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Crítica de Música

Stella Donnelly: é dela o protesto mais bonito dos últimos tempos

O primeiro álbum da australiana é ativismo melódico, é política indie-pop e devia ser escutado vezes sem conta por todos os homens. "Beware of the Dogs" é um disco feito de amor e política.

Autor
  • Miguel Branco

Há vozes que só precisamos de ouvir uma vez. É quase uma epifania. E logo de seguida, aquela pergunta impulsiva: “Que merda é esta?”. Stella Donnelly tem esse efeito. Assim foi quando Thrush Metal (EP editado em 2017 pela independente australiana Healthy Tapes) nos cumprimentou os ouvidos. “Mechanical Bull”, primeiro tema, colou-se de imediato às costelas, quase dor de rins, como se nos tivessem batido com madeira, horas a fio no sofá para recuperar. A forma como grita “I Need To Be Alone” contagiou-nos, empurrou-nos para essa necessidade.

Já a capa do EP – onde surge a comer noodles ou um qualquer outro tipo de massa – era bom indicativo. Mas depois o jogo mudou. “Boys Will Be Boys”, é uma canção e tanto. É tão boa que a artista natural de Perth, Austrália, fez questão que estivesse no seu primeiro LP, editado no início de Março pela Secretly Canadian e chamado Beware of the Dogs. É uma canção onde denuncia o abuso sexual masculino, o comportamento abusivo e tão presente ainda hoje numa sociedade dita contemporânea.

“Why was she all alone
Wearing her shirt that low?

They said, ‘Boys will be boys’
Deaf to the word ‘no'”

Eis um dos versos de “Boys Will Be Boys”, escrita depois de uma amiga lhe contar que fora vítima de abuso. Stella Donnelly é, por isso, denúncia, protesto, é um berro feminista para a infeliz existência masculina, para a legalização do aborto por toda a parte. É profundamente política. Isto tudo num punhado de treze belas canções de indie-pop. Até faz confusão a forma como consegue unir tão belos arranjos, uma guitarra tão ilustrativa, tão cheia de narrativa, uma beleza silenciosa e arrebatadora que trata assuntos tão de agora.

A capa de “Beware of the Dogs”, de Stella Donnelly

É aliás “Boys Will Be Boys” que lhe vira a secretária, que enche a sua caixa de mensagens, isto porque escalou na internet para um hino do movimento #MeToo, ainda que tenha sido feito antes dos escândalos rebentarem. Sem fugir muito ao tema, “Old Man”, primeira e incrível faixa do disco, é “o dedo do meio em alto”, como a própria disse à Apple Music na descrição das canções. É ativismo musical de balanço indie e de discurso mordaz, para todos os homens que ainda vivem na sua bolha tradicional e misógina:

“He’s reading sport on the news
White man, white teeth in a suit, he’s got that style”

Stella Donnelly é também a certeza da imensidão de talentos musicais à solta na Austrália. É impossível não ouvir rasgos de uma Courtney Barnett com menos corda, ou de uma Julia Jacklin com menos doçura. Mas nem tudo é positivo num país com alguns problemas identitários, pelo menos para Donnelly, que disse, também à Apple Music, ter feito “Tricks” – tema de embalo sarcástico e, novamente, o tal dedo no meio – “para os idiotas que costumavam gritar-me coisas estúpidas quando fazia concertos de covers ao domingo à tarde”. Acrescentando ainda que é “um divertido zoom-in na identidade australiana”. Até o riff da guitarra neste tema parece estar em modo gozo.

“You only like me when I do my tricks for you
You wear me out like you wear that southern cross tattoo

You said I’d look much better if I dropped the attitude
Leave it alone, leave it alone, leave it alone, leave it alone”

São infinitos os sítios onde nos leva Stella Donnelly e isso é a garantia de excelência da sua escrita e das suas composições. É lógico que o crescimento e mediatismo abrupto só podem afetar a vida de uma jovem de 26 anos. Escute-se “Lunch”, onde diz ficar doente em casa antes de ir embora, ou seja, antes de sair em digressão, onde se deve sentir deslocada, mas, Stella, não nos leves a mal, se isso te fizer continuar a fazer canções assim não pares.

Tanto é vagarosa e ponderada – “Bistro” e a sua lenta linha de bateria – como pede uma corridinha, talvez seja dança de sala de jantar, ou de sábado à tarde no baloiço do quintal, em “Die”. É uma mulher sem medo de ser mulher. E isso, além de ser extremamente importante, é tremendamente belo, é a tal pancada nos rins que nos deixa perplexos e a querer ouvir mais, a querer que as coisas sejam mais assim.

“Mosquito”, segunda e mais bela canção de Beware of the Dogs, é a única canção de amor que escreveu na vida, afiança à Apple Music. Apetece quase perguntar, a roçar a indignação, como assim não fez mais maravilhas destas?

“I got sick of waiting Tuesday afternoon
K Line sea containers, thunder past my room
I use my vibrator wishing it was you
I was thinking of ya Tuesday afternoon”

Eis a prova de que até quem é tão panfletária em relação às questões homem-mulher, ao abuso na intimidade, consegue ser amorosa, ainda que isso, no seu caso, seja também falar de um vibrador. Porque não? Não há palavras proibidas para Stella Donnelly. Nem assuntos tabu. Só há amor. Stella Donnelly é amor e política. E fez um dos discos mais bonitas que ouvimos nos últimos tempos.

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