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Filipa Fortunato sempre cresceu num "ambiente Kukas". Amiga da infância da sua avó, tia de coração e madrinha de casamento, a designer morreu em fevereiro de 2026, aos 97 anos. Em 2020 formalizaram passagem de testemunho.
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▲Filipa Fortunato sempre cresceu num "ambiente Kukas". Amiga da infância da sua avó, tia de coração e madrinha de casamento, a designer morreu em fevereiro de 2026, aos 97 anos. Em 2020 formalizaram passagem de testemunho.

INÊS LACERDA/OBSERVADOR

▲Filipa Fortunato sempre cresceu num "ambiente Kukas". Amiga da infância da sua avó, tia de coração e madrinha de casamento, a designer morreu em fevereiro de 2026, aos 97 anos. Em 2020 formalizaram passagem de testemunho.

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A geometria de um legado com 60 anos: a nova fase da Kukas, por Filipa Fortunato

Pioneira da joalharia de autor, Kukas deixou mais de 100 peças, com curadoria executiva e gestão de marca hoje a cargo de Filipa Fortunato, entre edições limitadas e a chegada a mais pontos de venda.

Detestava relógios, e chegou mesmo a desconstruí-los para aplicar o mecanismo a um dos seus peculiares anéis. Espirituosa até à última hora dos seus 97 anos, sabia que cada segundo extra ganho ao tempo a cobria de riqueza. “Como a Kukas dizia, ‘eu já estou fora do prazo de validade, portanto qualquer dia a mais é uma pechincha'”. A 11 de fevereiro de 2026, Filipa Fortunato despedia-se da “tia de coração” e madrinha de casamento, que lhe passara para as mãos um monumental tesouro: assumir a curadoria executiva e gestão da marca da joalheira, um projeto tão gratificante como “99% emocional”.

A ideia da passagem de testemunho foi sendo burilada nos últimos anos. Em 2012, uma “maravilhosa” retrospetiva na Sala dos Cofres do MUDE, espaço visitado pela própria Kukas enquanto Banco Nacional Ultramarino, recolocou o foco no trajeto e obra da designer, ao mesmo tempo que trazia para a agenda de prioridades uma reflexão sobre o futuro. “Depois dessa exposição, ficou-se um bocadinho… em aberto.”

Em 2018, Filipa e o marido, António Costa Lopes, ambos arquitetos, atribuíram ao conceito de guesthouse uma abordagem ultrapessoal. Para a Casa Fortunato, em Alcácer do Sal, pediram a Kukas 20 objetos muito próprios, que espalhariam pelos quartos, das jarras às saboneteiras. “Quando vendemos a operação ao Sublime Lisboa, começámos a pensar nas joias, a organizar o legado. E começámos as duas a ver como é que podíamos fazer.”

INÊS LACERDA/OBSERVADOR

É a partir da Rua da Escola Politécnica que o casal mantém um showroom desde 2020/21 reservado às peças da joalheira, uma experiência física que permite contactar com cada história, sem desafiar os sinais do destino, muito menos a vontade original da criadora. “Temos aqui o atelier de arquitetura, o escritório Casa Fortunato e passámos para a montra o showroom Kukas, quando fiquei com os direitos da marca.” Tudo de forma subtil.

Kukas teve duas lojas em nome próprio. A primeira, na Praça das Flores, nos anos 80, e a segunda, na Rua de São Bento, no final dos anos 90. Esta última assistiu a um incêndio no prédio e uma intervenção dos bombeiros que inundou o espaço e o acervo. “A tia Kukas disse: ‘nunca mais. Não tenho mais lojas porque acaba sempre mal’. Até por isso, chamamos-lhe showroom, e não temos sequer letreiro. Se estamos a tomar conta da obra da Kukas, achamos que faz sentido ter este cuidado”.

