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Corria o longínquo ano de 1998 quando se ligava a rádio (“Cidade dá de dez”, com sotaque brasileiro) e se ouvia aqueles primeiros versos “tu és loucura, és o meu prazer”. O mais provável, tratando-se de um hit da banda Santamaria, era que o ouvinte se lamentasse por ter apanhado uma música pirosa (ou pelo menos que tivesse receio de ser apanhado a ouvir uma música pirosa) em vez daquela que queria gravar na mix tape (rec e play ao mesmo tempo). Nessa altura, seria difícil o ouvinte imaginar que em 2018, vinte anos depois, os Santamaria podiam ser cabeça de cartaz de uma festa trendy da capital, e que a nostalgia faria com que toda a gente cantasse “eu sei, tu és…” em coro sem qualquer sentimento de culpa. E no entanto aqui estamos.

“É bom este sentimento de voltar a dançar a música ‘Barbie Girl’ sem as pessoas do lado nos estarem a achar parolos”, desabafa André Henriques, 38 anos. Foi precisamente para isso que, com alguns amigos, criou o evento Revenge of the 90s, em cuja edição de aniversário (a 15.ª festa do género, sempre com lotação esgotada e já com os 8000 bilhetes vendidos, neste caos em Lisboa) os Santamaria vão atuar, tal como os Anjos ou Ana Malhoa, já a 23 de fevereiro.

Depois de terem começado a fazer esta festa no início de 2016, com 500 pessoas a encher a sala, chegam a fevereiro de 2018 com um aumento na ordem das 500 pessoas de festa para festa, “o que representa algo como 1200% de crescimento”.

[“Eu sei, tu és”, dos Santamaria:]

O que significa que eventos como a estreia da série “Everything Sucks”, a nova aposta da Netflix que viaja até um liceu americano em 1996, e que estreia hoje envolvida por toda a expectativa dos órfãos de “Stranger Things”, ou o anunciado regresso das Spice Girls, envolvendo pagamentos astronómicos, não são uma surpresa. Estão envolvidos por um contexto de cultura pop que muda o paradigma até agora vigente da nostalgia: adeus “karma, karma, karma, karma, karma chameleon”, olá “freed from desire, nananana”. Ou seja, descansem um pouco anos 80. Chegou a vez dos 90.

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Uma série com T-shirts de Tori Amos e modems barulhentos

Não é difícil imaginar uma série televisiva que se passa numa escola nos anos 90. Aliás, nos próprios anos 90 havia várias séries televisivas que se passavam em escolas dos anos 90, algumas delas ainda muito presentes na memória coletiva, como “Saved By The Bell” ou “90210”. Agora, “Everything Sucks” volta a esse filão, mas com a patine de uma série de reconstituição de época.

O nome da cidade, Boring, é também o nome da escola, e é também um nome que promete muitos trocadilhos: afinal, sobreviver ao liceu é uma questão intemporal. Mas a nostalgia está lá em todo o guarda-roupa, em toda a banda sonora, em todas as referências culturais – e é nesse campeonato que surgem as comparações com “Stranger Things”, que fez isso com os anos 80 (e com mais ficção científica à mistura).

Para se perceber bem a ideia, basta dizer que “Everything Sucks” tem um clube de vídeo escolar, tem uma protagonista com uma T-shirt da Tori Amos, tem debates sobre uma música de Alanis Morissette, tem bindis na testa que não são apropriação cultural mas sim uma homenagem a Gwen Stefani (na altura, No Doubt), tem camisas de flanelas e cabelos presos no alto da cabeça com elásticos grandes e coloridos, tem pausas em frente ao computador enquanto o modem estrebucha para fazer a internet funcionar, tem discmans e vídeos dos Nirvana na televisão.

[o trailer de “Everything Sucks”:]

https://www.youtube.com/watch?v=hf_YjzEvYeQ

Claro que, além disso, tem o plot: uma rapariga a tentar perceber a sua sexualidade, um rapaz a tentar perceber o amor, todas as dores de crescimento de um grupo de miúdos que está só a tentar chegar à idade adulta. Nada de muito diferente de outras sérias escolares sobre estas idades, mas com “Linger” a tocar lá ao fundo e uma música diferente dos anos 90 a encerrar cada episódio, apropriado apenas para os nostálgicos que já aceitaram a ideia de que a sua pré-adolescência já foi há tempo suficiente para se tornar objeto de saudosismo.

Dançar Ricky Martin enquanto se come Peta Zetas: é de novo possível

Aquilo que começa a surgir nas séries televisivas é o mesmo material que alimenta a já referida festa do Revenge of the 90s. O sentimento de vingança pode ter a ver com anos e anos de nostalgia dos anos 80 a ocupar as televisões e as pistas de dança. “Nós, que estamos agora na casa dos 30, ouvimos Wham nas festas mas não temos memória do tempo em que ainda não era kitsch. Agora, se ouvimos o ‘Suavemente’ ou o ‘Maria’, do Ricky Martin, sabemos que era piroso, mas aceitamos a alegria dessa memória”, explica André Henriques, um dos responsáveis pela organização e também DJ na festa.

