Título: Tu não és como as outras mães
Autor: Angelika Schrobsdorff
Editora: Alfaguara
Páginas: 568
Preço: 24,50€

O romance biográfico Tu não és como as outras mães, de Angelika Schrobsdorff, chegou às livrarias no dia 2 de maio

A Segunda Guerra Mundial provocou um movimento de populações inédito na Europa. Milhares de pessoas viram-se forçadas a abandonar os países em que viviam e passaram a integrar a vasta legião de deslocados e refugiados que emergiu como uma das consequências mais dramáticas do conflito quando as armas se calaram. Muitos tentaram escapar à perseguição do regime nazi e à violência do conflito. Outros tiveram a prudência de desconfiar que a chegada do Exército Vermelho significaria a derrota militar da Alemanha, mas não seria sinónimo de recuperação da liberdade perdida.

Entre aqueles que procuraram refúgio em locais que lhes pareceram seguros e imunes à barbárie, uma ilusão efémera que a expansão progressiva do Terceiro Reich se encarregou de desfazer, esteve Angelika Schrobsdorff. Nascida em Freiburg, na Alemanha, em 1927, a escritora emigrou para a Bulgária 12 anos mais tarde, na companhia da mãe e de uma irmã, quando já era demasiado evidente — para muitos demasiado tarde — que o seu país natal tinha deixado de ser uma terra onde os judeus pudessem habitar a não ser sob as ameaças da deportação e da morte.

Tu não és como as outras mães, publicado originalmente em 1992, conta a experiência da família de Angelika Schrobsdorff desde o início do século passado até ao período do pós-guerra. Else, a mãe da autora, é a personagem central da narrativa. E é o percurso e o carácter invulgares desta mulher, filha mimada e rebelde de um casal de judeus ortodoxos alemães da classe média, Minna e Daniel Kirschner, que motivou a escritora a escrever uma história singular, daquelas em que os melhores ficcionistas teriam, se calhar, sentido dificuldade em conceder verosimilhança.

Criada num meio conservador, em que o casamento com alguém que não partilhasse a fé judaica não era possível sem a sanção de uma rutura familiar, Else cresceu num ambiente protegido. O despontar, durante a adolescência, dos fortes sentimentos de revolta contra as tradições que lhe cerceavam a sede de liberdade e que contrariavam a sua vontade irreprimível de realizar o sonho de mergulhar naquilo que percecionava ser o admirável e tolerante mundo dos cristãos, foi a ignição para uma vida marcada pelo desprezo e pela impaciência perante as convenções.

As dificuldades dos tempos da Primeira Guerra Mundial e os conturbados anos de 1920, quando a ruína económica da Alemanha cavou o descalabro da República de Weimar e abriu o terreno para a chegada de Hitler ao poder, foram vividos no interior de uma bolha. A liberdade de um povo, e mais tarde de uma boa parte da Europa, começava a estar em sério perigo, mas aquilo que interessava a Else era a sua própria emancipação. Encontrou-a nos meios boémios da Berlim dos artistas, dos escritores e dos intelectuais, a atmosfera ideal para quem queria viver de acordo com as suas originais regras e rejeitar aquelas que lhe quisessem impor.

Casou três vezes, teve um filho de cada um dos homens com quem viveu, conforme tinha prometido a si própria e a quem a quisesse escutar, e chegou a partilhar a mesma casa com um dos maridos, a amante deste e o seu próprio amante. Mas, entre as festas e as celebrações até ao raiar do sol e o desfrute daquilo que Berlim tinha a oferecer a quem se interessasse por cultivar o espírito, nem tudo era perfeito.

