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Ana Maria Gonçalves e um monumento literário chamado "Um Defeito de Cor"

Não é apenas pelas 958 páginas da edição agora lançada pela Bertrand. "Um Defeito de Cor" é a história de uma sociedade num romance que se transformou num clássico das letras brasileiras.

Até ir à estampa, esteve cinco anos nas mãos de Ana Maria Gonçalves, dois dos quais dedicados a investigação – altamente necessária, e visível na mundividência que o romance apresenta. A partir daí, a autora dedicou um ano à escrita e mais dois ao trabalho de reescrever e aprimorar. Foi o segundo livro de Gonçalves, publicado pelo Grupo Editorial Record, quando a autora tinha 35 anos, seguindo-se apenas a Ao Lado E À Margem Do Que Sentes Por Mim, romance publicado de forma independente e que passou pelos pingos da chuva.

Trata-se da saga – cheia de mortes, violência, trabalho forçado, personagens entrelaçadas, eventos históricos – contada por Kehinde. Capturada na África Ocidental e levada para o Brasil aos oito anos, foi transformada em escrava. A vida leva-a a anos e anos de escravatura, à vida na Bahia, no Maranhão, no Rio, em São Paulo, e de novo a África, onde cria mais dois filhos – de cada vez que passa num lugar, o leitor passa lá também e vê-o pelos seus olhos. Já velha, cega, às bordas da morte, Kehinde encontra-se a caminho do Brasil, na sua derradeira viagem. Enquanto escreve e conta, acalenta a esperança de encontrar o primeiro filho, que fora vendido aos 10 anos pelo pai, fidalgo falido de origem portuguesa, para pagar uma dívida de jogo. Desde aí, a mãe nunca mais voltou a vê-lo.

Provavelmente, basta isto para que se perceba que cada pequeno elemento tem dimensão social e peso histórico, e isto sem precisar de ser panfletário ou exagerado ou de criar estereótipos. Em vez disso, é a vida a acontecer: os portugueses misturados com escravos, os fidalgos cuja vida dá para o torto, as mães separadas das crianças, tratadas como moedas de troca. Com a vida de Kehinde, as páginas acompanham quase todo o século XIX, dando-se o destaque evidente à história da escravatura no Brasil. Havendo necessidade de resumo, pode dizer-se que o romance é mesmo sobre isso. Enquanto a narrativa se desenrola, são vários os solavancos até que a narradora consiga comprar a liberdade e fazer um desvio, numa guinada radical. À medida que o enredo ganha corpo, num mundo narrativo pejado de reviravoltas, a autora dá ao leitor uma visão panorâmica do papel de uma negra numa sociedade esclavagista, isto num romance ambicioso e imponente, com mais de 400 personagens. Autora essa que foi também a primeira negra a entrar para a Academia Brasileira de Letras, em 2025.

É esse o principal condão da literatura, pegar na história asséptica, feita de grupos sem nomes ou caras, e mostrar de que gente foi feita. Eis, no livro de Ana Maria Gonçalves, o processo histórico visto a partir de dentro, visto como percurso individual – e o resultado de processos sociais na vida de uma pessoa, de uma mãe.

Além desta imponência, desta amplitude, ainda temos o aspecto linguístico, também magistralmente trabalhado. Assim, um dos aspectos mais notáveis no trabalho de Ana Maria Gonçalves é a forma como o português se deixa atravessar por palavras iorubás (um dos maiores grupos etno-linguísticos da África Ocidental) e por outras marcas de oralidade africana. Kehinde conta a história como quem tem um ouvinte, e a sua voz é natural: a oralidade contamina a sintaxe, permitindo-lhe respirar, soar a gente a sério. As repetições, as digressões, os solavancos na narrativa, o ritmo de quem parece falar à medida que conta e revisita a memória, dão-lhe uma qualidade inerentemente natural, verídica. Como tudo é contado, não há discurso directo. Manter isto num livro de quase mil páginas não será pêra doce, por isso é com particular mestria que a autora sustenta a ilusão de estarmos a ouvir, e não a ler, a vida de alguém.

