André Villas-Boas sempre teve especial cuidado com as intervenções públicas na carreira de treinador e, no início, foram poucas, muito poucas, as entrevistas que deu. Em 2013, por altura do 40.º aniversário do jornal Expresso, teve uma dessas raras aparições onde falou no momento no Tottenham, no ano dourado pelo FC Porto, na passagem pelo Chelsea ou na influência de Bobby Robson no início do seu percurso. Em paralelo, e quando falou da paixão pelo automobilismo, assumiu numa das primeiras vezes o sonho de participar no Dakar.

Villas-Boas cumpre “ambição de uma vida” ao participar na 40.ª edição do Rali Dakar

“O meu tio também se estreou com 40 anos, como eu, e esta é a 40.ª edição do rali: é curioso como todos os números se ligam”, contou ao La Vanguardia, a propósito da aventura que inicia este sábado em Lima, no Peru, tendo como copiloto Rúben Faria num Toyota Hilux, da Overdrive Racing. Parecia que estava destinado. E assim o técnico que deixou recentemente os chineses do Shanghai SIPG junta-se a um lote de “notáveis” que conta com membros de famílias reais, artistas e familiares de famosos como Margaret Thatcher ou Ernest Hemingway.

André Villas-Boas numa conferência em Lima, no Peru, em vésperas de estreia no Dakar (FRANCK FIFE/AFP/Getty Images)

Johnny Hallyday. Considerado o “Elvis Francês” (e o nome forte do rock & roll do país) e falecido há um mês, o músico era um apaixonado pela velocidade e tinha na sua garagem alguns dos melhores carros desportivos da altura como um Lamborghini Miura, um Bizarrini 5300 GT ou um Ferrari. Depois de já ter participado no Ráli de Monte Carlo, aceitou também o desafio de alinhar num Dakar em 2002 com o amigo e ex-vencedor René Metge, terminando no 49.º lugar depois de uma fatídica etapa onde acabaram por estar parados 19 horas (e o carro ficou demasiado afetado). Ao todo, esteve 40 horas ao volante nessa prova e, no final desse duro teste, anunciou perante as câmaras que ia deixar de fumar… algo que acabou por não conseguir cumprir.

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Mark Thatcher. Licenciado em contabilidade e membro de uma empresa internacional de consultadoria, era também conhecido pela sua veia irreverente e, aos 29 anos, decidiu arriscar uma participação no Dakar de 1982 que não correu nada bem: durante quase seis dias, o filho da primeira-ministra inglesa esteve desaparecido no deserto do Sahara e foi montada uma grande operação envolvendo forças de quatro países, aviões e helicópteros para tentar resgatar o britânico, a corredora francesa Charlotte Verney, e o mecânico, Jacky Garnier. Em 2012, veio a saber-se por documentos até então selados que a “Dama de Ferro” quis pagar do seu bolso as buscas (quase duas mil libras).

Alberto do Mónaco. Amante confesso dos desportos, participou em cinco edições dos Jogos Olímpicos de Inverno entre 1988 e 2002 na modalidade de bobsled, tendo como melhor resultado o 25.º lugar em Calgary, na primeira competição. Mas jogou também andebol e ténis, evoluiu em desportos como a natação, o remo ou a vela e tornou-se cinturão negro de judo. O que poucos recordam é que, em 1985 e 1986, quando nem 30 anos tinha ainda, arriscou entrar no Paris-Dakar com um Mitsubishi Pajero, não conseguindo concluir nenhuma das provas (desistiu na mesma parte do percurso em ambas). Nesse primeiro ano, também a sua irmã, Carolina, esteve na competição, no camião do marido Stefano Casiraghi, mas a aventura terminou após um acidente no quinto dia de prova.

Nasser Al-Attiyah. Não é propriamente uma ligação direta a Hamad bin Khalifa Al Thani mas conta como tal: conhecido no Dakar como o príncipe do Catar, é familiar da segunda mulher do pai do emir do país e um campeão… em mais do que um desporto. Além dos vários títulos no tiro, onde participou em seis edições consecutivas dos Jogos Olímpicos de Verão (ganhou a medalha de bronze em 2012, em Londres, depois do quarto lugar em 2004), soma consecutivas presenças no Mundial de Rális e já foi duas vezes campeão no Dakar, em 2011 e 2015.

Claude Brasseur. Neto de Jules Brasseur, filho de Pierre Brasseur e Odette Joyeux e afilhado do escritor Ernest Hemingway, o ator francês que tem hoje 81 anos e ficou conhecido por filmes como “Guerra entre Polícias” (1979) ou “La Boum” (1980) destacou-se na edição do Paris-Dakar de 1983 entre outras participações, onde fez equipa com outra cara bem conhecida, o belga Jacky Ickx (antigo piloto da Fórmula 1 entre 1966 e 1979 que ganhou oito Grandes Prémios e alcançou um total de 25 pódios). E destacou-se porque conquistou a vitória, numa prova onde cerca de 40 outros carros acabaram por não chegar ao fim por se terem perdido no caminho.

Charley Boorman. Apresentador televisivo e ator, nunca escondeu a paixão pelos desportos motorizados, como se viu nos vários documentários que foi fazendo ao longo das suas viagens pelo mundo, incluindo dois com o amigo Ewan McGregor, que conheceu em 1997 quando faziam o filme “O Beijo da Serpente”. Participou aos 40 anos no Dakar de 2006, que iria originar mais tarde a série “Corrida para o Dakar” (transmitida nesse mesmo ano na Sky2), mas acabou por desistir e deixar de lado a sua moto no final do quinto dia por problemas físicos.

Robby Gordon. Como já se percebeu, é normal haver pilotos que passaram também pela Fórmula 1 a arriscar uma aventura no Dakar (Paul Belmondo, filho de Jean-Paul Belmondo, é outro bom exemplo) mas depois existe um caso à parte entre o desporto motorizado: Robby Gordon. O americano que se destacou no Indy Car e no NASCAR antes de fundar a Stadium Super Trucks Series é um apaixonado da prova e já conseguiu mesmo terminar na terceira posição em 2009, além de ter captado as atenções pela espetacularidade que conseguida dar à prova.