Metade do tempo de trabalho em Portugal poderia ser feito por tecnologias de automatização que já existem, defende um estudo sobre o futuro do trabalho em Portugal feito pela Confederação Empresarial de Portugal (CIP) em parceria com o McKinsey Global Institute e a Nova SBE. O estudo antecipa um cenário em que, neste contexto, a massificação dos “robôs” (em rigor, tecnologias como as da robótica e da inteligência artificial, entre outras) poderá levar à eliminação de 1,1 milhões de empregos em Portugal — e, em compensação, serão criados entre 600 mil e (os mesmos) 1,1 milhões de novos empregos, no melhor cenário. A investigação conclui, também, que 1,8 milhões de trabalhadores irão necessitar de melhorar as suas competências ou mudar de emprego nos próximos 11 anos.

Este prognóstico “coloca desafios significativos que exigirão um papel ativo tanto pelo governo e setor privado no processo de reconversão da força de trabalho”, defendem os autores do estudo, que salientam que a economia portuguesa tem um “relativamente alto potencial de automação”, por se caracterizar por um peso relativamente alto da indústria transformadora e tarefas repetitivas em diversos setores.

“Cerca de 50% do tempo despendido nas atuais atividades laborais poderia ser automatizado com as tecnologias atualmente existentes, o que representa um elevado potencial de automação, quando comparado com outros países”, comenta o estudo apresentado esta quinta-feira em Lisboa, no Museu da Eletricidade.

Essa percentagem, contudo, tende a aumentar nos próximos anos. Em 2030, diz o estudo, a mesma proporção já terá subido para 67%. “No cenário de cerca de 26% (do potencial total de 67%) do tempo de trabalho ser automatizado, a adoção da automação poderá levar à perda do equivalente a 1,1 milhões de postos de trabalho até 2030, com maior incidência nos sectores da indústria transformadora e do comércio”, refere o estudo.

Em contraponto, “a adoção da automação e o inerente crescimento económico poderão criar entre 600 mil e 1,1 milhões de novos postos de trabalho até 2030, com especial incidência nos sectores da saúde, assistência social, ciência, profissões técnicas e construção”.

Apesar dos enormes desafios que, no curto prazo, o país terá de enfrentar, a transformação digital da sociedade e da economia nacionais representa uma enorme oportunidade. Para que se minimizem os desafios decorrentes desta transição e para que se potenciam as imensas oportunidades, impõe-se uma avaliação de novas políticas públicas e um eficaz plano de requalificação da sociedade, num esforço conjunto entre setor público, empresas e instituições de educação e formação.”

“Não basta formação de jovens, é preciso formação de adultos”

Em declarações ao Observador, o presidente da CIP, António Saraiva, comentou que a política se “preocupa com a formação de jovens e com a criação de oportunidades para os mais jovens, mas a inovação tecnológica obriga-nos a refletir sobre a necessidade de formar adultos para que estes consigam manter-se atualizados perante a transformação dos postos de trabalho”.

É frequentemente dito que algo como 50% das crianças que hoje estão a entrar nos infantários vão ter profissões que ainda nem sequer existem, mas “é preciso atuar já para que a economia e as empresas que a formam definam como prioridade a formação dos seus quadros atuais”, sobretudo com os desafios demográficos que estão no horizonte de Portugal e de muitos outros países. “Há hoje muitas profissões que são repetitivas — desde o portageiro ao trabalhador da linha de montagem, mas também trabalhos burocráticos — que serão rapidamente substituídas por meios tecnológicos”, salienta António Saraiva, alertando para o impacto irreversível sobre o mercado de trabalho.

O pior cenário “pode ser evitado se existirem políticas públicas e privadas no sentido de minorar este problema, com uma aposta na formação profissional designadamente tirando partido de fundos comunitários, que devem ser usados para a formação de adultos”. Uma das medidas concretas que a CIP tem proposto é que as empresas possam reservar uma parte do pagamento das contribuições para a Segurança Social, pagas por cada trabalhador, e possam utilizar esses valores no investimento na formação profissional dos seus quadros.

O estudo, que analisou cerca de 800 atividades profissionais e cerca de duas mil tarefas desempenhadas em diversos setores, não pretende ser alarmista mas, sim, alertar para a resposta que é preciso dar — “porque não podemos admitir que 1,8 milhões de pessoas fiquem sem emprego”, explicou António Saraiva.