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Amadeu Batel: o júnior do Vitória de Setúbal foi o primeiro português a saber do Nobel para Saramago

Em outubro de 1998, um professor universitário na Suécia recebeu a notícia pelo telefone. Rui Miguel Tovar falou com ele da mesma maneira, sobre Saramago e sobre a vez em que viu Matateu jogar.

"Telefonaram-me porque conhecia bem o Saramago e também porque tinha feito um trabalho em conjunto com a Marianne Eyre na tradução das obras de Saramago, como História do Cerco de Lisboa", conta Amadeu Batel

AFP/Getty Images

Piiiiing, pooooong, piiiiing, pooooong. Há jogos de ténis de mesa assim-assim de tão previsíveis, à procura do erro do adversário. Outros há ligeiramente mais dinâmicos, com ping, pong, ping, pong. Parecem gotas a cair de uma torneira aberta. E há os acelerados, pin, pon, pin, pon, pin, pon. É um cá-e-lá danado, ideal para entortar os olhos a qualquer um. Amadeu Batel é um português na Suécia desde 1963. Há 55 anos, portanto.

Faz um percurso académico em Estocolmo como professor universitário e é nessa condição que recebe a notícia em primeira mão da Academia do Nobel da Literatura para José Saramago, prémio anunciado publicamente há 20 anos, a 8 de outubro de 1998. O telefone de Amadeu é-nos facultado por um outro português em Estocolmo e a conversa desenvolve-se desde o Funchal, no intervalo do Marítimo-Vitória nos Barreiros.

José Saramago a 10 de dezembro de 1998, quando recebeu o Prémio Nobel da Literatura, entregue pelo rei da Suécia, Carl XVI Gustaf (JAN COLLSIOO/AFP/Getty Images)

É o Amadeu?
O próprio.

Quero falar-lhe sobre o Nobel de Saramago.
Muito bem. Pode ligar-me amanhã, a partir das 15 horas daqui? Agora estou a jantar com a minha família.

Claro que sim, à vontade.

Piiiing, pooooong, piiiing, poooong. Passa-se um dia neste registo monocórdico. Nesse hiato temporal, já estamos no Porto, mais precisamente na Foz. Quando batem as 15 horas, faz-se a chamada e Amadeu recebe-nos com categoria.

É agora?
Vamos a isso.

O jantar de ontem foi bom?
Estava cá a minha filha e tinha de aproveitar o momento. Agora estou aqui sozinho com a minha papelada. À espera do clássico [Benfica-Porto].

Ai gosta de bola?
Muito.

E é de quem?
Belenenses.

Isso é démodè.
Ahahahah, pois é, mas sou mesmo. Não temos de ser todos de Benficas e Sportingues.

Nem mais. E já viu o Belenenses ao vivo?
Vi o Matateu, chega?

Uauuuuu, o Matateu?
Sim senhor, o Matateu.

Alguma vez falou com ele?
Nunca, mas vi-o jogar e isso bastou-me. Que jogador. Faço minhas as palavras do Seminario, um peruano fantástico do Sporting: ‘Matateu foi o melhor que vi em Portugal’. Atenção, o Seminario jogou em Portugal antes da chegada do Eusébio.

E outros jogadores?
Olhe, o irmão dele Vicente, outro craque. Claro que o Matateu era mais conhecido porque marcava golos atrás de golos.

E agora como é que vê Belenenses?
No Restelo. Chego a Portugal daqui a uns dias e vou ver o Belenenses-Operário. Dérbi.

E o Belenenses do Jamor?
Restelo, sempre.

E esta confusão do Belenenses?
Dá-me pena. Estamos a pouco menos de um ano para o centenário e esta confusão é desnecessária.

Beeeeem, gosta mesmo de bola.
Eu joguei futebol. Pelo Vitória de Setúbal, nos juniores. Estavam lá os irmãos Graça, o Jaime e o Emídio. Depois fui trabalhar para Lisboa e lá me convenceram a jogar uns dois anos no Sacavenense.

A que posição?
Extremo-direito, número 7, ahahahahah.

E então?
Boa experiência. A do andebol também gostei.

Jogou andebol?
Adoro andebol, joguei no Benfica e tudo. Por alguma razão estou aqui.

Em Estocolmo?
Na Suécia.

