Crítica de Livros

“Sangue & Fogo”. O novo livro de George R.R. Martin tem dragões, mas pouco mais

George R.R. Martin voltou a Westeros para contar a história dos Targaryen. “Sangue & Fogo” não é um romance mas também não é um livro de História. É qualquer coisa ali no meio. Resta é saber o quê.

O escritor norte-americano começou a escrever a saga de "A Guerra dos Tronos" nos anos 90

Getty Images

Título: Sangue & Fogo — A História dos Reis Targaryen (volume I, parte I)
Autor: George R.R. Martin
Editora: Saída de Emergência
Páginas: 352
Preço: 18,80€

A primeira parte da edição em português de Sangue & Fogo chegou às livrarias a 23 de novembro, três dias depois da publicação da versão em inglês

Mais de sete anos depois da publicação de A Dança dos Dragões, George R.R. Martin decidiu voltar ao universo de A Guerra dos Tronos para contar a história de uma das casas mais amadas de todo o Westeros: a Targaryen. Como é dito nas Crónicas de Gelo e Fogo, a saga ficcional iniciada nos anos 90 pelo autor norte-americano que se tornou num sucesso mundial depois da estreia da série da HBO, os Targaryen não são homens como os outros. Originários de uma cidade mítica caída em perdição, estão acima das leis dos deuses e dos homens, casando irmãos com irmãos. Têm o cabelo cor de prata, os olhos púrpuros e, mais importante do que tudo isso, têm dragões.

Estas características (e sobretudo os dragões) fizeram com que se gerasse uma verdadeira legião de fãs em torno da casa de Daenerys Targaryen, cujo lema é “Sangue e Fogo”. Não foi por isso de estranhar que a notícia de um novo livro sobre os senhores de Pedra do Dragão fosse recebida com tanto entusiasmo pelos leitores do autor norte-americano. A novidade foi dada pelo próprio George R.R. Martin no seu antigo blog, “Not A Blog”. Numa entrada de 25 de abril, o escritor explicou que o novo volume, a que chamou Sangue & Fogo, não seria exatamente igual aos outros livros escritos por si. “Sangue & Fogo não é um romance. Isto não é uma narrativa tradicional e nunca pretendeu ser”, mas antes uma “falsa história”, afirmou Martin.

De acordo com as informações então disponibilizadas pelo autor, Sangue & Fogo seria uma espécie de história ficcionada que relataria, à maneira de um livro de História, a ascensão e queda da dinastia Targaryen. O narrador, esclareceu Martin na altura, seria o arquimeistre Gyldayn, da Cidadela, também autor de uma história da chamada Dança dos Dragões, uma guerra travada durante o domínio Targaryen dos Sete Reinos, várias vezes referida nas Crónicas de Gelo e Fogo e que até deu nome ao último volume publicado da saga.

Sete meses depois, Sangue & Fogo chegou às livrarias. A edição em inglês de Sangue & Fogo foi posta à venda no dia 20 de novembro. Com perto de mil páginas, começa com a conquista dos Sete Reinos por Aegon I e termina com a regência de Rhaenyra, mãe de Aegon III, mais de 100 anos depois da subida ao trono do primeiro rei Targaryen. Haverá posteriormente um segundo volume, ainda sem data de lançamento, que irá terminar a história agora começada por George R.R. Martin, que partiu de uma série de textos que o autor preparou para O Mundo de A Guerra dos Tronos e que se tornaram demasiado extensos para serem incluídos nesta espécie de enciclopédia que escreveu em colaboração com os especialistas Elio M. Garcia e Linda Antonsson.

A edição portuguesa é mais curta (tem 352 páginas). A Saída de Emergência, responsável pela publicação da obra do escritor norte-americano em Portugal, decidiu dividir o livro em duas partes. A primeira saiu a 23 de novembro (três dias depois da versão em inglês), e termina com a morte de Alysanne Targaryen, mulher de Jaehaerys I, neto do Conquistador. A segunda está agendada para os primeiros meses de 2019.

