Falta sensivelmente uma hora para o arranque do desfile de Alexandra Moura. A manhã de segunda-feira, dia 25 de fevereiro, é diferente de todas as outras. Pelas 10h30 (09h30 em Portugal continental), a designer lusa apresenta a primeira coleção a figurar no calendário oficial da Semana da Moda de Milão — a estreia é coisa de gente grande. Nos bastidores, a calma antecede a tempestade. A tranquilidade dos manequins aquando dos ensaios finais, já de maquilhagem “bestialmente” pronta, contrasta com o frenesim mediático findo o desfile: depois das palmas, todos querem falar com Alexandra.

Semana da Moda de Milão: Alexandra Moura é a primeira portuguesa no calendário oficial

O convite para fazer parte do calendário oficial da moda de Milão foi inesperado. Tão inesperado que Alexandra Moura tinha tudo pronto para regressar às passerelles de Londres com o apoio do Portugal Fashion. A coleção de outono-inverno 2019-2020 destinada à capital inglesa foi desviada para a cidade italiana onde as montras das principais griffes enchem ruas inteiras. “Bestiário”, de besta e não de vestuário, é o nome de batismo da coleção com que Alexandra Moura encheu uma das salas do Palazzo-Giureconsulti, vizinho da Catedral de Milão e da Galeria Vittorio Emanuele II.

A ceramista Rosa Ramalho, figura da olaria tradicional cujo pintor António Quadros ajudou a colocar no mapa, serviu de inspiração para os coordenados apresentados pela designer portuguesa, que ao Observador se diz apaixonada por tudo o que é cultural — seja a cultura do país onde nasceu ou de outros tantos. “Quis encontrar algo que fosse muito nosso e um pouco ancestral, apesar de a Rosa Ramalho ter tido o seu auge nos anos 1950. Descobri-a nas minhas pesquisas. É uma senhora deliciosa, com uma capacidade incrível de visualização, mais à frente do seu tempo, com um sentido de estética incrível, quer ao nível das esculturas de barro, quer ao nível da paleta de cores”, assegura.

Os seres fantásticos criados pela ceramista fazem parte da nova coleção de Alexandra Moura. © Ugo Camera

As esculturas de barro de que Alexandra fala estão presentes nos coordenados que desenhou para a próxima temporada fria. As figuras não só estão estampadas em algumas peças, como ganham vida na maquilhagem arrojada dos modelos. Mas, a seguir aquele que é o ADN da marca, a coleção é feita de contrastes: os seres fantásticos, bestas e monstros, da vida rural da ceramista coabitam com um lado mais futurista dos coordenados (do qual é exemplo o vestido metalizado com frases escritas a tinta preta e à mão). O jogo das oposições continua: o romântico casa ainda com os estilos streetwear e até sportswear.

Há um lado extremamente romântico e rural, mas também citadino, urbano e futurista. Esta oposição parte dos detalhes e da mistura de tecidos”, explica ao Observador.

As matérias-primas da coleção foram pensadas para refletir esta dualidade — a título de exemplo, os jacquards a lembrar o xadrez mais tradicional ajudam a representar um universo mais “rural, seco e rude”. Nos restantes coordenados é fácil vislumbrar o tule, as flanelas e as bombazines. Apesar de esta ser uma coleção bastante invernal, Alexandra garante que os tecidos são finos e não pesam no corpo. Outros detalhes facilmente associados ao seu trabalho são evidentes: costuras à mostra, peças desconstruídas, bolsos largos e looks assimétricos.

As peças nunca deixam de ser contemporâneas, mesmo que introduzidas na passerelle ao som de mulheres minhotas a cantar. A música que deu fôlego ao desfile é uma banda sonora da autoria de Miguel Cardona, músico e produtor que trabalha com a designer há coisa de 15 anos. “É alguém que tem uma cabeça incrível, entra muito bem nos meus conceitos e entra muito bem na minha cabeça, percebe perfeitamente o que quero”, diz Alexandra. A ela bastou-lhe passar um “briefingzinho” que Miguel Cardona logo desenhou a trilha sonora de eleição: à voz das minhotas juntou a flauta de barro e ainda uma batida eletrónica. Nada foi gravado in loco, tudo foi misturado a partir da base de dados musical deste produtor.

A coleção é de contrastes: por um lado dá-se destaque ao rural, por outro, existe uma ligação forte ao futuro. © Ugo Camera

As referências nacionais são muitas e aparecem na forma de frases da própria ceramista. A mais reproduzida é “Não é sonho nenhum”, a mesma que Alexandra Moura opta por usar estampada numa sweat por si desenhada. Citações na língua de Camões não são impedimento ao lançamento de uma coleção cuja criadora ambiciona “vender para o mundo”. Alexandra Moura conta que recentemente, em janeiro, foram muitos os clientes japoneses por causa de peças de roupa com frases em português: “Primeiro porque são letras e não caracteres, depois porque eles gostam do lado cultural dos artistas e da moda”.

Assim que se confirmou a vinda de Moura a Milão choveram emails. A atenção também se fez sentir no fim do desfile, com jornalistas de diferentes pontos do globo a rondar a designer. Mas essa não é a única diferença de estar num calendário oficial de uma semana da moda: “Tem que ver com a organização das coisas, tudo flui mais facilmente. Quando é uma semana oficial tudo é mais fácil. Eles arranjam sponsors, aderecistas, etc. Estar no calendário oficial é uma validação [do trabalho feito até então]”, assegura. Rosa Ramalho bem dizia: “Não é sonho nenhum”.

O Observador viajou a convite do Portugal Fashion