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Tinha cabelo comprido, então com a cor natural depois de ter estado loiro uns tempos e pouco antes de entrar numa fase com um rabo de cavalo à Samurai. Usava ainda um fio com missangas ao pescoço, digno de alguém que tinha o quarto cheio de pequenas taças e posters de jogadores da NBA (Michael Jordan e Shaquille O’Neal). A fita na cabeça e o punho no lado direito são talvez as únicas coisas que se mantêm quase duas décadas depois. Isso e o estilo, só ao alcance dos predestinados. Nessa altura, o maior problema não era propriamente a técnica de jogo mas sim a maturidade para lidar com os momentos de pressão sem se deixar levar pelas emoções. Um pormenor, talvez o último em falta, que começou a ser corrigido no início de fevereiro de 2001.

Recuando no tempo, era visto como uma das maiores promessas do ténis mundial no início do século, que teve em 2000 o primeiro grande ano em termos de expressão nos resultados – o que lhe valeu o prémio do maior progresso nesse ano. Já tinha ganho Wimbledon como júnior, já andava no top 30 do ranking, já trabalhava com o preparador Pierre Paganini, que um dia foi descrito pelo The New York Times como o seu segredo para o sucesso. Só lhe faltava mesmo aquela cereja no topo do bolo: ganhar o primeiro torneio ATP. E conseguiu esse feito onde talvez poucos esperassem, no indoor de Milão que era jogado em carpete. “Acho que estou a melhorar, consegui a primeira meta da minha carreira. Agora, o meu próximo objetivo é conseguir entrar no top 15 do ranking. É um lugar alto mas não é impossível”, comentou numa das primeiras entrevistas à BBC. Poucos meses depois, já estava no 15.ª posição do ranking. E a vencer o ídolo Pete Sampras em Wimbledon.

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18 anos depois, ele tornou-se o jogador com mais Grand Slams de sempre (20). Ele tornou-se o primeiro a conseguir três Grand Slams em três épocas. Ele tornou-se o primeiro a alcançar dois Grand Slams em seis temporadas. Ele tornou-se o primeiro a ir a dez finais, 23 meias-finais e 36 quartos consecutivos de Grand Slams. Ele, que é cada vez mais Ele, é Roger Federer.

Para repetir 20 vezes: Federer, que venceu o Open da Austrália, é o melhor de sempre (e provou que é humano)

O nome do suíço devia aparecer na primeira linha do primeiro parágrafo. Aqui como em todo o lado. Mas torna-se complicado acreditar que aquele miúdo talentoso que dizia que entrar no top 15 dos melhores jogadores do mundo era complicado mas não impossível alcançou tanto ao longo de quase duas décadas ao mais alto nível. O mesmo miúdo que, nesse torneio em Itália, bateu na final o francês Julien Boutter (jogador de nível médio que nunca passou de uma segunda ronda do Grand Slam) mas que antes já tinha ultrapassado o croata Goran Ivanisevic – que chegou a ser número 2 do mundo, tendo ganho Wimbledon como wildcard – e o russo Yevgeny Kafelnikov, antigo líder do ranking que venceu o Open da Austrália e Roland Garros.

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Este sábado, Roger Federer conseguiu mais um marco histórico na carreira no ATP Dubai, que teve contornos simbólicos como o próprio já tinha referido durante a semana. “Passo muito tempo cá, faço aqui todas as minhas pré-épocas e já ando à vontade de carro nesta cidade porque conheço as estradas. Venci aqui sete vezes e gostava muito de somar um oitavo troféu e o 100.º da minha carreira. Nunca pensei sequer chegar aos 99… O número oito é o meu preferido: nasci no dia oito do oito de 81, é um número muito presente na minha vida”, disse. Quis, prometeu, cumpriu. E com um adversário “especial”, Stefanos Tsitsipas, o prodígio grego que está na linha da frente da nova geração de tenistas que começa a dar nas vistas e que tinha ganho ao helvético na quarta ronda do Open da Austrália, naquele que foi um dos melhores encontros do torneio. Desta vez, o suíço começou por ganhar o primeiro set por 6-4 (com um break logo no primeiro jogo de serviço do helénico) e fechou com novo 6-4 (desta vez com a quebra do serviço a surgir quando Tsitsipas podia fazer o 5-4), em cerca de 1h10 de jogo.

Ténis. Federer a um triunfo do 100.º título ATP ao bater Coric nas ‘meias’ do Dubai

Depois de ter ultrapassado Ivan Lendl e os seus 94 triunfos na carreira, Federer deu mais um passo para aquele que pode ser uma espécie de último objetivo quase impossível: igualar ou superar as 109 vitórias do americano Jimmy Connors em torneios ATP. Aos 37 anos (faz 38 em agosto), olhando para a trajetória nas duas/três últimas épocas em que se tornou bem mais seletivo nos torneios e pisos que faz ao longo do ano, parece ser uma meta inalcançável; no entanto, este homem feito era aquele miúdo que olhava para o top 15 do ranking como o pico de dificuldade máxima na carreira – e veja-se onde acabou por chegar.