Título: “De Sarajevo à Conferência de Paz”
Autor: Joaquim Rafael Caimoto Duarte
Editora: Âncora

Se nos interessamos por uma obra de literatura policial no tom de Raymond Chandler ou de Agatha Christie, não é exactamente isso que vamos encontrar. Mas se queremos um thriller de leitura imparável, o que aqui descobrimos é uma obra diferenciada pelas horrendas chacinas que se vão desenrolando no relato, pelas intrigas exploradas por profetas de mentes dúbias, por suspeitos em generosa quantidade, na sua maioria figuras de grande notoriedade, e pela distribuição inequitativa de culpas: sim, acabamos de ser servidos com um modelo de thriller que raramente emerge da pena de autores portugueses.

O tema está aparentemente explorado à saciedade, pois milhares de obras sobre ele foram publicadas nos últimos cem anos, sobretudo em língua inglesa. Mas não está. O intrincado do plot, e da consequente atribuição das culpas, aparece aqui como uma longa partida de xadrez entre jogadores com exaltados e irreflectidos estados de alma, sentido de ambiguidade sem paralelo, e dramáticos avanços e recuos das pedras no tabuleiro, até terminar com cheque mate, imprevisível até ao último instante.

O perdedor fica de tal forma humilhado pela ganância e ambição desmesurada do ganhador que,  mais tarde, noutro capítulo do campeonato, ele lhe virá a infligir cruel vingança. E o resultado deixa um severo amargo de boca, pois os ganhadores da hecatombe de 14-18 acabam por não ser necessariamente os “bons”, mas os verdadeiros autores morais e materiais do crime.

Mas estas linhas não se referem nem a um livro policial, nem a algum afamado escritor do género. Resultam de um livro de história recém aparecido (a ser apresentado em Lisboa no Museu do Combatente, entre a Torre de Belém e a Fundação Champalimaud no dia 12 de Março às 18 horas), que ainda por cima foi escrito por um português que nem sequer tem carreira de historiador. Intitula-se De Sarajevo à Conferência de Paz, da autoria do Embaixador Joaquim Caimoto Duarte.

O autor, que liderou com distinção significativas delegações de Portugal no estrangeiro (Buenos Aires, Moscovo, Viena de Áustria), além de outros importantes posições, nomeadamente Director do SIS (Serviço de Informações Estratégicas e de Defesa), e Representante Permanente junto do Conselho da Europa, dedicou os últimos oito anos à investigação exaustiva e conscenciosa sobre os antecedentes e os consequentes da Primeira Guerra Mundial, tendo concluído a magna obra, agora, que se perfazem 100 anos do Armistício.

A leveza da prosa, a clareza e precisão da linguagem, a frase curta, e toda uma reconstrução dos factos, decifram a complexidade de um drama que, numa carnificina inominável, causou a morte a cerca de 9,7 milhões de militares e a 10 milhões de civis, números aproximados.

De grande rigor, o relato de toda uma sucessão de assombrosos actos falhados ao nível dos mais altos estadistas europeus, muito documentado, está tão bem encadeado, que torna a leitura imparável. Confesse-se que Henrique Monteiro, no primeiro caderno do “Expresso” do passado dia 24 de Fevereiro, ao dizer, na sua análise à obra “…é imperativo ler este livro…”, muito encorajou a sua aquisição.

É verdade: uma vez iniciado, foi difícil interromper, página devorada atrás de página. Isto, apesar de ao livro faltar um índice onomástico, e a edição ser, infelizmente, pouco cuidada, apresentando, além de documentação fotográfica pobre, numerosas gralhas, pouco aceitáveis num texto com esta estatura. No entanto, o aperitivo, servido com uma português transparente numa esclarecedora Introdução, faz adivinhar desde cedo que a abordagem ao assunto promete.

E, nestes tempos presentes, em que nuvens tão escuras pairam sobre a Europa, comparam-se comportamentos e decisões daquilo que ocorreu naquela sanguinolenta saga, com as actuais irresponsabilidades, arrogâncias, sobrancerias, diktats, perigosas manipulações e distorções da democracia e do fair play por parte das figuras de Estado europeias e nacionais. Para esses, embriagados pelo poder, as lições da história de pouco parecem servir. Mas o eleitorado, e o “leitorado” desta obra, tem aqui bom “food for thought”, que bem poderia ser alargado ao mercado anglo-saxónico, com tradução e edição cuidada em língua inglesa. A leitura deste livro é, de facto, e nos tempos que correm, imperativa.