a ser considerada “determinante”, escreve o El País num artigo publicado esta quinta-feira. Mas não há bela sem senão.

Um dos momentos mais marcantes e mais recentes do seu reinado aconteceu a 3 de abril de 2007, numa cimeira Iberoamericana realizada no Chile, quando um rei de Espanha já sei paciência manda calar o presidente da Venezuela: “Por qué no te callas?”. No mesmo ano, Juan Carlos protagoniza outra polémica, quando é alvo de fortes críticas depois de matar um elefante no Botswana.

A popularidade de Juan Carlos tem sofrido ao longo dos anos e isso aconteceu em grande parte devido ao envolvimento do marido da infanta Cristina no caso Nóos. Outras notícias deram também o seu contributo: segundo um novo livro, publicado no verão de 2017, o rei emérito de Espanha terá tido cerca de 5.000 amantes ao longo da vida, além de um helicóptero usado apenas para encontros secretos. O certo é que os relatos sobre um eventual divórcio entre Juan Carlos I e a mulher continuam a existir.

Juan Carlos abdicou da coroa em favor de Felipe VI a 18 de junho de 2014, numa altura em que a Casal Real gozava de pouca fé entre os seus súbditos e o país enfrentava uma grave crise económica. Em setembro de 2014, o Observador entrevistou José Apezarena, jornalista especializado na Casa Real e autor do livro “Felipe e Letizia, a conquista do trono”. À data, Apezarena deixou o seguinte comentário: “É preciso encontrar um lugar para ele [Juan Carlos], mas nada com muito brilho, em que não esteja muito ativo, que não saia muito. (…) Felipe tem de ganhar o seu lugar sozinho, sem o pai por trás.”