“Bem-vindos ao inferno.” A frase foi proferida por um bombeiro que, durante longas horas, combateu durante a noite de sábado e esta madrugada, em Cascais e Sintra, as chamas de um incêndio de grandes proporções e com duas frentes ativas, que obrigou à mobilização de mais de 600 bombeiros apoiados por quase 200 veículos.

Quando viu no cenário envolvente um vislumbre do inferno, o bombeiro em causa, da corporação de Paço de Arcos e com longa experiência no combate aos incêndios (começou a fazê-lo há precisamente 20 anos), estava na estrada que vai dar à praia do Abano. Uma estrada rodeada por mato, que durante a madrugada foi cortada pela polícia e na qual os bombeiros não pouparam esforços para tentar que não se transformasse de estrada cercada pelo fogo em estrada consumida pelas chamas.

A dada altura, perante o alastrar das chamas provocado pelo vento, não havia muito mais a fazer se não “deixar queimar”. Extinguir rapidamente o fogo que lavrava nas zonas de mato que cercavam a estrada pelas laterais era tarefa impossível, numa noite com muito vento e sem a possibilidade de recorrer a meios aéreos.

A prioridade era mesmo assegurar que o fogo não galgava a estrada, vindo das laterais, havendo ainda algum cuidado com a proteção dos pinheiros, que “demoram muito tempo a crescer”.

Entre correrias, gritos, comunicações por rádio, combate hidráulico e exaustão física, alguns bombeiros sentiam o esforço físico e cediam ao cansaço, recuperando sentados no chão, praticamente imóveis e com a cabeça encostada ao sinal que indica a direção para a praia do Abano. Eram muitos curtos, intervalos pequenos entre a luta frenética contra um “inferno” que pode confirmar em imagens publicadas pelo Observador.

A longa noite de combate às chamas em Sintra e Cascais em imagens

Já na Malveira da Serra, o que se sentia era sobretudo medo. Medo de que o fogo atingisse as casas que alguns abandonaram ou a que simplesmente não regressaram esta noite, por medo de que as chamas lá chegassem. Era isso que transparecia no rosto de uma mulher, que, sentada num banco de jardim, enrolada numa manta e apoiada sobre as pernas cruzadas, não tirava os olhos do telemóvel. No ecrã, via os diretos das televisões, tentando perceber se as notícias que mais temia não se confirmavam. “Os vizinhos mandaram-nos ir embora… deus queira que o fogo não chegue lá!”, disse, em tom ansioso.

Uns metros adiante e uns degraus acima, Miguel Silva, Nuno Cruz e José Lopes observavam atentamente a descida das chamas, que os bombeiros tentavam evitar que chegassem às habitações da vila. A informação que os três tinham, dada pelo comandante das operações de socorro, era de que “à partida o fogo não chegaria” às suas casas. Apesar disso, a ansiedade não os deixou dormir.

“Temos aqui pessoas mais idosas, é complicado”, referiam, constatando que o problema na hora de evitar a propagação das chamas era mesmo o vento, que se fazia sentir fortemente e que “em dez minutos acelerava ou mudava de lado”. As caras que se viam na Malveira da Serra, na Charneca ou na Biscaia, nos concelhos de Sintra e de Cascais, repetiam-se, eram as mesmas com o passar das horas, evidenciando maior ou menor preocupação consoante a evolução do combate.

O descanso não terá sido muito, até porque este domingo a luta contra o incêndio prossegue — e não se adivinha fácil.