No interior das vitrinas brilham criações como a primeira joia de secção quadrada feita em Portugal, um anel que reproduz a forma de ameias, como “un chateau fort pour les doigts”, descreviam os amigos da joalheira. ” O original era fechado mas abriu-o para dar conforto ao dedo.” Com uma intervenção sobre materiais preciosos e pedras semipreciosas, recorrendo ultimamente a muita prata e algum ouro, por aqui veem-se alianças Kukas, um clássico, várias brincadeiras em redor do dedo e da unha, como o resultado da parceria que realizou em 2025 com o designer de moda Dino Alves, um dos últimos anéis; uma pregadeira em forma de mão, mostruário em prata para segurar anéis; ou uma pregadeira grande com bolsa especial (que funciona como clutch), que pode ser usada de diferentes formas, incluindo como fio, e que inclui etiqueta com design da própria Kukas. “Estas peças são para ser vistas, vestem uma pessoa, são uma atitude”. O último grande trabalho de Kukas foi uma homenagem a Fabergé, em redor da forma do ovo, entre colares e alfinetes.

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Sem loja oficial, uma seleção de peças Kukas está disponível em alguns pontos de venda que se ajustam na perfeição às criações. Há um ano e meio, a marca Kukas chegou ao MACAM, esta primavera à loja do MUDE, e “até final do mês à loja da Gulbenkian”, anuncia Filipa. No dedo, mora um anel que pertenceu à sua avó, grande amiga da joalheira desde os tempos do Colégio Académico, e uma pregadeira, com a mesma assinatura. “Toda a vida cresci num ambiente Kukas. Recordo uma voz muito doce, meiga, que nos envolvia”.

Uma caixa de joias com vista Tejo

Colheres de chá que viram brincos em prata ou um topo de um secador que se transforma numa majestosa pulseira. Kukas, que “tinha um gavetão cheio de pedras em casa”, encontrava inspiração nos mais prosaicos objetos. Não podia ver um qualquer material que começava logo a dar-lhe vida, entre dobragens e reconstruções. “Eu levei-lhe Biafine, pegou na tampa da embalagem de cartão e disse: ‘metes uma pedra e sai um anel’. Um alfinete foi feito a partir do espelho de uma tomada, com um fundo de uma Coca-Cola e uma pérola em cima.

Caseira por natureza (apesar de ter andado “num virote” nos gloriosos anos 70 e 80) após a mostra no MUDE Kukas refugiou-se no destino de eleição, a sua casa junto ao Castelo, com uma deslumbrante vista Tejo. Para trás ficava a fervilhante vida social, sempre rodeada de amigos. “Houve uma época em que não havia semana que não estivesse na [revista] Olá!”

Quando a pandemia impôs essa retirada estratégica das ruas, e com o avançar da idade, continuou “nas sete quintas, a ter ideias. Não se aborreceu nada”. Por aquela encosta a um passo do Chapitô, tanto passavam o senhor do jornal, as compras da mercearia, a entrega do pão ou, claro, os fãs e colecionadores que prestavam visita, e ainda “o seu Alex”, o ourives que a acompanhou anos a fio, materializando as mais criativas conjeturas. “As pessoas iam lá ver o trabalho que ia fazendo”.

A própria Kukas mantinha uma caixinha encarnada com as suas joias, que de forma generosa e desapegada ia oferecendo aos mais próximos. “Se calhar durante um ou dois anos andava sempre com os mesmos anéis, brincos, alfinetes, colares, e depois alguém chegava lá e dizia “leve”. Não havia vez que lá fosse a casa e não me dissesse, Filipinha, gosto disto. Olha, tome, é seu”. No final do dia foi a mim que esta mulher extraordinária confiou a sua obra.”

▲ Kukas e Filipa Fortunato, fotografadas por Kenton Thatcher

© Kenton Thatcher

Nascida a 5 de maio de 1928, na Quinta de Santa Marta, na Beira Baixa, Maria da Conceição de Moura Borges Magalhães não casou, nem teve filhos. “Com uma das sobrinhas, ainda tentaram há vinte anos montar algo juntas, mas por qualquer razão não continuou. “

Kukas e o irmão, dois anos mais velho, perderam os pais muito novos e cresceram em Lisboa, ao cuidado de três tias. “Acho que se empenharam muito na educação dos sobrinhos. E quando a tia Kukas pediu para ir estudar para Paris, mesmo sendo elas supercatólicas, perceberam a importância dessa fase”. Nesses anos de 1959 a 1961, frequentou a École Supérieure des Arts Modernes, então orientada para a decoração de interiores. Ainda se aventurou na cerâmica, mas rapidamente aderiu ao mundo dos metais, somando ligações fantásticas e uma produtiva amálgama de disciplinas. Foi na capital francesa, durante um workshop no Louvre, que terá conhecido o pintor Marc Chagall.