Então porquê?
Eles foram campeões mundiais de andebol em 1954 e 1958. Além disso, organizaram o Mundial de futebol em 1958. E eram um país livre e democrata. Não vamos falar de democracia e liberdade agora agora agora, pois não?

Só se quiser muito.
Não quero, hoje não. Ahahahah.

Muito bem, Suécia é fixe. Está aí desde quando?
Há 55 anos.

E a sua idade, já agora?
A cegonha largou-me em Loulé em 1943.

Quarenta e três. Desculpe lá a insistência na bola, mas então viu alguns dos Cinco Violinos, não?
Ahahahahah, vi pois. Lembro-me perfeitamente do Jesus Correia num 4-1 da Itália a Portugal no Jamor. Quer dizer, acho que foi 4-1. Ou quatro ou três-um.

Formidável. Dizia-me sobre a Suécia de há 55 anos. Muito diferente de agora?
Nem imagina. Quando aqui cheguei, a população era maioritariamente sueca. Havia uns finlandeses e tal, uns italianos e já está. Agora, 1/3 é de origem estrangeira.

E portugueses?
Muitos, é verdade. Até dá para formar uma equipa de futebol.

Não me diga que?
Acertou em cheio, já fui jogador e, depois, treinador.

Ahahahah, maravilha. Boa equipa?
Dávamos uns toques valentes.

Na bola, espero.
Ahahahah. A bola é um bem precioso, há que estimá-la.

E o Saramago entrava nessas andanças?
Nunca foi à bola com a bola, ahahahahah. Dizem que era benfiquista, porque o pai era um conhecido benfiquista, mas nunca vi o Saramago a falar de futebol. Interessavam-lhe outras artes.

Bem sei.
A escrever era um autêntico número 10.

Ahahahah. Conheceu-o bem?
Muito bem. Era um homem extraordinário.

Levou-o a Estocolmo?
Sei lá quantas vezes. Estava sempre disponível e o convívio era imenso, por horas e mais horas. A amizade perdurou.

E quando ganhou o Nobel?
Isso é que foi, ahahahahahah.

Então?
A Academia ligou-me para casa e eu não estava. Atendeu a minha mulher e o recado era que lhes ligasse até às quatro e meia da tarde. Quando soube, fiquei assim para o interessado.

Como quem diz
Como quem diz, ‘queres ver que a notícia é a que sonhámos?’.

Qual era o sonho?
O Nobel da Literatura para Saramago.

E?
Fui à Academia antes das quatro e meia e o presidente perguntou-me o que achava que era a notícia. Falei-lhe do Nobel para Portugal e ele ficou em silêncio.

Uauuuuu. E depois?
Depois confirmou a vitória do Saramago, ahahahah. Foi uma alegria sem fim. Por tudo.

Então?
Era o meu amigo Saramago, era Portugal, era um prémio do mais alto nível. Se virmos bem, Saramago ganhou o Nobel só com cinco livros traduzidos para sueco. Deve ser único na história do Nobel. O último tinha sido o Ensaio sobre a Cegueira.

E contou ao Saramago?
Nãããããão, tinha de guardar segredo.

Durante quanto tempo?
Soube a uma sexta-feira e a notícia só foi tornada pública na semana seguinte.

Quem é que sabia?
A Academia, eu e o tradutor do português-sueco do Saramago.

Os resistentes?
Ahahahah, é verdade.

Porque é que lhe ligaram a si?
Telefonaram-me porque conhecia bem o Saramago e também porque tinha feito um trabalho em conjunto com a Marianne Eyre na tradução das obras de Saramago, como História do Cerco de Lisboa.

Nunca ficou com vontade de contar a Saramago?
Claro que sim, mas segredo é segredo. Guardei-o com todas as forças e só telefonei à Pilar na véspera do anúncio da Academia. Pedi-lhe os números de telefone do Saramago no hotel em Francoforte [sim senhor, Francoforte; mai’nada, Amadeu é da velha guarda]. Ele estava na feira do livro de Francoforte.

E em Estocolmo, o dia da vitória?
Glorioso, indescritível. A festa dos portugueses.

Conviveu com Saramago depois da vitória?
Siiiiim, muito, muito. Ele veio cá muitas vezes, a meu convite. Boa pessoa, excelente conversador. Que memórias. E saudades dele.

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