O graffiti e tudo à volta vão estar em destaque no teatro LU.CA, em Lisboa, a partir de sexta-feira, no âmbito do ciclo “Porque desenhamos nas paredes?”, que inclui um espetáculo com rap e desenho digital ao vivo.

O ciclo, da responsabilidade do desenhador António Jorge Gonçalves, a convite da diretora do LU.CA — Teatro Luís de Camões, foi pensado para os adolescentes, “um buraco negro das programações” dos teatros. Para o desenhador, em declarações à Lusa, o graffiti é um tema que “remete para diversas questões”, que tenta explorar neste ciclo.

“Geralmente pensamos só ‘rabiscos: é vandalismo ou arte?’ e resolvemos a questão por aí. Mas a verdade é que, não só a prática dos desenhos nas paredes é extremamente antiga, tão antiga como a cultura humana, como o graffiti levanta uma série de questões que tem que ver com a maneira como preenchemos a cidade, como somos representados ou não na cidade, como o espaço urbano é organizado, quem o organiza e de que maneira”, afirmou.

Além disso, referiu ainda, “o graffiti é também uma linguagem que está muito ligada a uma ideia de contracultura, que é uma prática que vamos encontrar em muitas outras declinações, muitas delas usando o próprio graffiti para se exprimirem”.

Para pôr o público a pensar nessas e noutras questões, António Jorge Gonçalves juntou-se ao MC (Mestre de Cerimónias) e ativista Flávio Almada (LBC Soldjah) e juntos criaram “Válvula”, “um espetáculo à volta da história do graffiti, que é simultaneamente um concerto de hip-hop”.

Em “Válvula”, António Jorge Gonçalves vai contando a história do graffiti, enquanto desenha digitalmente, sendo o resultado projetado no palco. Em algumas alturas dá voz a LBC Soldjah, que ‘rappa’, em crioulo, temas criados para o espetáculo, fazendo ligação com o que vai sendo contado.

A título de exemplo, pouco depois de António Jorge Gonçalves lembrar que o graffiti “começou em bairros, para dar voz a comunidades esquecidas”, Flávio canta a saga de um pedreiro mal pago, que acorda cedo para apanhar os transportes para Lisboa para “mais um dia de trabalho, mais um dia de explorado”.

Flávio Almada, em declarações à Lusa, recordou que, “dentro da cultura hip-hop, tal como o graffiti, também o rap surgiu num grupo de pessoas que não tinham voz no espaço público”.

Quando ‘rapa’, Flávio Almada fá-lo em crioulo. “Cantar em crioulo é uma forma de marcar a presença e mostrar que este país tem vários sons, várias tonalidades, várias realidades”, afirmou, referindo que “a língua crioula cabo-verdiana, na Área Metropolitana de Lisboa, é talvez a terceira mais falada e o rap crioulo é um movimento muito forte”.

O MC e ativista lembra algo “que passa de uma forma invisível pela cidade [de Lisboa]”: “os jovens [rappers] que gravaram, sem grandes condições técnicas, mas têm mais visualizações [através das redes sociais e do Youtube] e adesão do que artistas com uma máquina por trás”.

Começando por recuar vinte ou trinta mil anos, a narrativa passa pelo tempo dos vikings, do Império Romano, dos muralistas mexicanos ou do pós-25 de Abril de 1974 em Portugal. Ouve-se falar também em Basquiat, em Keith Harring, em Banksy ou no português Nomen.

Além disso, em “Válvula”, o público é também recordado que já toda a gente fez graffiti, porque já toda a gente foi criança e desenhou em superfícies onde não deviam.

E porque o nome do ciclo “tanto pode ser uma afirmação como uma pergunta”, ao longo do espetáculo António Jorge Gonçalves coloca várias questões, como por exemplo se, hoje em dia, as pinturas não servirão também para as autoridades disfarçarem problemas em algumas zonas das cidades.

Além de “Válvula”, com apresentações a partir de sexta-feira, “Porque desenhamos nas paredes” inclui igualmente uma instalação/exposição, “Eu estive aqui — uma história do graffiti de A a Z”, organizada e desenhada por António Jorge Gonçalves, “que traz alguns aspetos também sobre a história do graffiti que são abordados no espetáculo, mas traz também outros que não o são”, e “é uma maneira diferente de olhar para o assunto”. A instalação/exposição pode ser visitada a partir de sexta-feira e até 10 de fevereiro.

O ciclo inclui ainda uma oficina, “Desenhos Efémeros”, de António Jorge Gonçalves, sobre o “método de desenho digital ao vivo” e sobre a experiência que o desenhador desenvolve desde 2001 de “desenho performativo sobre paredes”. Haverá uma oficina dirigida a famílias neste sábado e uma outra para escolas na terça-feira.

Para o dia 9 de fevereiro está marcada uma conversa com o tema “Cidade e Desobediência”, na qual participam, além de António Jorge Gonçalves e Flávio Almada, escritor e argumentista Nuno Artur Silva, o investigador Ricardo Campos e a fundadora do Wool — Covilhã Arte Urbana e do projeto Lata 65 Lara Seixo Rodrigues.

“Vamos debater a representação através do graffiti, o graffiti enquanto uma maneira de representar pessoas e grupos, muitas vezes na sua origem pessoas e grupos que não tinham muita voz no espaço público, que usam o graffiti justamente como voz”, explicou António Jorge Gonçalves.

Mais informações sobre o ciclo “Porque desenhamos nas paredes?” podem ser consultadas em www.lucateatroluisdecamoes.pt.