Esta era aquela pergunta para queijinho num Trivial Pursuit à mesa com amigos de grau mais elevado: quantas medalhas tem Nelson Évora em Campeonatos da Europa ao Ar Livre? A primeira resposta que viria à cabeça de muitos seria uma, duas ou três, mas é aqui que está a rasteira – esta é das pouquíssimas provas internacionais, senão mesmo a única, onde o saltador nunca conseguiu subir ao pódio. Razões há muitas, das lesões à própria preparação que cada atleta faz da temporada, colocando sempre “picos” em algumas fases do ano. E este era o grande aliciante da final do triplo salto este domingo em Berlim.

Entre Rosa Mota, Manuela Machado, Fernanda Ribeiro, António Pinto, Manuela Machado, Francis Obikwelu, Dulce Félix, Patrícia Mamona, Sara Moreira e Inês Henriques, Portugal somava já 14 ouros em 35 medalhas em Europeus desde 1982. Mas houve outros nomes grandes do atletismo nacional a chegar ao pódio, casos de Susana Feitor, Jéssica Augusto, Rui Silva, Carla Sacramento, João Vieira ou Naide Gomes. Nelson Évora esteve perto, quando ficou na quarta posição em Gotemburgo no ano de 2006 (nessa mesma edição fez também sexto lugar no comprimento). O mesmo Nelson que já foi campeão olímpico (2008, em Pequim) e campeão mundial (2007, em Osaka, somando depois mais uma prata e dois bronzes).

Nelson Évora e Marta Pen garantem qualificação para a final no Campeonato da Europa

Na verdade, o saltador venceu os Europeus quando era júnior, em 2003, e até foi em versão dupla: conquistou o ouro no triplo salto e no comprimento em Tampere. Mas faltava a medalha como sénior, 15 anos depois. E apesar dos 34 anos, o Campeonato do Mundo em Pista Coberta, em março, mostrou bem o espírito competitivo de Nelson Évora – em março, na pista de Birmingham, o português alcançou o bronze, atrás do multicampeão americano Will Claye e do brasileiro Almir dos Santos. No entanto, o que se passou na qualificação acabou por deixar a dúvida sobre o momento que o atleta do Sporting atravessa: garantiu a final com 16.62, o sexto melhor registo, fazendo apenas um salto válido. Certo só mesmo o favorito teórico à partida para as grandes decisões, Alexis Copello, azeri que curiosamente faz parte do mesmo grupo de trabalho de Nelson em Espanha.

A dupla vitória de Ivan Pedroso, o técnico de Nelson que parece ter um (triplo) toque de Midas

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Depois de uma primeira tentativa nula, Nelson Évora conseguiu ao segundo salto 16.66, marca que, à partida, garantiria sempre o acesso às últimas oportunidades. O britânico Nathan Douglas, que fez o máximo pessoal do ano (16.71), e o grego Dimitrios Tsiamis, que superou também o melhor registo de 2018 (16.78), eram as principais surpresas da final, juntando-se ao espanhol Pablo Torrijos (16.71). No entanto, este concurso seria mesmo disputado entre os companheiros de treino: Alexis Copello, que abriu o concurso com 16.76, reforçou a liderança com 16.93 antes de fazer um nulo; já o português, a fazer uma prova sempre em crescendo, saltou a 16.86 e colocou-se na segunda posição quando se atingiu o meio da competição em Berlim.

Mas o melhor estava para vir: depois de ter melhorado apenas um centímetro o 16.86, Nelson Évora conseguiu um fabuloso salto à quinta tentativa a 17.10, superando por cinco centímetros a melhor marca do ano e passando para a frente de Copello que, após ter prescindido do quarto salto, fez uma tentativa nula (e convém recordar que o azeri tinha a segunda melhor marca europeia do ano, 17.28, feita em maio e apenas superada pelos fabulosos 17.95 de Pedro Pablo Pichardo, que foi impedido ainda de participar nesta edição… com as cores de Portugal). A confiança com que o saltador partiu em direção à tábua para o primeiro apoio quase dizia tudo: havia uma nova história para escrever nos Europeus. E estava escrita, com a classe de sempre, faltando apenas a confirmação que chegou do último salto de Copello, a não passar dos 16.79.

O Presidente da República e o primeiro-ministro já deram publicamente os parabéns ao atleta. “O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa saúda calorosamente Nelson Évora, novo Campeão Europeu de triplo salto, um feito heróico que prestigia um fantástico atleta e prestigia Portugal”, pode-se ler na página oficial.

Já António Costa voltou a usar o Twitter para felicitar o campeão europeu, sem esquecer os resultados obtidos por todos atletas nos Europeus de atletismo.