Rádio Observador

Arte

Banksy. As três perguntas que ficaram por responder depois da autodestruição do quadro

253

Depois de "Girl with a Balloon", um dos mais conhecidos quadros de Banksy, se ter autodestruído após ser vendido por um milhão de libras, existem três grandes questões ainda por responder.

A pintura foi originalmente concebida em 2002 e vendida pelo próprio Banksy em 2006

AFP/Getty Images

A história foi uma das mais comentadas no mundo inteiro durante o fim de semana passado. Banksy, o famoso artista britânico cuja identidade nunca foi revelada, tinha conseguido organizar uma das mais marcantes e inesperadas representações artísticas dos últimos anos. Depois de “Girl with a Balloon” – uma das obras mais conhecidas do artista – ser vendido por mais de um milhão de libras no leilão da Sotheby’s, uma destruidora de papel instalada na moldura do quadro foi ativada e destruiu parcialmente a pintura em grafite e acrílico de uma menina a largar um balão vermelho.

Poucos minutos depois de dezenas de pessoas ficarem totalmente surpreendidas com a autodestruição do quadro, Banksy publicou na própria conta de Instagram um vídeo do que aconteceu e acrescentou a descrição “going, going, gone”, a ir, a ir, foi-se. O curto espaço de tempo que o artista demorou a partilhar as imagens nas redes sociais deixou uma dúvida: estaria o próprio Banksy entre as pessoas presentes no leilão?

View this post on Instagram

Going, going, gone…

A post shared by Banksy (@banksy) on

Mas esta não é a única ponta solta que ainda não tem explicação. Existem pelo menos três grandes perguntas sem resposta – e o mais provável é que assim continuem, já que Banksy já deixou claro que o mistério e a incerteza são as suas principais armas para realizar algumas das intervenções artísticas mais marcantes desde o início do século XXI.

Estaria Banksy no leilão?

Esta é a pergunta óbvia. O vídeo que o artista partilhou nas redes sociais logo depois do que aconteceu abriu espaço para a especulação de que Banksy poderia, de facto, estar no leilão da Sotheby’s em Londres a assistir à destruição de “Girl with a Balloon” a filmar com o próprio telemóvel.

Nos dias seguintes, surgiram nas redes sociais outras imagens que mostravam um homem de meia idade, com óculos pretos de massa, a filmar o momento em que o quadro é parcialmente destruído. Pouco depois, é possível ver o mesmo homem a ser acompanhado pela segurança até à saída do leilão. O aspeto misterioso da pessoa em causa juntava-se então a um outro fator que alimenta a especulação de que se tratava mesmo de Banksy: o facto de ser parecido com Robin Gunningham, o homem que os investigadores da Queen Mary’s University identificaram em 2016 como sendo o artista britânico ao usar métodos de perfil e localização geográfica, e de estar num local da sala que correspondia ao ângulo captado no vídeo partilhado por Bansky.

Contudo, também existe a possibilidade de terem sido um ou dois colaboradores de Banksy a filmar o momento. É moderadamente conhecido que o artista tem algumas pessoas que trabalham com ele e que o ajudam a manter o secretismo da sua identidade. Erika Rossi, uma proprietária de galerias de arte italiana que estava no leilão, disse à CNN que na fila à sua frente estava um rapaz que filmou o evento na íntegra.

A Sotheby’s estava avisada e colaborou?

Esta é a questão que pode atribuir todo o mérito a Banksy, caso a leiloeira não soubesse de nada, ou retirar-lhe todos os elogios, caso a Sotheby’s estivesse previamente avisada do que se iria passar. A resposta, tal como tudo o que envolve o artista, é um mistério.

Existem vários argumentos que sustentam as duas hipóteses. “Girl with a Balloon” foi originalmente criada em 2002 e vendida diretamente por Banksy a um comprador individual quatro anos depois, em 2006. Segundo a informação disponibilizada pela Sotheby’s, esse mesmo comprador decidiu agora oferecer a obra. Logo, a ser verdade tudo isto, o artista teria de ter vendido a pintura com uma destruidora de papel incluída, alimentada por uma bateria e ativada via controlo remoto. Doze anos depois, o mais provável era que a bateria estivesse completamente gasta.

Além disso, várias pessoas nas redes sociais têm sublinhado a calma e descontração com que os funcionários da Sotheby’s removeram o quadro da parede depois da destruidora ter sido ativada: tanto pela ausência de receio de que existissem lâminas ou algum tipo de explosivo como pela inexistência de estranheza quando pegaram na moldura, já que uma destruidora de papel teria com toda a certeza aumentado o peso original da obra.

Depois do leilão, a Sotheby’s emitiu um comunicado onde recusa veementemente ter tido qualquer conhecimento prévio do que se ia passar e explica porque é que nunca removeu o quadro da moldura, como é normal acontecer quando uma leiloeira recebe um quadro. “Quando a Sotheby’s perguntou ao estúdio se podia remover a obra de arte da moldura durante o processo de catalogação, foi-nos dito expressamente que não podíamos retirar a moldura. E isto não é inédito – consideremos as molduras de laca de Lucio Fontana ou as molduras de George Condo que têm etiquetas no verso a dizer que não é permitido remover a moldura. Em muitos casos, ao remover a moldura estamos a violar os desejos do artista e a destruir o trabalho artístico”, explicou a leiloeira.

Mas os especialistas responderam ao comunicado com outro argumento. Se a leiloeira não sabia mesmo de nada do que se ia passar, então porque é que uma obra de arte com tanta projeção mediática foi a última peça a ir a leilão e não surgiu antes na ordem do evento? A Sotheby’s reiterou: “Não tivemos qualquer conhecimento prévio deste evento e não estivemos envolvidos de forma alguma”.

O quadro vai subir ou descer de valor?

A pintura está parcialmente destruída – mas a encenação artística vai com toda a certeza fazer parte da história da arte contemporânea. Será preciso aguardar alguns dias ou algumas semanas para perceber se o comprador quer ficar com o quadro ou vendê-lo e se “Girl with a Balloon” vai disparar de valor ou cair.

“Não tenho a certeza se a pintura vai ser mais valiosa ou menos valiosa mas vai definitivamente ser a mais famosa do Banksy”, disse à CNN Steve Lazarides, antigo proprietário de uma galeria onde o artista britânica expôs algumas obras.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: mfernandes@observador.pt
Crónica

Museológica da batata /premium

Tiago Dores

Somos um povo com inclinação para a filosofia, com dotes de abstracção tão bons, tão bons, que acabamos por ser mais fortes a discorrer sobre museus imaginários do que a visitar museus reais.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)