A personagem de Kehinde está bem formada na narrativa, que parece ir saltitando entre um olhar micro e um olhar macro. É que, ao mesmo tempo que a acompanhamos, vemos a história a fazer-se – a cada solavanco de Kehinde, seguem-se discussões sobre negritude, sobre a vida social e política do Brasil naquela época. Temos a voz de uma mulher escravizada durante um longo período da sua vida, é certo, mas o romance ultrapassa isto, transformando-se na história do Brasil contada a partir dessa voz.

Kehinde, contou a autora em várias entrevistas, foi inspirada em Luiza Mahin, descrita pelo filho como altiva, insofrida e vingativa, envolvida em planos de insurreição de escravos. O filho deixara sobre ela alguns registos: segundo ele, Luiza nascera na Costa da Mina, era pagã, mudara-se para o Rio de Janeiro e fora presa com outros revoltosos, tendo depois desaparecido. Ana Maria Gonçalves investigou – partindo de anúncios de jornais, comunicações de fugas, anúncios de compra e venda de escravos, relatos e correspondências – esta e outras mulheres (cerca de 350 a 400) que terão vivido na mesma altura e nos mesmos sítios, tendo daí criado a personagem que dá voz e corpo à história.

Ora, a verdade é que, focando-se em Kehinde, o livro junta as vidas de várias mulheres negras que viveram no Brasil no século XIX. Muitas delas chegaram ao país ainda em crianças, tendo feito fortunas como comerciantes e tendo ajudado a comprar a liberdade de outros negros escravizados. Por pegar nisto, e por fazê-lo com amplitude e consistência, o romance ocupa um lugar vazio no imaginário brasileiro, tanto histórico quanto ficcional, sobre os africanos que chegaram ao país, dos quais tantos brasileiros descendem, dando luz às suas vidas diárias. Será esse o principal condão da literatura, pegar na história asséptica, feita de grupos sem nomes ou caras, e mostrar de que gente foi feita. Eis, no livro de Ana Maria Gonçalves, o processo histórico visto a partir de dentro, visto como percurso individual – e o resultado de processos sociais na vida de uma pessoa, de uma mãe.

Título: "Um Defeito de Cor" | Autora: Ana Maria Gonçalves | Editora: Bertrand | Páginas: 960

A narrativa acaba por extrapolar o biografismo da personagem, uma vez que não se volta para dentro. Em vez disso, cada pequeno pormenor abre as asas, criando eixos, que são vórtices, para elementos que não aparecem como temas, antes como vida a acontecer: os efeitos do colonialismo, o tráfico de escravos, os castigos corporais, e até, noutro aspecto e em concomitância, os costumes da época. Nisto, o romance tem uma ambição quase antropológica, registando formas de sentir, crer e falar. Ao abrir as asas, o livro volta-se para tudo: as lutas entre negros de tribos diferentes, a melancolia associada à saudade do chão africano, o retrato panorâmico da mesma pessoa em situações diferentes (pré-escravatura, durante a escravatura, vésperas de libertação e libertação). Enquanto lemos, vemos os escravos em plantações e vemos ainda os escravos de ganho, obrigados a trabalhar nas ruas e a levar para casa, a cada dia, uma determinada quantia de dinheiro. Vemos ainda vários destes escravos a conseguirem formar um pecúlio, conseguindo comprar a própria liberdade, e parecendo, apesar de poderem ter castigos físicos severos caso não arrecadem o valor previamente estipulado, viver numa situação melhor do que os que davam o corpo às plantações. Vemo-nos, de repente, a fazer comparações entre os tipos de escravatura.