Esta divisão não é exclusiva de Sangue & Fogo. A editora fez o mesmo com os cinco volumes das Crónicas de Gelo e Fogo, duplicando o número de livros em português. A grande desvantagem é desde logo a quantia que é preciso gastar para reunir as obras de Martin em língua portuguesa. E os livros são tantos e tão grandes que acabam por ocupar demasiado espaço na prateleira, muito valioso para quem lê muito. No caso deste novo volume, porém, isso possibilitou aos leitores terem acesso a uma parte do livro em português numa data próxima ao lançamento da edição em inglês. Seria muito difícil para a Saída de Emergência ter toda a tradução pronta no dia 20 de novembro.

Mais do mesmo ou como chover no molhado

Na entrada de 25 de abril, George R.R. Martin chamou a atenção para o facto de algumas das histórias de Sangue & Fogo não serem novidade e de algumas até já terem sido publicadas anteriormente. A secção sobre os reinados dos filhos de Aegon I, Aenys e Maegor, por exemplo, foi integrada na antologia The Book of Swords, editada em 2017, e o primeiro capítulo, sobre a conquista dos Sete Reinos, foi integrado quase na íntegra no já referido O Mundo de A Guerra dos Tronos. Posto isto, o que é que Sangue & Fogo traz de novo? Muito pouco, pelo menos no que diz respeito ao primeiro volume publicado em português. Se o cenário não melhorar na segunda parte, pode-se dizer que, para um livro de quase mil páginas, o teor da informação disponibilizada é dececionante.

Ao longo dos cinco livros que constituem até agora as Crónicas de Gelo e Fogo, Martin foi fornecendo várias informações — até bastante completas — sobre os sucessivos reis Targaryen, a sua chegada ao poder e, principalmente, a sua queda. Mesmo para quem nunca leu os outros textos publicados pelo escritor norte-americano ou até nunca leu nada de Martin tendo-se ficado pela série, é claro como a água que Aegon partiu de Pedra do Dragão, sede da Casa Targaryen, para conquistar o mundo com as irmãs e esposas, Visenya e Rhaenys, ao seu lado; é também claro que a conquista foi concretizada, que ele se estabeleceu em Porto Real (que na altura não passava de uma “modesta aldeia piscatória”) e que foi aí que, anos depois, o seu irmão Maegor mandou construir a Fortaleza Vermelha, que viria a serviu como sede do governo dos Sete Reinos durante os século seguintes.

Nada disto é novidade e no entanto surge repetido em Sangue & Fogo com um detalhe capaz de aborrecer qualquer arquimeistre da Cidadela. Claro que podemos fazer de conta que estes pormenores não são dispensáveis e que o valor do livro reside precisamente no facto de Martin explorar aspetos da história dos reis Targaryen que surgem referidos apenas por alto em A Guerra dos Tronos e nos livros seguintes. Mas ainda assim é difícil fechar os olhos à oportunidade perdida: ao centrar a narrativa naquilo que já se sabe, George R.R. Martin não falou naquilo que não se sabe. E essa é a grande falha do livro. De onde vieram os Targaryen? Porque é que os seus olhos são púrpuros? Como é que nascem os dragões? — nada disso é explicado, mas ficamos a saber a lista completa dos Grandes Meistres que serviram a Casa Targaryen em Porto Real e dos membros da guarda que protegeu o rei.

Sangue & Fogo também podia ter sido uma oportunidade para Martin falar de outras regiões de Westeros. Em vez disso, o autor decidiu focar a narrativa na capital do reino. As viagens que os diferentes reis Targaryen fazem pelos seus domínios pouca informação acrescentam ao que já se sabe também das Crónicas de Gelo e Fogo. Teria sido interessante, por exemplo, obter mais informações sobre a mítica Valíria, “a maior cidade do mundo conhecido, o centro da civilização”, que caiu depois de Lord Aenar Targaryen a ter deixado por causa de uma profecia da filha Daenys. Martin (ou melhor, o arquimeistre Gyldayn) diz-nos que os Targaryen não eram os únicos senhores de dragões nem os mais poderosos, mas quem eram os outros? E o que é que aconteceu afinal à Valíria?

