“Vai chegar uma altura em que a penicilina vai poder ser comprada em qualquer loja. Aí, surgirá o perigo de que as pessoas ignorantes possam facilmente automedicar-se de forma insuficiente, expondo assim as suas bactérias a quantidades não letais do antibiótico, tornando-as mais resistentes”. A frase é de Alexander Fleming, o cientista que descobriu a penicilina, e foi proferida já no fim do seu discurso na cerimónia de entrega do Prémio Nobel da Medicina, em 1945.

Esta espécie de previsão, que conta hoje com mais de 70 anos, tem vindo a confirmar-se nos últimos anos. O aumento de casos detetados de bactérias super-resistentes tem deixado em alerta a comunidade científica. Até agora, os casos têm sido erradicados mesmo que com alguma resistência. No entanto, as bactérias têm evoluído de tal forma que o combate tem sido cada vez mais exigente.

Este é precisamente o caso do Candida auris. Este nome é, provavelmente, desconhecido para a maior parte do público. Poucos serão os que já ouviram falar deste fungo super-resistente que tem vindo a propagar-se por todo o mundo — e a grande velocidade — desde que foi detetado pela primeira vez em 2009, no Japão. Mas em apenas dez anos já chegou a vários dos maiores países do mundo — e até a alguns bem próximos do nosso, como Espanha — e figura agora no topo das prioridades do combate a estes fungos.

O Candida auris tem um comportamento que foge ao padrão tido como normal na maioria dos fungos. Ao contrário do que sucede com os fungos, este resiste a quase todos os tipos de antifúngicos e à maioria dos desinfetantes utilizados nos centros hospitalares, conseguindo sobreviver na superfície pele dos doentes. A sua taxa de mortalidade chegou, em alguns dos casos, a 70%. O The New York Times conta, num artigo publicado este sábado, que houve até casos em que os hospitais onde o fungo foi detetado foram obrigados a remover o chão e parte do telhado para a erradicar de vez. Além das ocorrências em Espanha, registaram-se casos no Reino Unido, na Índia, no Paquistão, na Venezuela e nos Estados Unidos.

As unidades norte-americanas de prevenção de doenças infecciosas já colocaram o combate ao fungo Candida auris na lista das “ameaças urgentes“. O fungo instala-se sobretudo em pessoas com o sistema imunitário mais debilitado, como os doentes de longa duração ou idosos. Na maioria dos casos, a sua atuação é letal. Mesmo depois de causar a morte dos seus portadores, o fungo continua a espalhar-se não só pelo corpo como por toda a habitação.

Sem antifúngicos capazes de lhe fazer frente, são necessárias várias tentativas para a extinguir por completo. Até que seja completada a erradicação, o fungo continua a multiplicar-se e chega mesmo a infetar outros doentes no mesmo centro hospitalar, atrasando e dificultando o combate.

Ao The New York Times, o diretor do hospital de Brooklyn onde se registou o primeiro caso nos Estados Unidos explica o processo para erradicar o Candida auris. “Todas as análises deram positivo — as paredes, a cama, as portas, as cortinas, os telefones, a sanita, os postes, a bomba. Tudo. O colchão, os trilhos da cama, as persianas da janela, o teto, tudo na sala era positivo”, relata o doutor Scott Lorin. Aquele hospital de Brooklyn teve de arrancar o chão e os telhados da habitação infetada para continuar operacional.

Um combate silencioso, sob o manto do secretismo

O combate ao Candida auris é uma preocupação que se estende a vários países em todo o mundo mas que tem sido mantida debaixo de algum secretismo por parte dos organismos de estado que lidam diretamente com o desafio. Argumentam que a não divulgação de informação relativa a este combate serve para evitar alarmismos. Muitos dos casos são revelados vários meses depois de terem sido detetados e erradicados dos centros hospitalares.

O fungo alastra-se pelo planeta à medida que o silêncio sobre a sua existência se vai mantendo. Em alguns casos, os hospitais recusam-se a prestar informações sobre as medidas de combate ao fungo aos doentes dos hospitais infetados.

Um exemplo paradigmático do secretismo que envolve a expansão do fungo Candida auris é o de um hospital de Valência, em Espanha. Corria o ano de 2016 quando, sem o conhecimento do público ou dos pacientes não afetados, foram identificadas como portadoras da fungo 372 pessoas no Hospital de La Fé, da Universidade Politécnica de Valência.

Desses, 85 doentes desenvolveram infeções no sangue. Os restantes não chegaram a desenvolver nenhuma doença apesar de serem portadores do fungo. Um artigo publicado na revista Mycoses relatou que 41% destes pacientes infetados morreram no espaço de 30 dias.

Numa reação à notícia, e através de uma declaração pública, o hospital disse que não era possível associar a morte desses doentes à infeção originada pelo Candida auris. “É muito difícil discernir se os pacientes morreram do fungo ou com ele, já que são pacientes com muitas doenças subjacentes e cujo estado geral já era muito grave”, disse o comunicado.

Tanto no Reino Unido como nos Estados Unidos, foram revelados casos semelhantes de secretismo. Em todos, havia um discurso semelhante, quase afinado. O porta-voz de um hospital britânico da zona de Londres que registou dezenas de casos de doentes infetados com o Candida auris chegou mesmo a reconhecer que o hospital fez questão de não divulgar nenhuma informação. “Não havia necessidade de lançar um comunicado de imprensa durante o surto“, explicou na sequência do caso, que aconteceu também em 2016.

Esta opção não agrada à comunidade científica. Kevin Kavanagh é um dos cientistas que não concordam com o silêncio das instituições responsáveis pelo combate a este fungo. Citado pelo The New York Times, o académico de Kentucky pergunta: “Porque raio é que estamos a ler notícias sobre um surto que aconteceu há quase um ano e meio em vez de terem feito manchetes no dia em que se detetou o fungo?“, questiona.

[Artigo corrigido às 20h53. Originalmente, o fungo Candida auris foi erradamente descrito como “bactéria”]