Há dois anos, a França entrava em campo para disputar a final do Campeonato da Europa frente a Portugal. No Stade de France, Bacary Sagna assumia-se como o defesa direito titular da seleção gaulesa, que perderia a partida por 1-0 após prolongamento, com Éder a marcar o golo que deixou o nosso país em êxtase e os franceses de lágrima no olho. Por essa altura, na Fan Zone de Lille, outro defesa direito deambulava com os seus amigos à procura do melhor lugar para assistir à final da competição: Benjamin Pavard, na altura com 20 anos, dava os primeiros passos na equipa principal do Lille e era ainda um desconhecido no meio dos milhares de franceses que assistiam à partida. Quatro anos mais tarde, é o lateral direito titular da seleção que se sagrou campeã do mundo na Rússia, 20 anos após a primeira e única conquista da prova.

“Ainda não estou bem ciente do que se tem estado a passar”, assumia o defesa, antes da partida com a Bélgica, que carimbaria a passagem francesa à final da competição. “Estou na minha bolha, só penso em trabalhar e ganhar este Campeonato do Mundo”, atirou Pavard. O desejo do menino de 22 anos cumpriu-se e que história tem Pavard para contar aos seus netos no dia em que lhes explicar o percurso percorrido até levantar a taça de campeão mundial.

No verão de 2016, já depois da França ser derrotada por Portugal e a Fan Zone de Lille desmontada, Pavard trocava a cidade francesa por uma aventura em terras germânicas. E que aventura! O lateral francês, que havia realizado 25 partidas em dois anos onde integrou a equipa sénior do Lille, mudava o rumo da sua carreira e viajava até Estugarda para representar o histórico alemão, acabado de descer à Segunda Liga. Para muitos, era um passo em falso. “Muita gente pensou que ia correr mal. Mas vencemos o título da Segunda Liga, estive bem e progredi muito. Hoje, já joguei na Bundesliga (principal divisão alemã) e está tudo a correr bem”, contou o lateral em declarações ao site Goal.com.

Pavard, na sua última época ao serviço do Lille, onde fez a sua formação desde 2009 e pelo qual fez 25 partidas oficiais (Créditos: Getty Images)

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Logo nesse primeiro ano, o Estugarda regressou aos grandes palcos alemães e consigo levou Pavard. O defesa francês brilhou na Bundesliga mas nem foi no lado direito do setor mais recuado que começou a dar nas vistas, já que, no Estugarda, Pavard ocupa uma das posições do centro da defesa alemã. Ainda assim, as suas exibições não passaram despercebidas a Didier Deschamps, que, em novembro de 2017, o chamou pela primeira vez para um particular frente a País de Gales. Pavard entrou ao minuto 46 para o lugar de Jallet, a França venceu por 2-0 e, desde então, com o lateral direito em campo, os franceses não perderam qualquer jogo. 

Quando se estreou a titular neste Mundial, frente à Austrália, Pavard somava a sua sétima internacionalização, a primeira num jogo oficial. Os gauleses venceram essa partida, assim como a seguinte, contra o Peru. Com a França já apurada para os oitavos da prova, Deschamps fez descansar o jogador para o lançar fresco no encontro contra a Argentina, o primeiro da fase a eliminar. E, aí, ao minuto 57, Pavard apresentou-se aos adeptos franceses e ao mundo do futebol: “Boa tarde, eu sou o Pavard e cá vai disto”, pensou, antes de fazer aninhar a bola no fundo das redes argentinas e devolver o empate aos franceses (2-2), naquele que foi um dos melhores lances do torneio. Com esse golo, deixou de ser o menino de 18 anos que assistia à derrota francesa na Fan Zone de Lille para se transformar no jovem de 22 que ajudava os gauleses a chegar ao segundo Campeonato do Mundo da sua história. E até teve direito a um cântico que, traduzido à letra, dá mais ou menos nisto: “Benjamin Pavard/Acredito que não o conheça/Ele vem do nada/ Acertou um tiraço/ Nós temos o Benjamin Pavard!”.

O golo de Pavard contra a Argentina foi o cartão de visita do lateral direito para o Mundo. Um tiraço de fora da área, digno de ser visto e revisto (Créditos: Getty Images)

Desde 1998 que um defesa francês não marcava um golo num Mundial. O último foi Lilian Thuram, também ele polivalente, capaz de fazer qualquer posição do setor mais recuado e que foi decisivo curiosamente na meia-final com a Croácia. As comparações entre os dois tornaram-se inevitáveis e Pavard só pode ficar orgulhoso por ser comparado a um dos mais internacionais de sempre com a camisola da França (142). “Assinava já um papel que me desse uma carreira como a do Thuram”, admitiu. Em declarações ao L’EquipeThuram não se poupou em elogios a Pavard: “Jogou com o meu filho (o avançado Marcus Thuram) no Campeonato da Europa de Sub-19 de 2015 e assisti a todos os jogos. Desde esse momento que vimos que era um jogador de futuro. Defensivamente é muito bom”, afirmou o histórico defesa gaulês.

A verdade é que do onze base que se sagrou campeão mundial na Rússia, Pavard é o único que não disputou a Liga dos Campeões na temporada passada. Mas isso pode mudar num futuro muito próximo: depois de ter custado cerca de cinco milhões de euros ao Estugarda, o francês que tem contrato até 2021 está debaixo de olho do Bayern de Munique, segundo a imprensa alemã, e a transferência poderá acontecer nos próximos dias. Michael Reschke, diretor desportivo do Estugarda, já avisou que Pavard não sai “nem por 50 milhões de euros”, mas o poderio financeiro dos gigantes bávaros poderá ser suficiente para acrescentar um novo capítulo a este bonito conto de fadas vivido por Pavard.

Um ‘não’ que valeu uma multiplicação do ‘sim’

Da direita da defesa para o flanco oposto, Lucas Hernández era um nome mais conhecido do mundo do futebol em geral e dos franceses em particular, mas por pouco não esteve neste Mundial com outras cores vestidas. E a França bem que pode agradecer a Fernando Hierro, à data diretor desportivo da Federação Espanhola, por ter podido contar com o defesa esquerdo do Atl. Madrid nas suas fileiras.

Lucas Hernández a segurar a taça de campeão do mundo: uma imagem que só existe porque a Hierro e a FIFA desviaram o lateral para a seleção francesa (Créditos: Getty Images)

Era ainda Julen Lopetegui selecionador espanhol quando passou pela cabeça do agora técnico do Real Madrid convocar Lucas Hernández para La Roja. O lateral nasceu em Marselha, mas foi criado em Espanha, tendo feito toda a sua carreira no Atlético. O seu agente, Manuel García-Quilón, em contacto com Lopetegui, começou a tratar dos documentos necessários para que Lucas Hernández se pudesse estrear com a camisola espanhola, mas o excesso de zelo de Hierro acabou por travar a operação. O então diretor desportivo comunicou com a FIFA e, na tentativa de perceber se o lateral poderia vir a jogar por Espanha, recebeu uma resposta negativa.

O agente do jogador não aceitou o ‘não’ como resposta, assim como outros dirigentes da Federação Espanhola, que voltaram a contactar a FIFA. Foi preciso a organização que tutela o futebol enviar uma carta a proibir a mudança de federação para que os espanhóis desistissem de Lucas. Quem acabou por ganhar com toda esta situação foi a seleção francesa, que recebeu o seu lateral esquerdo titular de braços abertos, e o próprio jogador que na seleção espanhola seria um provável suplente de Jordi Alba e na França acabou por ser titular e campeão do mundo.