“Este foi dos desfiles mais complicados e difíceis de fazer da minha vida.” Miguel Vieira, o designer que recentemente completou 30 anos de carreira, está sentado nos bastidores já a coleção outono-inverno 2019-2020 desfilou perante uma sala cheia, em Milão. Depois das palmas e dos telemóveis em riste, que em 10 minutos de desfile não conheceram a posição de descanso, é tempo de arquear as costas e de respirar fundo: por uma questão de timings de produção, com as fábricas a encerrarem no período natalício, Miguel Vieira temeu até ao último minuto não ter a coleção pronta. Houve noites em branco e até o almoço de Natal da empresa teve de ser adiado. O discurso não é, no entanto, fatalista. O designer de São João da Madeira mostra-se orgulhoso da coleção que trouxe a Itália, este sábado, dia 12, o inverno ameno de África, com padrões e cores alusivas à nostalgia daquele continente.

Dois dias antes do desfile, Vieira aterrava em Milão para tratar do casting. “Apareceram 520 homens”, conta entusiasmado. “É uma loucura. Chega uma altura em que já são todos iguais, é uma confusão.” Entre os jovens que esperaram horas numa longa fila estava Francisco Henriques, o modelo português que tem feito furor entre grandes marcas no universo da moda. Aos 23 anos, é ele quem abre o desfile de Miguel Vieira — um dia antes estava a fazer uma campanha digital para a Armani e na manhã de sábado desfilava para a Dolce & Gabbanna (a esses nomes de peso junta-se o anúncio que fez recentemente para a Paco Rabanne).

“Francisco! Um, dois, três… virou!”, pedia-lhe Isabel Branco, coordenadora de desfiles do Portugal Fashion, uma hora antes da coleção estrear. É ela quem, temporada após temporada, organiza as entradas e os ritmos na pista onde dançam diferentes coordenados. É uma espécie de “mãe” dos manequins, que a escutam sem hesitar. Um, dois, três. Francisco chega ao final da passerelle e vira. Atrás dele, todos os outros modelos giram em concordância. O movimento repete-se até à afinação total e o ensaio é dado por terminado.

Este sábado foram apresentados 40 coordenados. © Ugo Camera

São 18h em Milão (menos uma hora em Portugal continental) quando o desfile arranca ao som de Do I want to Know? dos Arctic Monkeys. Francisco Henriques entra com um fato slim azul bebé ajustado ao corpo e um colar dourado com um “M” de Miguel Vieira a pender sobre o peito. É o primeiro de 40 coordenados. Atrás dele surgem outros fatos carregados de cor — do bege bronze ao laranja ocre, amarelo caril e castanho tabaco –, com estampados, motivos florais e outros africanos, interpretados de uma forma contemporânea pelo estilista.

A minha coleção sempre teve cores, toda a vida. Só que, quando chega a altura de ir buscar as peças para o desfile, tenho uma tendência muito grande para ir buscar o preto e o branco. Há uns tempos para cá comecei a gostar de cor… Neste caso, usei tonalidades bem diferentes para uma coleção de inverno”, diz Miguel Vieira.

Nesta coleção, os tecidos grossos e estruturados cedem lugar a materiais mais leves e frescos, as silhuetas justas são intercaladas por jogos de volume e materiais como a bombazina, o veludo e as lantejoulas são as estrelas da companhia. “A ideia é misturar o clássico com a parte mais streetwear, desconstruir o que é óbvio, desconstruir o fato normal. É uma coleção que tem leggings misturados com fatos de caxemira”, palavras de Miguel Vieira.

A coleção de outono-inverno 2019-2020 de Miguel Vieira chega às lojas em agosto. © Ugo Camera

Os acessórios em passerelle também são Miguel Vieira: dos ténis às sapatilhas bota-meia, dos sacos de compras às bolsas, dos óculos (e são mais de 300 os modelos) aos cintos de pele, sem descurar os já referidos colares personalizados. A coleção “Um inverno em África”, apresentada naquela que é a quinta participação consecutiva de Miguel Vieira na semana de moda masculina em Milão, deve chegar às lojas a partir do dia 15 de agosto. Até lá, o designer estará certamente atento à imprensa, não vá repetir-se o feito “inédito” da última semana: “Houve uma feira, a Pitti Uomo, em que foi distribuída uma das revistas mais importantes do sector. Na capa estava um fato Miguel Vieira”.

Depois de Milão, que abre a temporada internacional em 2019 do Portugal Fashion, ação promovida pela Associação Nacional de Jovens Empresários (ANJE), é a vez de Hugo Costa apresentar a sua coleção em Paris, num desfile marcado para o próximo dia 16 de janeiro.

O Observador viajou até Milão a convite do Portugal Fashion