Era dia de treino. Jorge Jesus estava a marcar o campo enquanto esperava pelo plantel, na academia do Sporting, quando foi surpreendido por cerca de 20 ou 30 “indivíduos a entrar nas instalações”. A maior parte trazia a cara coberta. Outros usavam uma pintura na cara nos tons do clube, verde e branco, como se fosse uma máscara. “Está ali o mister. Não é ele que a gente quer … onde estão os jogadores?”, chutaram.

Eram 17h, 17h15, de terça-feira, e tudo o que se passou a seguir foi demasiado rápido, segundo o seu testemunho prestado à GNR do Montijo, ainda nessa noite, e a que o Observador teve acesso. O treinador do Sporting viu, depois, o grupo incansável à procura do plantel em todas as portas da academia. E percebeu que “algo de errado” se estava a passar. “Iriam agredir os elementos do plantel no interior das cabines”, concluiu. Jesus ainda correu atrás do grupo para o interior das instalações, mas os agressores já estavam a regressar. E, segundo garante, não testemunhou qualquer agressão.

No entanto, quando estava a voltar ao campo, e pensando que estava imune ao ataque por causa das palavras que ouvira, acabou dominado e agredido por um dos elementos de cara tapada. O agressor usou “um cinto de cor verde direcionado contra a sua face”, relata a GNR no depoimento que consta no processo. Jesus ainda deu luta. Correu atrás dele para se defender, mas acabaram os dois por cair no chão. Nesse momento um outro agressor aproximou-se e começou a pontapeá-lo. Nessa altura já havia agressores a abandonarem as cabines para saírem das instalações de volta aos seus carros.

Jorge Jesus ainda estava no chão quando percebeu que no grupo havia um elemento de cara destapada, que bem conhecia: Fernando Mendes, ex-líder da claque sportinguista Juve Leo que não foi detido. “Fernando, ajuda, estes gajos estão a bater nos jogadores, ajuda-me”, terá dito a Fernando Mendes. “A gente não veio aqui para bater, só para falar”, respondeu. Mas nada fez para travar ou evitar as agressões, denunciou Jorge Jesus às autoridades.

O militar da GNR que o inquiriu perguntou-lhe, ainda, se durante a invasão, da qual acabaram por resultar 23 detidos, viu algum tipo de arma. O treinador do Sporting garantiu que muitos deles, que serão adeptos, arremessaram tochas e tinham, nas mãos, cintos e bastões — algum deste material foi apreendido.

Jesus garante que entre o grupo apenas consegue identificar Fernando Mendes. Mais ninguém. E só responde pelas agressões que ele próprio sofreu, uma vez que não testemunhou nenhuma outra. Ainda assim, avançou que quer apresentar queixa contra todos os envolvidos. O ex-líder da claque, no entanto, não está entre os arguidos.

A versão de Jorge Jesus não está completamente vertida no despacho de indiciação do Ministério Público, entregue esta quinta-feira ao juiz de instrução criminal do Tribunal do Barreiro. De acordo com a versão da investigação, Jorge Jesus foi dos primeiros a ser agredido, juntamente com João Rolin Duarte e Paulo Cintrão, que se encontravam juntos no campo de treino. Só depois os agressores se teriam dirigido ao balneário. Jesus apresentou outra cronologia dos acontecimentos.