Segundo Cristina Filipe descreve no catálogo que acompanha a mostra no MUDE, Kukas desenhou a primeira joia por não encontrar no mercado o anel que idealizava para oferecer a uma tia. A inspiração terá chegado do traço depurado de Vivianna Torun, que expusera na Galerie au Siècle, em Paris.

Na capital, realizou a primeira exposição em 1963, na galeria Diário de Notícias. Em 1968, protagonizou uma até hoje evocada mostra individual na Galeria 111, com as joias dentro de uns impactantes globos de acrílico. “As pessoas passavam e como se tivessem o colar, ou seja, as joias estavam postas no globo, à altura das orelhas, do pescoço, das pulseiras, para quase fazer um encaixe”.

Algumas das suas exposições de joalharia, na transição para os anos setenta, foram, aliás, uma verdadeira inovação expositiva para a época. De então para cá, o reconhecimento, nacional e internacional, viria a consolidar-se fervilhante produção artística, pontuada por exposições de referência, como a Bienal de Arte de São Paulo (1977) ou a Europália (1991).

▲ Filipa com dois anéis Kukas. À direita, o que herdou da sua avó

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Muito próxima de nomes como José Escada e Nikias Skapinakis, de Vera Lagoa e Almada Negreiros, bebeu de um contexto artístico com fértil interseção de disciplinas. “A tia Kukas tinha uma forma de ser e de estar muito acolhedora, e nesta fase final tinha um sem-número de histórias para contar, portanto, não havia vez que estivéssemos juntas em que não houvesse um relembrar de pessoas. Depois, cresceu profissionalmente no ambiente cultural, riquíssimo da época dos anos 60, 70, em Lisboa, que eu acho que foram super inspiradores para a obra que criou.”

Em inúmeros projetos dessa fase se distinguem intervenções mais amplas em projetos como arquitetura e interiores, pintura e escultura, cujas linhas inspiraram em larga medida as joias de Kukas, avessa a barroquismos supérfluos. “É tudo muito geométrico e as formas são um bocadinho fora de escala, sobretudo para a época era um rasgo. Teve uma inspiração escandinava muito grande durante a sua fase em Paris.” Dessa aplicação aos interiores, a arquiteta descreve algumas intervenções mais pessoais e vestígios que merecem uma reconstituição histórica, exemplos de experiências que a introduzem numa reflexão mais profunda sobre o design nacional, partilhada com António Garcia e Daciano da Costa, entre outros nomes marcantes desta área criativa em Portugal.

Nos anos 60, Kukas liderou o projeto de interiores da casa que os avós de Filipa construíram em Sesimbra, com o seu dedo de alto a baixo, incluindo a chapa da lareira, a escolha do mobiliário que a família ainda conserva, ou uma parede de azulejos, que recheavam os trabalhos conduzidos por Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas. Mas não só. “Sei que fez a discoteca da Praia da Rocha, nunca vi fotos mas estou à caça delas. Foi uma das sobrinhas que me falou neste projeto, e o Anísio Franco descreveu-me todo um imaginário com estalactites e estalagmites em cristais de rocha, depois acho que tinha umas correntes.”

Também na Câmara Municipal de Lisboa, a quem vendeu vários objetos, é possível ver “bastantes peças” de Kukas. “Eu acho que os anos 70, 80, foram assim, os anos gloriosos. “Em 75, a convite dos arquitetos Diogo Pimentel e Teotónio Pereira, do Movimento de Renovação da Arte Religiosa, grupo católico modernista, desenhou um conjunto de objetos de arte sacra, de anéis para bispos a castiçais.

