2018 foi para o futebol argentino um ano agridoce. A alegria causada pela qualificação do River Plate e do Boca Juniors, as duas principais equipas da Argentina, para a final da Taça Libertadores, depressa foi substituída pela sensação de vergonha e embaraço provocada pelos distúrbios antes da segunda mão da final, o consequente adiamento do jogo e o descaracterizado derradeiro encontro no Santiago Bernabéu. Depois de um 2018 protagonizado pelo River e pelo Boca pelos piores motivos, o futebol argentino precisava de que 2019 tivesse outra figura maior. E o Racing Avellaneda respondeu à chamada.

O clube de Avellaneda, na área metropolitana de Buenos Aires, sagrou-se este domingo campeão da Superliga Argentina. O empate com o Tigre bastou para garantir a conquista do título quando ainda falta uma jornada para o final da temporada, já que o Defensa y Justicia, segundo classificado, também empatou em casa com o Unión e ficou a quatro pontos da liderança. O Boca Juniors, bicampeão argentino, está no terceiro lugar a dois pontos do Defensa e o River Plate é quarto, com menos cinco pontos do que a equipa xeneize. O Racing Avellaneda conquistou assim o terceiro título desde 2000 — depois do Torneo Apertura em 2001 e o Torneo de Transición em 2014 — mas conseguiu ainda algo maior: desde 1966, há 53 anos, que o clube não terminava a Superliga Argentina no primeiro lugar. E esse feito tem dois principais responsáveis.

O Racing deixou para trás o favoritismo do Boca Juniors e do River Plate e conquistou a Superliga Argentina mais de 50 anos depois

Lisandro López, o avançado que foi tetracampeão nacional no FC Porto entre 2006 e 2009, regressou ao clube que o viu nascer para o futebol em 2016 (depois de passagens pelo Lyon, pelo Al-Gharafa do Qatar e pelo Internacional do Brasil desde que saiu de Portugal). Atualmente com 36 anos, Lisandro voltou ao Racing para conquistar o primeiro título ao serviço daquele que foi sempre o seu clube: mesmo enquanto jogava em Portugal, em França, no Qatar ou no Brasil. O capitão, que assumiu a liderança da equipa dentro do relvado e no balneário, enquanto braço direito do treinador Eduardo Coudet, marcou 17 golos em 23 jogos e é o nome maior do plantel que levou Avellaneda para as ruas na noite deste domingo.

Mas se o regresso de Lisandro López foi importante dentro das quatro linhas, ver voltar outro dos filhos pródigos do Racing foi fulcral nas decisões tomadas sem a bola a rolar. Diego Milito, homem golo do Inter Milão de José Mourinho que em 2009/10 ganhou a Serie A, a Taça de Itália e a Liga dos Campeões, voltou à Argentina e ao Racing em 2014 ainda enquanto jogador, após ter começado a carreira no clube de Avellaneda 15 anos antes. Cumpriu duas épocas no ataque do Racing e despediu-se dos relvados mas foi convidado pelo presidente Víctor Blanco para permanecer no clube enquanto secretário técnico — aquilo a que na Europa chamamos diretor para o futebol. A ligação de Milito à Europa, aliás, foi uma das principais mais valias do agora dirigente para renovar uma equipa que não era campeã nacional argentina há 50 anos.

Diego Milito regressou em 2014 ao clube que o viu nascer para o futebol depois de ganhar quase tudo com o Inter Milão

Diego Milito jogou no Génova, no Zaragoza e no Inter Milão, num espaço temporal de 11 anos que se prolonga por duas das principais Ligas europeias de futebol. O objetivo do antigo avançado, como contava o Independent em janeiro, era levar a lógica europeia para o Racing e formar um corpo dirigente e técnico só com pessoas que conhecessem o futebol — e não apenas o negócio — por dentro. Milito tinha como principal incumbência voltar a fazer do Racing Avellaneda um clube campeão e restaurar a fama de primer grande, já que a equipa foi a primeira das cinco principais da Argentina a conquistar um título internacional (a Taça Intercontinental, em 1967, ao bater o Celtic na final). “Tudo isto é um sonho. É uma recompensa depois de tanto trabalho. O Racing é a minha vida. Voltei para isto”, desabafou o argentino após o final do jogo contra o Tigre, visivelmente emocionado.

Os regressos de Lisandro López e Diego Milito e a conquista da Superliga Argentina 53 anos depois da última vitória levaram a população de Avellaneda para a rua e deram origem a festejos pouco ortodoxos. No meio da confusão, Gabriel Aranda, adepto do Racing, lembrou-se de desenterrar o corpo do avô e levar o crânio para os festejos. “Ele tinha de estar aqui”, explicou o argentino à TNT Sports. No próximo domingo, o Racing Avellaneda recebe o Defensa y Justicia já enquanto campeão nacional e adivinha-se a segunda edição das celebrações na cidade dos arredores de Buenos Aires.