Milhares de estudantes brasileiros querem levar a força das ruas às urnas, apostando, na reta final das presidenciais, em brigadas nos bairros e periferias para conquistar votos para Lula da Silva, combater a abstenção e virar a eleição.

“Muita gente que se absteve não está necessariamente indiferente ao país, está cansada, frustrada, sem acreditar que a política consiga alterar a sua vida”, disse à Lusa a presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Bianca Borges.

Na primeira volta das eleições gerais brasileiras de 2026, a abstenção total atingiu 21,08%, com mais de 33 milhões de eleitores a não comparecerem às urnas.

Para chegar a esses eleitores, a UNE aposta em brigadas estudantis nos bairros e periferias, levando os jovens para fora das universidades para conversar sobre emprego, salários, habitação, educação e transportes.

“A nossa ideia é que estudantes saiam das universidades e cheguem aos bairros, aos terminais, às feiras, às praças e aos espaços de circulação quotidiana. E isso precisa ser feito menos com discurso pronto e mais com disposição para ouvir”, explicou.

“A nossa tarefa agora é fazer com que essa disposição se traduza em participação política efetiva até ao último dia da campanha“, frisou a responsável estudantil.

Depois de Lula da Silva ter ficado atrás na primeira volta, estudantes saíram às ruas em centenas de manifestações por todo o Brasil, dando novo fôlego à campanha e assumindo a linha da frente da mobilização para a segunda volta.

Na opinião da dirigente estudantil, as grandes mobilizações dos últimos dias são fundamentais porque produzem confiança coletiva, mostram força e ajudam a romper o sentimento de isolamento, mas elas não bastam sozinhas para alcançar quem está fora daquela mobilização.

A exemplo disso, Bianca Borges recordou a mobilização “Ele Não”, contra Jair Bolsonaro, em 2018, durante a campanha presidencial que viria a ser ganha pelo pai de Flávio Bolsonaro.

“O ‘Ele Não’ foi uma mobilização histórica e colocou multidões nas ruas, mas isso não significou automaticamente capacidade de chegar a todas as pessoas que ainda estavam em dúvida ou afastadas da política”, justificou.

Para a última semana de campanha, a UNE prepara novas mobilizações com especial foco a 24 de outubro, um dia antes da votação, conjugando estas mobilizações com ações nas universidades, presença nos bairros e ação nas redes sociais.

“As brigadas nos bairros e periferias são centrais porque permitem transformar milhares de estudantes mobilizados em milhares de conversas espalhadas pelas cidades“, sublinhou.

Qualquer que seja o resultado, Bianca Borges deixa o repto: “o mais importante é que essa geração não volte para casa no dia seguinte à eleição”.

“Se todo esse processo deixar milhares de estudantes mais organizados, centros académicos fortalecidos, novas lideranças e uma juventude mais consciente da própria capacidade de intervir na história, já teremos produzido um legado que vai muito além do segundo turno”, disse.

Na primeira volta, realizada em 04 de outubro, Flávio Bolsonaro obteve 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula da Silva, uma vantagem de 2.224.965 votos, sendo que, desde a introdução do sistema de duas voltas nas presidenciais brasileiras, em 1989, nenhum candidato que terminou a primeira votação em segundo lugar conseguiu vencer a eleição.