Uma vida feliz, mas conduzida muito para lá das fronteiras desenhadas pelas regras tradicionais, revelou-se impossível de subsistir sem um alicerce sombrio construído com manipulação e mentira, destinadas a preservar algumas aparências e a adiar a imposição de potenciais danos a terceiros. Foi a outra face de uma moeda em que as ondas de choque provocadas pela fidelidade irredutível a uma escolha coexistiram com a inteligência, a cultura, a coragem, a força interior e a determinação de uma jovem mulher que, contra todas as probabilidades, conseguiu aquilo que pretendia, ainda que alheada dos sinais inquietantes de que uma catástrofe estava prestes a eclodir.

A era dourada de Else Schrobsdorff começou a terminar mesmo antes de um casamento de conveniência lhe ter permitido arranjar a papelada necessária para poder abandonar a Alemanha e ir instalar-se em Sófia. Tinha ludibriado o regime nazi, mas a vitória foi de curta duração. Dois anos depois de se ter fixado na cidade, a Bulgária entrou na guerra ao lado das potências do Eixo e a ascendência judaica regressou para lhe infernizar a vida.

Num mundo em que parecia não haver refúgio em lado algum, Else pôde esquivar-se ao Holocausto que atingiu a própria mãe, detida e assassinada em Theresienstadt, e beneficiou do facto de as autoridades búlgaras aliadas de Hitler terem sido pouco cooperantes no envio de cidadãos judeus para os campos de concentração. No final da guerra, a sorte voltaria a estar do seu lado. Conseguiu regressar à Alemanha antes de a cortina de ferro se abater sobre a Bulgária e isolar a Europa de Leste.

O tempo e as privações impostas pela guerra foram deixando marcas de decadência nos encantos de Else e a doença também não a poupou. A guerra arrasou Berlim, como testemunha, desolada, depois de um passeio pelas ruas e lugares que frequentou. “É uma cidade morta, composta unicamente de ruinas e fachadas e onde se vê o interior das casas através dos caixilhos vazios das janelas”, escreve Else Schrobsdorff numa carta enviada em novembro de 1947 à filha mais velha, uma das várias que integra o conjunto de correspondência e de outros documentos pessoais que fazem parte do livro.

Os escombros de Berlim sãs os escombros da vida de Else. O passado ficou enterrado por debaixo do entulho causado pelos combates e pelos bombardeamentos. A cidade renascerá das cinzas, mas o que foi não voltará a ser. A destruição da capital alemã é a metáfora no epílogo de uma vida dividida em duas partes bem distintas e que estão arrumadas pela autora sob títulos elucidativos: “Completamente diferente” para designar os anos de afirmação e de concretização de um ideal de felicidade e “Fiasco” para qualificar tudo o que se seguiu.

As alegrias e as misérias da vida da mãe de Angelika Schrobsdorff são merecedoras de um livro como este, assim como o livro é digno da história que se propõe contar. A autora contorna quaisquer alçapões que a pudessem fazer cair no sentimentalismo, na desculpabilização, na vitimização ou na potencial tentação de suavizar os muitos aspectos menos convencionais da vida da personagem central, o que até seria compreensível. No fim de contas, é sobre a própria mãe que a autora escreve sem se dispensar de expor, com franqueza e honestidade, situações, atos e decisões que exigem grande capacidade de compreensão e de aceitação.

Tu não és como as outras mães é um livro sobre liberdade e o preço que se paga, e que se cobra, para a alcançar, sobre a capacidade opressora e destrutiva do preconceito, sobre os labirintos menos atraentes da natureza humana, mas também sobre a generosidade e os laços luminosos do amor e da amizade que se manifestam nos dias mais escuros. E é um documento sobre as esperanças, as ilusões e as tragédias da primeira metade do século XX, numa Europa arrastada para o abismo e devastada por dois conflitos de dimensão apocalíptica.

Sobre tudo isto, Angelika Schrobsdorff, que faleceu em 2016, fez um livro notável, resultado de 15 anos de trabalho. A escrita é enxuta, expurgada de artifícios literários, uma opção inteligente que preserva e valoriza a incrível matéria-prima que inspirou esta obra.