A única informação relevante que surge na primeira parte do primeiro volume do novo livro de Martin é a história do roubo de três ovos de dragão de Pedra do Dragão por uma amiga da rainha viúva, Rhaena. É talvez aqui que está a explicação para o aparecimento de ovos dos dragões, oferecidos a Daenerys Targaryen no início de A Guerra dos Tronos, várias décadas depois de estes animais terem desaparecido.

Jaehaerys e a paisagem

É assim que a coisa vai mais ou menos andando até à subida ao trono de Jaehaerys. O neto de Aegon, o Conquistador, é a primeira personagem verdadeiramente interessante de todo o livro. Ao pé dele e da sua família, o resto é paisagem. Plana e desinteressante. A rainha, a irmã Alysanne, é também de particular interesse, uma vez que, tal como o marido, foi responsável por algumas reformas importantes, nomeadamente por um conjunto de leis de defesa dos direitos das mulheres. Juntos, Jaehaerys e Alysanne puseram fim às guerras que devastaram Westeros durante o reinado do pai e do tio e conciliaram a conquista feita pelo avô décadas antes, que Martin nunca chega a explicar porque é que aconteceu.

Apesar de ser com Jaehaerys que Sangue & Fogo se torna finalmente interessante, a história do quarto rei Targaryen tem um problema: o seu relato aproxima-se mais da narrativa típica de um trabalho de ficção do que da de um livro de História. E foi isso que George R.R. Martin disse que queria escrever. Isso faz com que, a partir sobretudo da página 200 (o livro tem 352), o leitor fique com a sensação de que está a ler um livro completamente diferente. Ainda que a ideia do autor fosse dar a entender que havia mais fontes do tempo de Jaehaerys do que do de Aegon, isso não fica claro. Em Sangue & Fogo, há um antes e depois de Jaehaerys, como em Westeros há um antes e depois da Conquista.

O grande problema de Sangue & Fogo é que não é bem um romance mas também não é exatamente um livro de História. Existem passagens que lembram as anteriores obras de ficção do seu autor e os melhores romances da saga de A Guerra dos Tronos, e algumas partes que se assemelham ao mais aborrecido livro de História, só que com direito a discurso direto (sim, travessão e tudo), mexericos, boatos e uma série de outros pormenores que um manual nunca teria e que, mais uma vez, só criam confusão em torno da ideia de uma “falsa história” prometida por Martin. Isto significa que, entre a ficção e a não-ficção ficcionada (à falta de melhor termo), acaba por não ser nem uma coisa nem outra, mas antes um aglomerado de detalhes que interessam apenas aos fãs mais ferrenhos das Crónicas de Gelo e Fogo. E certamente que não é a versão norte-americana do Silmarillion de J.R.R. Tolkien, como alguns afirmaram.

Mas o pior de tudo é talvez o que ainda está por vir. Ou melhor, o que nunca há-de vir. Ainda na mesma entrada de 23 de abril, George R.R. Martin garantiu que havia muito mais para contar sobre os reis Targaryen no segundo volume que haveria de publicar. O problema é que o livro está a “alguns anos de distância”, segundo o próprio Martin. “Gyldayn irá eventualmente escrevê-lo, mas ele é velho e eu também, e ambos temos outros projetos para terminar”. Tendo em conta o constante adiamento de Ventos de Inverno, o sexto volume das Crónicas de Gelo e Fogo que continua sem data de publicação, é inevitável perguntar: será que vale mesma a pena ler Sangue & Fogo?

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