O livro, que não esquece as relações entre negros e portugueses (logo à cabeça, a que resulta no filho perdido de Kehinde), mostra ainda as novas configurações sociais, muitas vezes decorrentes de alterações na lei. Ainda assim, observa-se que a condição de desigualdade permaneceu até após a promulgação da Lei Áurea (que, assinada no dia 13 de Maio de 1888, abolia a escravatura), dando lugar a novas formas de opressão. Ora, tudo isto aparece em força bruta no romance de Ana Maria Gonçalves, que não dá espaço à preguiça: em vez disso, incorpora estas experiências e possibilidades onde pode, tanto na protagonista como nas personagens que a rodeiam.

Num romance que tem um alcance social imensurável, além de psicológico, a autora mostra ainda de que forma foram construídas as religiões afro-brasileiras, nascidas da mistura de tradições de povos africanos escravizados com elementos indígenas e cristãos, das quais se destacam o candomblé e o umbanda. Os rituais aconteciam em terreiros, liderados por pais ou mães de santo, e o sincretismo – a fusão de diferentes doutrinas, crenças, culturais ou filosofias para a formação de uma nova expressão que mantivesse traços das origens – foi o caminho viável num mundo em que os negros eram obrigados a seguir o catolicismo, assim como a associarem os seus deuses aos santos católicos.

"Um Defeito de Cor" distingue-se, desse e de outros, pelo seu próprio cerne: a voz é a de uma mulher escravizada, não de um narrador oficial ou de um cronista letrado, alguém com um lugar estabelecido no centro absoluto da história do Brasil – alguém que é eixo em relação ao qual a produção simbólica se coloca e recoloca.

Nisto, a autora faz também relatos sobre a vida de escravos muçulmanos no Brasil, coisa rara no panorama literário e até histórico, o que inclui a participação destes na Revolta dos Malês, que, ocorrida na madrugada de 25 de Janeiro de 1835, em Salvador, foi a maior rebelião de escravos da história do Brasil: malê, aliás, vem do iorubá imale ou omalé, que significa muçulmano. Muitos dos participantes sabiam ler e escrever em árabe, e usavam a própria língua como código para planearem a revolta à revelia dos senhores. No livro, Kehinde tem uma participação activa nesta revolta, havendo ainda a hipótese de a própria Luísa Mahin ter participado como articuladora na história extra-ficção. À medida que a narrativa avança, e sabendo-se da forma como Ana Maria Gonçalves foi beber à realidade, fica-se com a impressão de que o romance é uma espécie de biografia ficcional de Mahin.

Desde a vida de Kehinde em África, nos seus primeiros anos, até à procura final do filho, o livro abarca quase cem anos de história. Nisto, parece um catálogo: o leitor quase pode escolher a época, abrindo a janela para a vida que lá está. A adolescência é marcada pelo trabalho forçado, e daí vamos de período em período a ver a evolução da vida social e política no Brasil. Enquanto seguimos a personagem, a autora faz com que sejamos contextualizados em relação ao período histórico, e cada um aparece cheio de vida, cheio de morte, cheio de sangue, cheio de tensão – cheio de literatura, portanto. Neste cenário, a pena da autora serpenteia como quer, usando acontecimentos reais quando lhe convém, pontilhando-os com as suas personagens quando lhe convém também, criando uma narrativa completa, complexa, imersiva.

De resto, convém referir o título, também ele a nascer de questões históricas. Um Defeito de Cor era uma expressão usada em documentos e anúncios da época, como cartas de alforria ou anúncios de fuga ou mesmo registos de compra e venda, para classificar a tonalidade da pele de uma pessoa escravizada – a cor era, assim, vista como imperfeição burocraticamente assinalada.

Comparado por vezes a Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro, pela ambição de criar uma romance capaz de retratar um mundo, atravessando séculos e classes sociais, Um Defeito de Cor distingue-se, desse e de outros, pelo seu próprio cerne: a voz é a de uma mulher escravizada, não de um narrador oficial ou de um cronista letrado, alguém com um lugar estabelecido no centro absoluto da história do Brasil – alguém que é eixo em relação ao qual a produção simbólica se coloca e recoloca. Nisto, a autora é capaz até de deslocar o cânone, tendo negros e escravos e mulheres, num 3-em-1, a contar a história.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

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