Já li mais livros sobre comédia do que aqueles que me consigo lembrar assim de cabeça. Dos mais densos aos mais galhofeiros, do Stendhal ao Jimmy Carr. E se vos parece um tema interessante é porque nunca me viram a dar seca a pessoas em jantares, com explicações eloquentes mas indesejadas sobre o bathos ou o pay off, enquanto a pobre alma que ficou sentada ao meu lado tenta ensurdecer com recurso a muita sangria. Há um eixo comum na esmagadora maioria destes livros, independentemente do século ou do tom: o humor serve para nos apaziguar dores, dar perspetiva, curar as tormentas. Daí o provérbio velho como o tempo: “o riso é o melhor remédio”.

Hannah Gadsby, comediante australiana, discorda. Diz que é a penicilina. E depois remata com uma articulada mas violenta explicação de como o facto de moldar todas as suas experiências em pequenas tiradas cómicas lhe está a arruinar a vida. Fico em suspenso. Isto é o oposto de tudo o que aprendi e de tudo o que ensinei.

“Nanette”, o espectáculo que chegou há pouco tempo ao Netflix e fez de Gadsby uma estrela mundial, é uma pedrada no charco. Esta expressão cliché é usada geralmente com displicência, para categorizar tudo, desde óperas a hamburguerias. Mas “Nanette” muda efectivamente o paradigma do que é um solo de stand up. Mais: será mesmo isto um espectáculo de stand up? Já o vi três vezes e continuo sem saber. Todo este espectáculo é uma cilada, um canto da sereia humorístico que nos prende para depois se transformar num Adamastor visceral e dramático. Mistura piadas com autobiografia, o que está longe de ser novo. Mas fá-lo de um modo que denuncia o humor como algo que deturpa a nossa verdade e pode por isso ser perigoso.  Cilada é mesmo a palavra que melhor descreve a viagem por “Nanette”, a começar logo no título, desmontado nos primeiros instantes: Nanette é o nome de uma mulher que Hannah conheceu e achou que lhe ia render uma hora de piadas; tal não aconteceu de todo, mas o nome já estava precocemente dado.

[o trailer de “Nanette”:]

No início, a comediante faz-nos rir com piadas sobre as suas experiências como lésbica assumida numa pequena cidade da Tasmânia. Apenas para depois nos explicar que limitamo-nos a rir de uma versão abusivamente simplificada de experiências traumáticas. No início fala-nos entre risadas da vez em que um rapaz a confundiu com um homem e achou que Hannah se estava a fazer à namorada dele. Juntamo-nos a ela nas risadas. Muito mais à frente no set, quando já esquecemos esse episódio mascarado de comédia de costumes, elucida: esse rapaz acabou por a espancar e ela ficou tão tolhida pela vergonha de ser quem era que nem foi à polícia. Nós rimo-nos, com ela, da versão tosca e divertida a lápis de cera de um episódio que afinal é uma enorme pintura a óleo de dor e trauma. Se calhar, não era para rir. Culpa dela? Culpa nossa? Nós vamos à traição, porque a única pessoa que Hannah Gadsby quer parar de trair é a ela própria.

Tenho recomendado “Nanette” a toda a gente que consigo. Podem até não adorar (algumas pessoas caracterizam-no como TED Talk, e não de modo elogioso), mas é certo que levarão uma lambada no cérebro e na alma e ficarão a pensar naquilo um algum tempo.  A reacção que mais recebo de quem acede à recomendação é “fartei-me de chorar”. Estranho, num especial de comédia. Já vi pessoas serem mudadas por filmes ou por livros, acho que nunca tinha visto acontecer com stand up. “Ainda estou a pensar naquele fim”. Se o estômago embrulhado vai durar um dia, uma semana ou uma vida? Não é possível saber.

Filmado na ópera de Sidney, o espectáculo dura cerca de uma hora e dez. E é ao minuto 17 que tudo muda. Os conterrâneos de Hannah a rirem-se com as suas aventuras de coming out e ela a largar a bomba:

“Acho que tenho de deixar a comédia. Este não é o melhor sítio para fazer este anúncio, pois não? (…) Mas tenho questionado esta coisa da comédia.”

Depois de um ano de reflexão, a mulher que faz aquilo há uma década depois de ter ganho um concurso de televisão quer parar. Não tem plano B, assegura. Mas já não se sente confortável naquele papel. Construiu toda carreira no humor auto depreciativo e já não o quer fazer mais. Explica que para quem se sente a viver à margem, o bota abaixo humorístico “não é humildade, é humilhação”.  Não fará mais isto nem a ela nem a quem se identifica com ela. “Se a minha carreira acabou, seja.” O público bate palmas.

[uma entrevista com Hannah Gadsby:]

A história de vida de Hannah Gadsby era terreno demasiado fértil para desperdiçar sem uma colheita artística. Natural de Smithton, uma pequena cidade no noroeste da ilha da Tasmânia, diz que teve de sair quando descobriu que era “um pouco lésbica”, algures em meados dos anos 90. Aos gays era ordenado, segundo a própria,  que “metam a SIDA numa mala e vão para o Mardi Gras!”. Até 1997, a homossexualidade era ilegal na Tasmânia. Na parte já séria de “Nanette”, Gadsby garante que quando descobriu que era lésbica, ela própria já era homofóbica. Precisou de dez anos depois de se assumir para tentar encontrar o seu lugar no mundo. Garante que o truque é parar de tentar encaixar.

A australiana é mestre não só de texto, mas especialmente da arte de bem saber manipular os sentimentos de quem a vê em palco. “Eu faço-vos tensos, esta é uma relação abusiva”. A tensão é, academicamente, a rampa de lançamento de qualquer piada. Qualquer um dos livros que li garante que o riso é causado para relaxar perante a tensão do ilógico ou inesperado. É natureza humana. Mas Hannah Gadsby não se deixa convencer por esta fórmula: “eu não tinha de inventar a tensão. Eu sou a tensão”.

Regressando à ideia de desistir, a tasmaniana confessa que o modo como conta em palco, com piadas, o momento em que se assumiu perante a mãe é um dos principais factores para a decisão. Nos seus espectáculos, congelou linhas gerais dessa experiência no seu ponto mais traumático, confundindo assim esse congelamento com o que aconteceu mesmo. Porque uma piada precisa de trauma para funcionar, para ter a tal tensão. Mas na vida fora do palco (real ou metafórico), não funciona assim, com esta sede de choque e imediatismo. “Aprendemos com a parte da história em que nos concentramos. Preciso de contar a minha história como deve ser”. Gritos. Suspiros. “Nanette” termina sem a clássica piada final antes da saída em grande de palco. Hannah Gadsby parte para cuidar da sua história. E nós ficamos do lado de cá dessa porta que se fecha.

Susana Romana é guionista e professora de escrita criativa