Quando Martim Sousa Tavares, neto mais novo de Sophia de Mello Breyner Andresen, procurou o livro Levantado do Chão de José Saramago na biblioteca pessoal da avó na casa de férias da família, em Lagos, estava longe de imaginar “a grande surpresa” que iria encontrar. “Reparei numa dedicatória muito bonita do Saramago para a minha avó e isso despertou em mim uma espécie de consciência, pensei que estava a tocar num tesouro e que dentro destes livros poderiam estar coisas muito interessantes”, diz em entrevista ao Observador.

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Entre 2015 e 2018, Martim dividiu-se entre a casa de Lagos e alguns caixotes em Lisboa, folheou com carinho um a um todos os livros de Sophia e fez uma seleção meticulosa que o levou a identificar 331 exemplares, oferecidos ao longo de sete décadas, por autores e artistas maioritariamente portugueses, mas também franceses, brasileiros e ingleses. Teixeira de Pascoaes, Carlos Drummond de Andrade, Maria Helena Vieira da Silva, Arpad Szenes, Eugénio de Andrade, Vasco Graça Moura, Agustina Bessa-Luís, Jorge de Sena ou Herberto Helder são apenas alguns exemplos, sendo Miguel Torga o mais representado, com 27 livros.

“Todos os autores de língua portuguesa da segunda metade do século XX estão aqui representados, à exceção da Natália Correia, de quem não temos um livro, mas temos um postal de boas festas.”

Não eram apenas dedicatórias que os livros da poetisa guardavam. Dezenas de manuscritos inéditos, correspondência que nunca chegou a ser enviada, traduções, bilhetes, recortes, ensaios escritos na contracapa ou até mesmo manuais do seu tempo de escola são agora mostrados ao público numa exposição única, que nos permite conhecer a personalidade da autora. “A minha avó usava os livros como uma espécie de carteira onde guardava objetos soltos. Também escrevia neles como se fosse um caderno, era a coisa que tinha mais a mão.”

Martim Sousa Tavares (Octavio Passos/Observador)

Nesta mostra tudo vai estar exposto tal como foi encontrado. É o caso de uma carta que escreveu em Florença a Jorge de Sena, com quem manteve uma relação próxima, e que foi descoberta dobrada no meio de um livro. É assim, dobrada, que a podemos ver e tentar ler.

“Não queremos decifrar estes inéditos, até porque depois terão de ser depositados na Biblioteca Nacional Portuguesa, onde vão ser sujeitos a um trabalho de análise, interpretação e contextualização”, explica o curador da exposição.

Ao contrário do que muitos possam pensar, a biblioteca pessoal da escritora não era muito grande, não se contavam mais de mil exemplares à data da sua morte, a 2 de julho de 2004. “Ela não era uma colecionadora de livros, não escrevia com o auxílio deles, não tinha esse tipo de conhecimento livresco ou académico”, refere o neto mais novo.

Quatro salas de uma casa especial

A Casa Andresen, onde hoje está instalada a Galeria da Biodiversidade, é uma morada cheia de significado, memória e arquivo. Afinal, foi aqui que Sophia de Mello Breyner viveu e cresceu, sendo o mote de inspiração de alguns dos seus contos e poemas. Para Martim Sousa Tavares, este é um dos edifícios com “mais peso na literatura portuguesa do século XX, pois tanto Sophia como Ruben A. escreveram muito sobre ela.” “Pour ma Sofie” ocupa quatro salas desta casa singular, onde o arquivo da obra da poetisa convive harmoniosamente com a fotografia e a instalação.

Dedicatória de José Saramago, junho de 1985. (Octavio Passos/Observador)

Oxana Ianin é a fotógrafa russa que captou as capas e as dedicatórias de alguns livros selecionados. O caráter único, pessoal e íntimo deste espólio agora tornado público fez com que se apaixonasse ainda mais por esta mulher. “Descobri a obra dela ainda no liceu, para mim foi difícil porque estava a aprender português, mas fascinou-me. Adoro o português no geral e principalmente o português de Sophia, é muito bonito”, diz em entrevista ao Observador.

Ao fazer parte desta exposição, Oxana tentou “mostrar a dimensão desta biblioteca, deste tema e da quantidade de pessoas que a admiravam”. Retirou 86 vezes a palavra “admiração” das dedicatórias, retirou cada tipo de letra e fez um quadro com todas elas. Entre as suas favoritas está uma de Sebastião da Gama:

“Para a Sofia,
que chegou à Gramática Portuguesa
e onde estava – feminino: poetisa
escreveu: feminino: Poeta.
Arrábida, 10.04.1949”

Na sala da lareira encontrará todos os nomes dos escritores na parede e uma instalação de livros articulados com 18 metros de comprimento. “Era impossível expor todos os exemplares, muitos deles estão em condições frágeis, em que se forem abertos desfazem-se”, conta Martim Sousa Tavares. Até dia 22 de fevereiro pode ver esta exposição gratuitamente, de terça a domingo, das 10h às 18h, na Galeria da Biodiversidade.

Um ano, muitas iniciativas

A propósito do centenário do nascimento da escritora, a 6 de novembro de 1919, o Jardim de Sophia é o nome do programa geral de atividades que estende de norte a sul do país, no Porto irá incluir teatro, dança, leituras encenadas e ilustração.

Casa Andresen (Octavio Passos/Observador)

Martim Sousa Tavares destaca três peças de teatro infantil em junho e julho, onde os mais novos vão poder explorar e conhecer, da cúpula aos laboratórios, as entranhas de uma das moradas de Sophia e dialogar com algumas personagens da sua obra. No Dia Mundial da Poesia, a 21 de março, o curador e maestro chama a atenção para a primeira edição do Musa, um prémio internacional de composição, criado em colaboração com o Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto para privilegiar obra musical escrita sobre a poesia da escritora, cujas candidaturas terminam a 31 de janeiro.

“O prémio é monetário e além de gravar e editar a partitura, o compositor vencedor ficará um ano em residência com o Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa, onde receberá outras encomendas”, explica. A missão do curador é “trabalhar com jovens artistas e usar a vida e a obra de Sophia como terreno fértil para criar”.