Um espaço com apenas dez metros quadrados, o beliche ao fundo partilhado com o sócio e amigo Joan Besolí, lavatório e sanita do lado esquerdo, duas mesas com cadeiras à direita, uma pequena janela ao fundo. Ao longo de 643 dias, Sandro Rosell, antigo presidente do Barça, passou grande parte dos dias fechado numa cela do Centro Penitenciário de Soto del Real, a cerca de 40 quilómetros de Madrid – antes de ir para Can Brians, em Sant Esteve Sesrovires (Barcelona), no passado mês de julho. Sempre em prisão preventiva, a maior de sempre em Espanha para um crime de índole económico. Esta quarta-feira, foi absolvido (tal como os restantes cinco arguidos, incluindo a mulher, Marta) de todas as acusações que lhe eram imputadas.

Visivelmente mais magro, Rosell aceitou o convite para o camarote do Mundo Deportivo e marcou presença terça-feira no torneio de ténis de Barcelona com Josep Maria Bartomeu, atual líder dos blaugrana. Clube à parte, ambos têm uma ligação de amizade forte – e estiveram no elenco liderado pelo primeiro entre 2010 e 2014. No entanto, muita coisa mudou na vida do ex-presidente da equipa catalã. A começar por algo tão simples como os telemóveis: depois de ter estado quase dois anos sem acesso a tecnologia, aprendeu a lidar bem com isso. “Soube adaptar-se à vida na prisão”, confidenciavam em julho algumas pessoas mais próximas, altura em que se mudou para Can Brians e contou com uma enorme manifestação de cerca de 400 pessoas à porta (entre as quais familiares, dirigentes dos blaugrana e políticos da região) a pedir a sua liberdade.

Ainda no módulo 4 (e depois 10) do estabelecimento em Madrid, onde se encontravam todos os presos preventivos que esperavam julgamento por um primeiro delito que não estivesse relacionado com um ato de violência, como explicou o El Periódico, Rosell fazia caminhadas de duas horas todos os dias no pequeno pátio, escrevia com assiduidade cartas para o exterior, passava pela biblioteca e começou a fazer ioga para combater a solidão (e, como se queixaria depois, os problemas de aquecimento do espaço). Cruzou-se na prisão com outras figuras conhecidas da sociedade, casos de Jordi Cuixart, número 1 do Òmnium Cultural; Jordi Sànchez, líder da Assembleia Nacional; Miguel Blesa, antigo presidente da Caja Madrid; e Luis Bárcenas, ex-tesoureiro do PP, ficando próximo sobretudo de um: Jordi Pujol Ferrusol, filho mais velho do ex-presidente do Governo Regional da Catalunha acusado por alegado branqueamento e ocultação de capitais no valor total de 30 milhões de euros.

Rosell e Bartomeu, ex e atual líder do Barcelona, a caminho do julgamento pela transferência de Neymar (JAVIER SORIANO/AFP/Getty Images)

A ligação ao Barça (que liderou de 2010 a 2014, altura em que se demitiu devido à investigação em torno da contratação de Neymar), de forma inevitável, valeu-lhe uma atenção especial por parte dos restantes detidos. Por variadas vezes, pediu para que fizessem chegar ao estabelecimento camisolas do clube, o artigo mais vezes “reclamado” nas conversas que ia mantendo – onde foi mostrando, entre jogos que ia vendo através do canal Movistar, a sua alegria pela hegemonia dos blaugrana face ao rival Real Madrid mas também a antipatia com outro antigo presidente, Juan Laporta. Aliás, desde que foi acusado e ao longo dos quase dois anos em que esteve detido, Rosell defendeu que nunca estaria naquela posição se não tivesse liderado o Barcelona. Uma vez por semana entrava em jogos de futebol – embora tivesse como principal hobbie desportivo o xadrez.

