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Com mãe transmontana e pai americano, Kevin Paulo Stewart nasceu em Paris, mas aos dois anos veio para o Porto, onde cresceu e descobriu o cinema numa churrasqueira. “Tinha uns 12 anos quando numa churrasqueira vi na televisão uma reportagem sobre os bastidores do filme ‘A Múmia’, onde na cena em que o ator principal está a lutar contra esqueletos via-se que ele estava a lutar contra nada. Achei aquilo tão mágico que a partir daí quis ser cineasta”, conta em entrevista ao Observador.

Começou, por conta própria, a familiarizar-se com softwares de montagem, 3D e efeitos especiais, até que decidiu ir para Los Angeles estudar cinema na Loyola Marymount University. O objetivo era ganhar a vida atrás das câmaras, criando narrativas originais e fazendo cinema fantástico. “Nos Estados Unidos as áreas mais comuns são os videoclips e os anúncios, mas eu sempre gostei de filmes de terror, mesmo quando era miúdo. Podemos pensar que um filme de terror só tem sustos, mas não. Gosto especialmente dos filmes de terror emocionais, com mensagem e substância, com personagens com as quais as pessoas se identifiquem e queiram passar uma hora com elas.”

Kevin, Jordan e Ricky formam a equipa responsável pelo filme de terror medieval gravado em Portugal

Na faculdade conheceu o realizador Jordan Downey e começou a trabalhar com ele como diretor de fotografia. Juntos percorreram festivais, deram nas vistas, conquistaram vários prémios e em 2009 chegaram à Netflix com “Thankskilling”, uma sátira à tradição americana que conta a história de um peru assassino. “O mais difícil é a competição porque há gente com muito talento a fazer o que eu faço. Neste meio não podemos estar parados à espera que alguém nos dê uma oportunidade, só produzindo é que nos podemos fazer notar. Temos de continuar a fazer filmes com os meios que temos”, sublinha o diretor de fotografia com 32 anos que tem como referências os filmes “The Big Lebowski” e “Hostiles”.

A aposta em argumentos originais é uma das premissas desta dupla, que em 2016 começou a desenhar o filme de 72 minutos que integra a competição de longas-metragens do festival Fantasporto, ao lado de 19 participantes. Com um orçamento de 30 mil euros, Kevin escolheu rodar o filme em Soutelo Mourisco, uma pequena aldeia em Trás-os-Montes, na zona de Bragança, onde passou todos os verões quando era criança e um dos três habitantes é a sua avó. As paisagens fantásticas, as casas feitas de pedra, as ruínas, o antigo moinho da família e até uma mina de água foram cenários que o seduziram por completo. “O local tem um ar cinemático muito forte, sabíamos que podíamos fazer algo diferente, pelo menos a nível de imagem.”

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“The Head Hunter” é um filme simples e minimalista, tem apenas uma personagem e com muito pouco diálogo. A história centra-se na vida de um caçador mercenário, interpretado pelo ator norueguês Christopher Rygh, que vive sozinho no meio do bosque e está à procura do monstro que matou a sua filha para se vingar. “Não há muitos filmes de terror medievais, acho que podemos marcar a diferença por isso”, realça Kevin Stewart. Os planos foram todos iluminados por fogo, através de tochas ou velas, ou pelo sol. “Gostava que tivesse um aspeto bastante sombrio, que representasse um lado mais obscuro. Num filme de terror é bom ter bastante escuridão porque aquilo que não se vê é o que provoca mais medo.”

O resultado final, terminado em agosto de 2018, foi visto pela primeira vez, e com sala cheia, no Sitges – Festival Internacional de Cinema Fantástico da Catalunha, no Nightmares Film Festival o filme ganhou os prémios de melhor filme e melhor fotografia e, na semana passada, no Peru arrecadou o prémio de melhor ator. “Agora só falta um prémio aqui no Porto, teria muito orgulho nisso”, confessa Kevin.

6 fotos

O diretor de fotografia luso-americano tem o sonho de voltar a trabalhar em Portugal, explorando outras zonas do território, e o desejo de fazer algo maior e com mais orçamento não lhe sai da cabeça. “Gostaria de fazer uma série tipo ‘Game of Thrones’ sobre os descobrimentos portugueses, acho uma história fantástica e um pouco esquecida. O que fizemos naquela altura foi completamente inesperado e chocou o mundo.”

“The Head Hunter” já tem distribuição garantida nos Estados Unidos com o Vertical Entertainment, que irá disponibilizá-lo a partir do dia 5 de abril em televisões americanas, em formato DVD ou em plataformas online como o iTunes ou a Amazon. Alemanha, Rússia e Reino Unido são para já os países interessados em comprar os direitos internacionais, por cá o filme estreia-se no domingo, pelas 16h30, na sala do grande auditório do Teatro Municipal Rivoli, à boleia do Festival Internacional de Cinema Fantasporto, que se prolonga até dia 3 de março.