O exame nacional de Matemática pôs os alunos em pé de desigualdade no acesso ao Ensino Superior, já que consistia num enunciado único para dois currículos distintos da disciplina, denunciou esta segunda-feira a Sociedade Portuguesa de Matemática.

“A Sociedade Portuguesa de Matemática considera não ter sido salvaguardado o interesse dos alunos por não terem sido elaboradas as duas provas que se impunham: uma para os alunos do atual programa e uma outra para os alunos repetentes, versando sobre o programa anterior. A SPM alertou em devido tempo para a inexequibilidade de uma prova única para ambos os grupos; é agora claro que a opção encontrada de apresentar itens em alternativa de acordo com cada um dos programas, antigo ou novo, se mostrou claramente inadequada, até em termos de critérios de correção“, defendeu a sociedade científica em comunicado.

Quase 45 mil alunos realizaram esta segunda-feira o exame nacional de Matemática A – segundo números divulgados pelo Júri Nacional de Exames — sendo esta uma das provas mais importantes para o acesso ao ensino superior, por ser uma das que mais é pedida como requisito para entrar na maioria dos cursos científicos.

A “potencial injustiça” criada no acesso ao ensino superior preocupa a Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM), que entende também que “no geral, esta prova não se adequa a nenhum dos dois programas nem tão pouco coloca todos os alunos em pé de igualdade”.

“A SPM lamenta a situação criada para milhares de alunos e respetivos professores que, desta forma, não veem devidamente valorizados o trabalho e o esforço desenvolvidos durante três anos, tendo-se assim criado uma situação de incerteza e potencial injustiça em relação ao acesso ao ensino superior”, lê-se no comunicado.

Já há correção dos exames de Matemática do 12º ano. Consulte aqui

A SPM referiu que faltou ao longo do ano informação intermédia sobre o modelo de prova a aplicar, criticando o Instituto de Avaliação Educativa (IAVE), organismo responsável pela elaboração e aplicação das provas e exames, que, defende a SPM, “se limitou a fornecer uma Informação Prova com contornos menos claros e que agora se verifica ter pouca correspondência com o exame”.

“Como consequência desta inédita falta de informação, os alunos — tanto do novo programa como do antigo — foram hoje confrontados com uma prova que não traduz fielmente o trabalho realizado durante os três anos do ensino secundário. A tentativa de subordinar o enunciado a dois referenciais de avaliação distintos acabou por gerar itens desequilibrados, confusos e por vezes contraproducentes do ponto de vista pedagógico”, lê-se no comunicado.

A SPM dá o exemplo de um exercício da prova, no qual se pedia “textualmente aos alunos” para “não justificar a validade do resultado obtido na calculadora”, o que a SPM defende ser a “antítese do método científico e da boa utilização da tecnologia, que deve ser sempre acompanhada de espírito crítico”.

Aponta ainda outro exercício, ao qual “os alunos do antigo programa poderiam responder a qualquer uma das alternativas apresentadas, ao passo que o novo programa apenas contempla uma delas”.

“Em termos de substância, a prova é extensa e trabalhosa, gerando-se assim uma maior complexidade relativamente a edições anteriores. Por outro lado, a vertente calculatória do tema de funções, muito trabalhada por todos os alunos, é abordada de forma extremamente superficial”, defende a SPM.