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Graffiti

O graffiti de Carcavelos fez 30 anos e tem direito a visitas guiadas

Chamam-lhe o berço do graffiti em Portugal. Há 30 anos que se pintam paredes na antiga freguesia do concelho de Cascais. Hoje é possível conhecê-las numa visita guiada, algumas com 20 anos.

ANDRÉ KOSTERS/LUSA

Autor
  • Agência Lusa

Carcavelos, no concelho de Cascais, aquele que é considerado o berço do graffiti em Portugal, tem a partir deste sábado uma visita guiada que inclui a passagem por um mural onde estão pinturas com 21 anos.

Num pequeno muro, à sombra das árvores, encostado a um jardim, está um pedaço da história, “quase um fóssil, em ótimo estado de conservação”, do graffiti em Portugal. Pintado em 1997 por Ysuuk, Youth e Nomen, que ali usou uma das outras assinaturas que teve, Aids, o muro mantém-se hoje praticamente igual.

De acordo com Nomen, um dos pioneiros do graffiti em Portugal e um dos elementos da Double Trouble Crew, que organiza a visita guiada “Street Art Experience”, “quando um graffiti tem uns três, quatro ou cinco anos, há uma forte probabilidade de se aguentar muito mais tempo”.

“Se não passaram por cima durante aquele tempo, ele assume automaticamente uma ideia nostálgica. Além disso, este esteve sempre na sombra, protegido do sol e da chuva”, explicou à agência Lusa, numa visita guiada por alguns pontos da localidade onde há 30 anos tudo começou.

Em 1988, as primeiras pinturas surgiram no interior da escola secundária de Carcavelos. “Comecei em 1989, um ano depois, a mandar tags [assinaturas] e, em 1990, fiz o meu primeiro graffiti, já todo bonito. Foi tudo no interior desta escola antes dos anos 1990. Depois foi tudo pintado cá fora e passou a ser ilegal pintar lá dentro”, recordou.

O muro exterior da escola, com cerca de 150 metros de comprimento, é o hall of fame (geralmente legalizados, muros onde são pintadas obras mais trabalhadas) de Carcavelos e outro pedaço da história que se conta na visita guiada.

“Esta é a parede original, a primeira onde os primeiros artistas em Portugal de graffiti começaram”, disse Nomen.

Por debaixo de camadas e camadas de tinta estão as pinturas do início dos anos 1990. “[Hoje em dia] normalmente um desenho aqui dura um mês, dois no máximo, a seguir é sempre passado por cima. Tudo o que está aqui é muito recente, porque não há espaço para essas coisas românticas de o desenho que ficou aqui 20 anos. É muita gente a querer pintar, para tão poucos espaços”, explicou.

Nomen admite que é possível haver “alguma culpa” dos writers (quem faz os graffiti) em não “legalizar mais espaços”, por não quererem “mais ligações com outras pessoas, empresas ou instituições” para os arranjarem. “E temos que começar a quebrar isso e arranjar mais espaços, senão é um bocado ingrato, porque a arte deve sobreviver mais do que dois meses, e nós temos que fazer por isso”, disse.

As “primeiras manifestações de graffiti, ilegais, e com algum sentido estético, alguma cor, elaboradas e que, mesmo sendo feitos à noite tinham essa característica estética de ser construtivo[s] e não destrutivo[s]”, são de Carcavelos e Almada.

Na altura em que começou, Nomen tinha 14 anos. “Conheci as pessoas que começaram em 1988 e fiquei maravilhado com o que conseguiam fazer”, recordou. Aos 44 anos, assume que teve um “começo um bocado torto”, “só queria assinar e ‘taggar’ isto tudo”, mas “foi indo para o construtivo”.

Hoje é com o graffiti que paga as contas. Algo que na altura nem lhe passava pela cabeça. “Era uma coisa muito mal vista”, mas além disso havia a parte ideológica, “as pessoas não vendiam a sua arte, para empresas ou pessoas”.

“Éramos um bocado os cavalos indomáveis que pintávamos onde queríamos e nos apetecia, e continua a ser um bocado assim, porém a vida vem mostrar que tens contas para pagar, responsabilidades, e que esse modo de vida não funciona. Ou tentas viver disto ou vais ter um emprego normal, das nove às cinco”, referiu.

Foi também no final dos anos 1980 que Youth começou a pintar, e também a ele não passava pela cabeça viver hoje do graffiti. “A gente não começa com a questão financeira. Foi um evoluir e uma aprendizagem, o dinheiro nunca está em causa no início”, mas hoje não é assim, “a malta nova que entra associa à arte, mas também já tem um caráter mais de trabalho, e ainda bem”.

Embora hoje muitos vivam do graffiti e pintem muros legais, não é por isso que deixam de pintar em carruagens, por exemplo. Só que fazem-no usando outros tags.

Recuando 30 anos, Youth lembra que quem começou “não tinha informação quase nenhuma, tirando os filmes de breakdance e alguns telediscos e revistas”.

Foi sendo uma descoberta para eles e também para quem via de fora. “Visto agora de longe, não sei se a questão de ser [ou não] aceite era válida, porque era desconhecido, [o graffiti’ era uma coisa desconhecida, e quando é algo que ninguém conhece, as pessoas ficam assustadas”, defendeu.

Os anos foram passando, as pessoas “foram tendo contacto e percebendo, e as coisas foram evoluindo”. Evoluíram ao ponto de hoje os artistas terem o apoio de autarquias. Esta semana, oito artistas, incluído Nomen e Youth, estiveram a pintar um mural, com 75 metros de comprimento e cinco de altura, perto do mercado, para assinalar os 30 anos do graffiti em Carcavelos. Fizeram-no à luz do dia, sem pressas, porque a Junta de Freguesia local autorizou a pintura.

“A ideia inicial é dinamizar Carcavelos sendo o berço do graffiti, ou da arte de rua, em Portugal, a semente que depois se espalhou, e a junta abriu as portas porque sente que essa informação tem que passar. As pessoas gostam de graffiti e de street art, mas não sabem a verdadeira história em Portugal, como começou, de onde veio, e isto é uma maneira de transmitir essa história”, disse Youth.

Este muro entra também na visita guiada, tal como o ateliê/galeria da Double Trouble Crew (composta por Nomen, Ram e Utopia), o Double Troube Studio. O espaço onde os três artistas expõem e trabalham é uma vivenda onde as paredes interiores também servem de tela, além de haver telas expostas, e onde está igualmente instalada a oficina de construção de instrumentos musicais de corda (guitarra portuguesa, viola de fado, viola clássica e cavaquinho) de António Duarte.

“Aí as pessoas podem ver o nosso espaço de produção, vão ver como fazemos, o nosso dia-a-dia”, referiu Nomen.

Mais informações sobre as visitas guiadas podem ser encontradas online, nas páginas de Nomen e do Double Trouble Sutdio.

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