José Saramago

O segundo português que soube do Nobel para Saramago seis dias antes: “Contive-me para não me descair”

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Amadeu Batel não foi o único português que soube do prémio quase uma semana antes de se tornar público. Nessa noite, chamou Fernando Rodrigues a sua casa. E ele manteve segredo até ao dia.

Fotografia tirada em 2009, um ano antes da morte do escritor que venceu o Nobel da literatura há precisamente 20 anos

GIUSEPPE GIGLIA/EPA

É de conhecimento generalizado que houve um português que soube da atribuição do prémio Nobel da literatura a José Saramago seis dias antes do anúncio da Academia sueca: Amadeu Batel. O que poucos sabem é que não foi o único.

Quando Amadeu Batel era professor na universidade de Estocolmo (Studie Rektor), Fernando José Rodrigues era Leitor de Língua e Cultura Portuguesas. Foi-o entre 1995 e 2001 e teve Batel como superior hierárquico. Um dia, o “chefe” ligou-lhe com um pedido invulgar: “Telefonou-me, pedindo-me muito sigilo (embora eu de nada soubesse!) para ir a casa dele”. Fernando José Rodrigues foi mesmo — e lá, ficou a saber “que o Nobel seria ‘nosso'”. Isto porque Amadeu Batel tinha ficado encarregue de fazer uma versão portuguesa do texto que explicava “os pressupostos da Academia” para atribuir o prémio ao único escritor português que o venceu até hoje. A noite era uma sexta-feira, 2 de outubro. A oficialização do prémio aconteceu a 8.

A partilha da novidade, que tinha de ficar em segredo absoluto até ao dia de atribuição do Nobel, não se deveu a companheirismo ou amizade. O motivo, na verdade, foi trabalho: “Não que os meus conhecimentos de sueco (tinha estudado dois níveis) fossem importantes, mas como ele estava na Suécia há cerca de 40 anos, queria conversar comigo para [a versão portuguesa do texto da Academia] ficar em melhor português”. Foi então “com grande emoção” que os dois se dedicaram à tarefa, que envolvia traduzir a justificação da Academia para português.

A Pilar [del Río, viúva do escritor] saberá mais tarde e eu contive-me perante os meus amigos portugueses (doutorandos, mestrandos, Erasmus) para não me descair. (…) Depois, no dia do anúncio, pedi ao Amadeu que me deixasse telefonar ao embaixador de Portugal, Paulo Castilho, também ele escritor, para ele ter tempo de mandar telegrama para o Ministério dos Negócios Estrangeiros em Lisboa. Cerca de 15 minutos antes das 13h [do dia da entrega do prémio] liguei-lhe, pedi para falar com ele com urgência e só lhe disse que Saramago ia ser prémio Nobel. Foi rápido, não havia tempo para mais”, conta ao Observador.

O embaixador (também escritor) Paulo Castilho terá sido o terceiro português a ter conhecimento da atribuição do Nobel a Saramago. Do que Fernando José Rodrigues tem “a certeza” é de que foi o segundo. Embora isso não seja de conhecimento generalizado, também “não é segredo, pois no outro dia, no Facebook, quer o Fernando Venâncio, quer o Mário de Carvalho falaram do nosso homem em Estocolmo, numa bondosa brincadeira sobre esses tempos”.

Trata-se de uma fotografia “desfocada pelo tempo”, de um jantar na residência do embaixador e escritor Paulo Castilho, “no dia da chegada de Saramago e Pilar a Estocolmo”. Fernando José Rodrigues está ali, “com bigode que já não uso e casaco largo que já não se usa”, brinca. Amadeu Batel, o primeiro português a saber do Nobel de Saramago, está “em baixo, ao lado de Pilar”

Mais tarde, a Academia sueca convidou Fernando José Rodrigues para “fazer a versão inglesa da lecture [palestra] que Saramago leu na Academia”, que pode ser encontra aqui e que não se confunde com o discurso de entrega do prémio. A versão inglesa desse discurso posterior inclui o seu nome e o nome “do professor de química da universidade de Estocolmo, Tim Crosfield, que não sabia português nem nunca tinha lido Saramago e aprendeu a gostar. Deleitava-se a ler, em voz alta, a nossa tradução. Também a versão inglesa da biografia de Saramago é minha e do Tim”, aponta.

Confesso que aquando do convite estive para não aceitar, não porque duvidasse do meu inglês, mas porque se tratava de um texto de José Saramago. E não o queria arruinar e queria manter a sua pureza lexical e estrutural. Depois foi aceitar e estar uma noite inteira a partir pedra em sete páginas do texto (acho que que eram cerca de 15). A seguir, foi trabalhar com o Tim, ora por email, ora no meu gabinete da faculdade. Foi e é um orgulho”, diz ainda.

Este ano, assinalam-se 20 anos da atribuição do prémio Nobel a José Saramago. Além de um encontro em Lazarote entre os primeiros-ministros de Portugal e Espanha, António Costa e Pedro Sánchez, decorreu em Coimbra um congresso internacional para discutir a obra do escritor e foram lançados dois livros: Um País Levantado em Alegria, do responsável pela comunicação da Fundação José Saramago, Ricardo Viel, e um volume inédito dos diários de José Saramago, escrito precisamente em 1998 (ano de atribuição do Nobel) e que se mantinha desconhecido até há alguns meses.

Nota – Ao contrário do que se lia numa primeira versão do texto, Amadeu Batel e Fernando José Rodrigues foram responsáveis pela tradução do texto da Academia sueca para a língua do laureado, isto é, português, e não para “francês, inglês, alemão e língua do laureado”, como se lia numa primeira versão do texto. Aos visados, as nossas desculpas.

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