Um “milagre” na Noruega com uma vitória na estreia frente ao Lilleström, outro milagre que ficou perdido nos descontos na receção aos ingleses do Sunderland em Leiria. Não valeu pontos, deu outra vitória – tudo o que viesse a partir de agora era tudo menos um milagre, com ou sem aspas, com ou sem itálico. A campanha na Segunda Liga pode não estar a correr da melhor forma ao Torreense, que somou apenas uma vitória em sete encontros disputados até ao momento, mas o trajeto europeu como nunca tinha acontecido na história do clube pouco ou nada tinha a ver com essa linha no plano nacional. Agora, com esse balão de oxigénio extra de uma semana “limpa” que poupou a equipa a um maior desgaste físico, surgia mais um difícil teste.

A conexão espanhola deixou o supercomputador em curto-circuito: Torreense vence na Noruega na estreia na Liga Europa e faz (mais) história

Difícil pela qualidade do Ferencváros, apesar da temporada aquém da anterior em que terminou a liga húngara na segunda posição (após vários títulos consecutivos) e ganhou a Taça. Difícil por ser fora, num ambiente sempre complicado de lidar e contra uma equipa que tinha já duas vitórias na Liga Europa. Difícil, sobretudo, porque se perdera a parte da surpresa que ainda podia apanhar alguém desprevenido. Única “vantagem” aparente? A forma como o Torreense foi lidando com encontros de maior dificuldade, não só na Liga Europa mas também nas finais da Taça de Portugal com o Sporting e da Supertaça com o FC Porto.

O milagre de Volnei merecia mais – porque não é um milagre: Torreense perde com Sunderland nos descontos

“Sabemos que o Ferencváros é uma grande equipa. Nos últimos oito anos foi sete vezes campeão da Hungria. A nossa expectativa é continuarmos a fazer o que temos feito, que é competir. Queremos demonstrar mais uma vez a nossa capacidade e no final logo se vê. Percebemos que as diferenças entre o Torreense e as restantes equipas continuam a ser enormes. Temos sido muito competentes e acredito que os adversários possam olhar para nós com outros olhos. Mas a humildade continua a ser fulcral. Queremos competir, demonstrar competência e querer muito que essa observação dos adversários seja cada vez mais como uma equipa competente e não como uma equipa que vem da Liga 2″, destacara Carlos Simões, técnico adjunto de Luís Tralhão que voltou a marcar presença na conferência de antevisão ao encontro na Hungria.

“Os nossos objetivos na Liga Europa são muito claros: competir. Antes do primeiro jogo da Liga Europa falámos que fazer um ponto era uma vitória e já temos três… Jogámos na semana passada contra o Sunderland, sempre que pudemos tentámos ter bola e em muitos momentos conseguimos. A nossa intenção é respeitar o nosso processo. Gostamos que os nossos jogadores tenham bola e possam construir no meio-campo ofensivo. Temos a nossa estratégia, as nossas competências. O Ferencváros vai jogar em casa, os adeptos vivem muito o futebol e puxam pela sua equipa. É uma equipa muito forte, com jogadores de grande qualidade e que tenta dominar o jogo. No final faremos as contas”, acrescentara o responsável técnico.

Estava dado o mote para mais uma página que seria sempre de história para o Torreense, um cliente novo nestas andanças europeias mas que nem por isso deixava de voltar a contar com o apoio de cerca de 300 adeptos que se deslocaram à Hungria com o sonho de marcar ainda mais posição na Liga Europa.

A matriz de jogo que se foi tornando uma identidade do Torreense mesmo a jogar contra equipas na teoria mais fortes ficou bem patente nos primeiros dez minutos: muita posse, circulação, dois remates de Drammeh (a única novidade no onze inicial) que saíram enquadrados para defesa de Radnóti, zero possibilidades para que os húngaros tivessem a tal entrada forte que a formação do Oeste temia pelo apoio que estava a ver das bancadas. Só mesmo depois desse período começou a haver mais Ferencváros no jogo, com Ádam Nagy a aparecer mais no comando das operações apesar da constante tentativa de bloqueio do conjunto nacional nessa zona e a empurrar os magiares para a melhor fase na partida… e para o golo: Álex Alfaro teve um passe errado em zona proibida, Bamidele Yusuf fez a interceção e atirou sem hipóteses para o 1-0 (20′).

O Torreense tinha um desafio novo para enfrentar em contexto de Liga Europa: começar atrás no resultado, ainda a meio da primeira parte. A resposta, essa, não podia ter sido melhor, com Javi Vázquez a ter mais uma subida pela esquerda a conseguir criar o desequilíbrio e Manu Pozo, apesar da receção menos conseguida, a ter um remate com nota artística que restabeleceu o empate apenas três minutos depois (23′). Ainda houve uma fase até ao intervalo em que os húngaros voltaram a crescer, ganhando cantos que criaram situações de perigo sem finalização, mas o Torreense nunca deixou de ter uma palavra a dizer na partida, ficando muito perto da reviravolta num cruzamento de Javi Vázquez desviado por um defesa que por pouco não fez um autogolo (36′). O intervalo chegou com um empate e com a sensação de que, não quebrando em termos físicos e mantendo a capacidade de bloquear o jogo central saindo em transições, podia sonhar com mais.

Havia um segredo que era tudo menos isso para o segundo tempo: impedir que o Torreense “afundasse” em demasia no terreno. No entanto, e depois do intervalo, foram-se vendo maiores dificuldades em continuar a sair em transições como acontecera na primeira parte, com o Ferencváros a aproveitar para se instalar no meio-campo contrário a tentar encontrar os espaços que continuavam a não existir. O que fez a diferença? O jogo aéreo dos húngaros, que ficando forçados a jogar pelos corredores laterais fizeram o 2-1 por Mariano Gómez num canto (58′). A reação foi boa, Dany Jean e Jatta foram lançados na partida, o encontro foi continuando mais dividido, João Marques teve um remate em excelente posição por cima (65′). O Torreense nunca se escondeu da procura de algo mais mas não voltaria a ter oportunidades que criassem perigo para o empate e os húngaros “fecharam” o encontro com um autogolo de Diadlé a “meias” com Habib Maïga (80′).

[Annie consegue estar presente nos últimos anos do pai, que não vai viver tempo suficiente para conhecer a sua sentença no julgamento do homicídio de Humberto Delgado. Entretanto, também ela vai ficar gravemente doente. Já pode ouvir o último episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]