Tudo começou em dezembro de 2016, com um jantar entre amigos, muitos deles membros de duas agências de comunicação. Acharam que estava na altura, no meio do ruído dos 80, preparar uma festa dedicada aos anos 90. E perceberam depressa que não estavam sozinhos no saudosismo. “Começámos a partilhar fotos dos anos 90 nas redes sociais, a fazer hashtag com o nome, e quando revelámos que seria um evento, uma festa, deu logo para criar um grupo privado com 500 pessoas interessadas.”

Se a primeira festa custava 8€ e teve esse número de pessoas, a próxima, de 23 de fevereiro (local surpresa, ainda por revelar), vendeu bilhetes a 35€ e já esgotou com 8000 pessoas. Pelo meio, houve uma passagem de ano de Revenge of the 90s que encheu o Coliseu de Lisboa. “Nessa festa, eu fiquei a ver as pessoas a entrar, e vi como já entrava toda a gente com espírito de festa. Todos nós andamos a fazer eventos há 15 anos, mas este é mesmo especial.”

Talvez pela tal saturação dos anos 80, talvez por se dirigir a um grupo de pessoas entre os 25 e os 40 anos, muito provavelmente porque a nostalgia dos anos 90 está mesmo instalada, as pessoas que aparecem nestas festas entregam-se mesmo ao espírito.

“Isto não é apenas um DJ set, é uma experiência sensorial e visual, que envolve comermos Peta Zetas, brincarmos com pega-monstros, termos pessoas vestidas de Tartaruga Ninja.”

Mas claro que também há a música, e a tal liberdade para cantar um refrão de Santamaria sem sentimento de culpa. Do pop ao rock – ou seja, de Spice Girls a Nirvana –, há tempo para músicas pedidas, para banda ao vivo, para convidados anunciados e convidados surpresa, e para uma viagem musical que inclui também slows ou bandas sonoras de séries televisivas. “Mas nota-se uma diferença: este saudosismo dos anos 90 não é aquele, como dos anos 80, em que as pessoas dizem ‘no meu tempo é que a música era boa’. Não. É um saudosismo com os pés na terra.” Esta oportunidade pode já estar esgotada, mas basta acompanhar o Revenge of the 90s para ver que já há novas datas planeadas, em mais cidades, e que estão sempre a aparecer informações novas.

Se não voltam as Spice Girls, volta o resto

Ter os pés na terra, quando se fala de anos 90, não significa não ter sonhos – e um dos grandes sonhos geracionais deste revival é ter as Spice Girls juntas de novo. Os rumores têm-se vindo a intensificar nas últimas semanas: já há a fotografia de grupo, que prova que Posh, Ginger, Sporty, Baby e Scary estiveram reunidas recentemente. Mas também já há quem diga que as notícias sobre uma futura tournée foram exageradas, e que haverá apenas um evento isolado, com cada uma delas a receber muito dinheiro para isso acontecer.

Talvez não chegue a acontecer, mas esta promessa (e o interesse que gerou) é uma marca clara da nova vida dos 90’s e o impacto que pode ter também na atual produção de música e de moda.

Quem não tem Spice Girls, pode sempre caçar com a mesma estética e chegar igualmente aos corações palpitantes dos saudosistas. Por exemplo, foi o que fez Bruno Mars com o seu single mais recente, “Finesse”, que quase podia figurar num episódio de “Everything Sucks” – pela roupa, pelos sons, pelas cores, pela voz feminina ao estilo Salt-n-Pepa.

[“Wannabe”, o primeiro single das Spice Girls:]

Já se viu acontecer com outras estéticas. Volta-se ao passado para depois se criar no presente. Quando as irmãs Kardashian, por exemplo, entram numa loja de roupa vintage em Los Angeles e perdem bastante tempo a ver T-shirts de Pearl Jam ou Guns’n’Roses (que custam cerca de 170 dólares cada), ou quando as marcas de venda a retalho copiam essa mesma disposição e essas T-shirts chegam até às bloggers de moda – tudo isso é sintoma de que este revivalismo também chegou à roupa.

O mesmo vale para a profusão de camisas de flanela ou de calças de ganga largas e rasgadas que anda por aí, e que também se está a instalar em novas criações e novos produtos de marcas que sabem bem – e estiveram lá para todos nós – o que são os anos 90. Basta olhar para as coleções da Adidas, ou para as coleções da Converse, ou para as coleções da Swatch, para dizer apenas algumas. Será um pouco como olhar para a Ana Malhoa de agora, da “Turbinada” e da “Ampulheta”, e saber que vale o que vale também porque esteve lá connosco nos anos 90, a cantar as músicas do “Buéréré” – músicas que, aliás, chegou a altura de voltarmos a cantar.