Ao La Vanguardia, algumas pessoas que privaram com o antigo presidente do Barcelona acrescentaram que, além de escrever muitas cartas em resposta a apoiantes ou para as pessoas mais próximas, foi estudando vezes sem conta o seu caso e a acusação, ao mesmo tempo que tirava notas para um dia escrever um livro sobre os últimos dois anos de vida. “Vai transmitindo sempre o seu estado anímico e diz-se alvo de uma injustiça. Com o que tem, vai fazer um grande livro; se depois publica, isso já é uma decisão pessoal”, explicaram. Ao longo do tempo, o pai, devido aos problemas de mobilidade, quase nunca o visitou. A mãe tentava manter uma cadência de 15 em 15 dias. Todos os meses, além das reuniões com os advogados, estava um período de 40 minutos mais reservado com as duas filhas e os três irmãos, como escreveu o El Confidencial.

“Sou inocente a 100%. Não há caso. Dizem que fugirei [n.d.r. o perigo de fuga foi um dos motivos invocados para ficar em prisão preventiva], é uma coisa absurda. Congelaram-me todo o património e quero defender a minha inocência. Como estou? Estou indignado. Passei por situações de dúvidas e surpresas. Roubaram-me dois anos ao lado dos meus pais quando mais precisavam porque são idosos. Dá-me pena pelas minhas filhas. Nem posso comprar um pão à minha mulher. Tenho toda a minha vida bloqueada. A minha mulher, Marta, está a aguentar tudo como uma campeã”, salientou numa entrevista não gravada à RAC1 em fevereiro, já no Centro Penitenciário de Can Brians, em Barcelona, onde passou os últimos meses. Em fevereiro, foi libertado. E os adeptos blaugrana não deixaram passar a notícia no Santiago Bernabéu, na goleada por 3-0.

“Tudo começou em 2006. Uma empresa árabe, a ISE, pediu-me para negociar a compra dos direitos de jogos particulares. Mas também da Tailândia e de Portugal. Negociámos a compra de 24 particulares. Na minha empresa, a Uptrent Developments, 50% pertence-me a mim e 50% ao Joan Besolí. A minha empresa foi intermediária entre a empresa árabe a a Confederação Brasileira de Futebol. Nesse momento, o Brasil tinha um acordo com a Traffic para a transmissão dos seus jogos. Cobrava 650 mil dólares por jogo, os árabes ofereceram mais de 850 mil. Como a Traffic tinha direito de preferência, igualou mas recomendei aos árabes que fizessem uma oferta de mais de um milhão porque sabia que duplicariam os ganhos. Perante isso, a Traffic já não podia acompanhar e tive a minha percentagem de comissão, de 20%. Não paguei nenhuma comissão ao Teixeira [Ricardo Teixeira, então presidente da Confederação Brasileira de Futebol]. E mesmo que tivesse pago, não era ilegal. Mas não paguei. O Ministério Público acha que é ilegal e acusa-me de branqueamento de capitais. Bati o recorde de prisão preventiva em Espanha por um alegado delito económico ainda que não há lesados”, acrescentou na mesma conversa.

Esta quarta-feira, com o Ministério Público a pedir uma pena de seis anos de prisão no âmbito desta “Operação Rimet” (que começou por ser mais elevada, de 11 anos), a Audiência Nacional absolveu Sandro Rosell e os restantes cinco arguidos (o advogado e sócio Joan Besolí; a mulher, Marta Pineda; o amigo libanês Shahe Ohanneissian; e outros dois alegados testas de ferro, Pedro André Ramos e Josep Colomer) da acusação de branqueamento de capitais (20 milhões de euros) de comissões pela venda dos direitos audiovisuais de 24 jogos da seleção brasileira de futebol e de um contrato com a Nike. Os juízes consideraram que os delitos não foram provados e fizeram prevalecer o princípio in dubio pro reo, como explica o El País.

“Estou muito satisfeita, depois de dois anos de luta ficou demonstrado o que defendíamos. É uma alegria muito grande. Por fim voltamos à nossa vida normal, ao dia a dia. Acabou-se aquele sofrimento diário, o sofrimento de ver os meus sogros a sofrer, de ver o Sandro a cada semana na prisão… Fez-se justiça, agora não temos de olhar mais para trás. Falei com uma das minhas filhas e à outra mais pequena mandei mensagem, porque estava nas aulas. Os meus sogros também estão contentes como o Sandro. Finalmente estamos tranquilos. Agora o que temos de fazer é comer como uma família e olhar para a frente. Temos uma vida honesta, honrada e humilde, queremos seguir da mesma forma”, comentou à RAC1 a mulher, Marta Pineda.