Escala e futuro

Num acesso raro, Filipa Fortunato permite-nos ver de perto a última grande coleção assinada por Kukas, criada para a exposição no MNAC em 2023, que cumpria um sonho da joalheira, que via inaugurar a mostra no dia do seu 95.º aniversário. Trata-se de 30 peças criadas nesse mesmo ano, em curto espaço de tempo, uma montra de colares e pendentes, botões de punho e pulseiras, brincos e pregadeiras, a partir de materiais como ouro, prata, pérolas barrocas, um espinho de ouriço, conchas, cristal de rocha, lápis-lazúli e madrepérola. Filipa retira-as com delicadeza de uma caixa e dispõe-as uma a uma sobre a mesa de trabalho.

Depois, deixa-se fotografar no sofá azul dos irmãos Campani, com imagem de Kenton Thatcher em fundo. O retrato que o britânico fixado em Lisboa há mais de 30 anos fez de Kukas é um dos preto e branco mais emblemáticos da joalheira. “Fomos ao estúdio fazer um shooting enquanto estava a ser penteada e maquilhada, o Kenton tirou esta foto, tem zero produção. Esteve exposta nas Belas Artes e para onde vamos vem sempre connosco.”

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Pioneira na joalharia contemporânea e de autor em Portugal, sempre avant la lettre, seria evidente o corte profundo com as criações tradicionais, fiel a um processo muito próximo. “A tia Kukas não desenhava, fazia só maquetes e entregava-as ao ourives. E fê-lo até ao fim, tenho aqui peças de janeiro.” Dos primogénitos aos derradeiros rasgos, a intemporalidade das peças manter-se-ia intocada. “Costumava dizer-me, ah, Filipa, eu tenho 100 ideias ao minuto. Eu tenho 100 ideias ao minuto. Eu só não as consigo concretizar todas, e não há pior situação para um artista do que ter ideias e não as concretizar.”, lamentava, sobre essa impossibilidade óbvia de acudir a todas as inquietações.

Mas graças a esta nova parceria, foi possível por exemplo pensar em reproduzir e escalar algumas peças, explica Filipa, que tentou reunir o maior número de peças e de património Kukas. Nas joias, estima que rondem as 120. “Conseguimos neste período fazer desenhos técnicos de todas as peças, registos, fotografias, arquivo. E tentarei continuar a produzir joias, mas não serão cópias, porque basta mudar a pedra e a peça continua a ser peça única, sendo sempre fiel aos desenhos e à peça original.

Quanto às peças de decoração, têm feito edições de 20 unidades assinadas, datadas e numeradas. Algumas foram feitas em 2018 para a Casa Fortunato, outras, uma ou duas, neste período até 2026. O famoso candeeiro saído dos anos 60, que Kukas tinha em casa, foi vendido ao MUDE, mas há mais exemplares para venda – em 2023 fizeram uma edição de 20 e ainda sobram uns três ou quatro. “No fundo é ir fazendo uma gestão com parcimónia das diferentes peças, com essas requisições pontuais. Os objetos é mais fácil, digamos, porque são sempre edições limitadas e entendemos que para colecionadores é importante ter a assinatura, a data e o número da série.

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Os candeeiros são fabricados numa oficina em Alverca, o resto das peças Kukas são confiadas a um cinzelador na zona de Alfragide. Quanto às joias, continuam a ser atualizadas graças ao “nosso Alex, que também está a ficar mais velhote”, nota Filipa, lembrando a dificuldade de fazer escola, dada a forma peculiar de trabalho, e as condições ditadas por cada obra. “As máquinas e as ferramentas para fazer joalharia são para certa uma escala de anéis. Um anel maior, uma pregadeira grandalhona, isso exige uma perícia e um know-how que só o Alex é que sabe fazer.”

O histórico ourives trabalhava na oficina do mestre Jordão, onde Kukas o conheceu. Quando o espaço se desmanchou, continuou a trabalhar com Kukas. “Às vezes, até dizia a brincar: o Alex é o homem da minha vida. Ela não precisava de falar muito e ele apanhava tudo. Era raríssimo uma joia ir para trás.”

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