Jorge Arnoso ainda se recorda de como conheceu D. Juan Carlos. Foi há quase 70 anos, na década de 1940, “uns meses depois da chegada da família Real a Portugal”. “Isso deveu-se ao facto do meu pai ter sido apresentado a Suas Altezas Reais os Condes de Barcelona por amigos espanhóis de famílias tradicionalmente próximas da Casa Real Espanhola, que estudaram juntos em Inglaterra”, explica em depoimento para o Observador.

Neto do Conde de Arnoso, um dos “vencidos da vida”, Jorge Arnoso recorda que “as nossas famílias deram-se, a partir de aí, bastante bem, sendo o meu irmão Bernardo e eu mais ou menos da mesma idade do Príncipe, e o João da idade do Infante D. Afonso. Lembro-me de termos sido convidados pela primeira vez para lanchar em S. João do Estoril para nos conhecermos e, como se funcionava a horas espanholas, o lanche que tanto ambicionávamos nunca mais chegava!”

A partir desse altura tornou-se amigo de Juan Carlos, uma amizade que perdura até hoje.  “Tínhamos uma vida normal de crianças dessa idade no Estoril e Cascais da época: passeios de barco na canoa do meu pai, jogos de futebol, etc. Quando o Príncipe, que nós tratávamos por D Juanito, fez dez anos houve um acordo entre o Sr. Conde de Barcelona e o Generalíssimo Franco para o Príncipe ir estudar para Espanha. A partir dessa altura nós só o víamos nas férias.”

Foi mais ou menos por essa altura que a família Real se instalou na Vila Giralda, no Estoril. E, claro, como recorda Jorge Arnoso, “D. Juanito, sempre muito desportista, fez vários amigos entre os passeios a cavalo, o golfe, o ski e passeios de barco, especialmente no Sra. do Carmo da Família Espírito Santo. Fomos crescendo e os hábitos de vida mudando, como acontece com qualquer adolescente. O Conde Barcelona era bastante severo com o filho, embora o deixasse com bastante liberdade, querendo só saber onde ia e com quem se dava, o que permitiu ao Príncipe ter uma vida normal, como todos nós, feita de cinemas, de festas e de namoricos.”

Mais tarde, quando o Príncipe ficou noivo da Princesa Sofia da Grécia e veio passar uns dias ao Estoril, apresentou a noiva ao seu amigo. Depois, recorda este, com eles já casados “fomos uma vez juntos a Alfama com um grupo de amigos, e lembro-me da princesa estar muito espantada com o  à vontade do marido no meio das multidões alfacinhas.”

Jorge Arnoso lembra que Juan Carlos, “durante a revolução, ainda como Príncipe de Espanha, esteve sempre atento e preocupado com o desenrolar dos acontecimentos, o que demonstra o carinho que sempre teve por Portugal.” Proclamado Rei de Espanha pouco depois, manteve sempre contacto com o seu companheiro de juventude, que o visitava em Madrid, umas duas vezes por anos, para almoçarem ou jantarem.

Mesmo assim diz-se surpreendido com a noticia da abdicação a favor do seu filho Felipe, Príncipe de Astúrias. “Sempre pensei que Sua Majestade poderia um dia abdicar por motivos de saúde ou que esperaria por uma oportunidade conveniente em que saísse pela ‘porta grande’. Por razões que desconheço decidiu por esta segunda opção tornada pública neste dia 2 de Junho de 2014. Foi certamente, a meu ver, uma decisão muito pensada e de bom senso, como muitas outras que tomou durante o seu reinado para bem de Espanha e da Monarquia.”

Confiante no futuro, Jorge Arnoso tem a certeza que Juan Carlos “conseguiu transmitir todos os seus valores ao filho e que o deixa muito bem preparado para enfrentar os destinos do Reino de Espanha”.