Schlump, o romance autobiográfico que foi queimado pelos nazis em 1933 e que esteve escondido durante 80 anos numa parede até que foi finalmente redescoberto, chegou às livrarias portuguesas esta sexta-feira.

Publicado anonimamente em 1928, o livro, que mais tarde se percebeu ter sido escrito por Hans Herbet Grim, conta as “histórias e aventuras do desconhecido soldado Emil Schulz”, ao qual foi dado a alcunha ridícula de “Schlump”. Inspirado na experiência do seu autor na Primeira Guerra Mundial, descreve os combatentes alemães como pouco heroicos, a estratégia adotada no confronto como “imprudente, disparatada e imbecil” e o imperador “como um cobarde e toda a guerra como uma brutal piada de mau gosto”. Recorrendo ao humor, o escritor mostrar a brutalidade e o absurdo do confronto.

O escritor alemão Volker Weidermann, que assina o prefácio da edição portuguesa da PIM!, descreve Schlump como um “conto documental”, que “desafia o leitor a tentar distinguir aquilo que é conto daquilo que é documentário” e no qual “a regra é que o mais inverosímil é sempre a parte documental, a parte que descreve a chamada realidade”.

O protagonista é um otimista, capaz de resistir à hostilidade, à misantropia e ao desencanto. Apesar de viver o pior que um ser humano pode viver, continua a manter a fé na humanidade, avançando de rapariga em rapariga, de aventura em aventura, até chegar a um local o conflito é bem real e onde é recebido pelo seu superior “com a indiferença de quem regista a chegada de um saco de ervilhas”.

A guerra explode então em frente dele. Apesar de serem poucas as páginas de descrição e evocação do horror total, os momentos idílicos, vividos anteriormente, tornam essas imagens mais devastadoras, marcando-as mais profunda e intensamente na memória, revela Weiderman.

Um professor de Altenburg que apenas queria que o seu livro tivesse sucesso

Hans Hebert Grimm, nascido a 26 de junho de 1896, dava aulas em Altenburg quando publicou Schlump anonimamente. O seu maior desejo era que o livro tivesse sucesso, mas a obra acabou por ser eclipsada pelo lançamento de A Oeste nada de novo, de Erich Maria Remarque. De pouco lhe valeu a edição da responsabilidade de Kurt Wolff (que publicou nomes como Franz Kafka, Arnold Zweig, René Schickele ou Georg Trakl), a capa concebida por Emil Preetorius, amigo intimo de Thomas Mann, ou a crítica do inglês J.B. Priestley, que o descreveu como “o melhor dos livros de guerra alemães até agora, à exceção de Grischa” — Grimm não conseguiu que o seu Schlump se tornasse num grande êxito.

Quando os nazis chegaram o poder e várias obras contra a guerra foram lançadas para a fogueira em 1933, Schlump foi queimado e proibido. Com medo de ser descoberto, Grimm escondeu o livro dentro da parede da sua casa. A mulher aconselhou-o a fugir, mas o professor queria continuar a dar aulas. Para poder viver em segurança, inscreveu-se no partido nazi, o NSDAP. Com o início da Segunda Guerra Mundial, foi enviado para a frente ocidental como intérprete.

Com a instauração de um novo sistema político impôs, Grimm, enquanto antigo membro do NSDAP, foi proibido de dar aulas — apesar de se ter afirmado e de ter sido confirmado por entidades públicas que era o autor de Schlump e de as suas alunas terem atestado que, durante o regime nazi, aconselhava e promovia a leitura de livros queimados e proibidos, nunca escondendo a sua postura antifascista. Grimm virou-se então para o teatro. Trabalhou como encenador, atividade de curta duração. A política cultural tornou-se mais restritiva e o antigo professor vou-se obrigado a trabalhar num areeiro.

No verão de 1950, foi convocado pelas autoridades da recém-formada República Democrática Alemã (RDA) para se apresentar em Weimar. Não partilhou com ninguém a conversa que teve durante esse encontro. A 5 de julho, regressou a casa, em Altenburg. Dois dias mais tarde, quando a mulher saiu para ir às compras, pôs termo à própria vida.

Depois de 80 anos escondido numa parede, Schlump é descoberto

Caído no esquecimento, Schlump foi redescoberto em 2013, escondido na parede onde Hans Hebert Grimm o tinha colocado nos anos 30. Uma edição inglesa foi produzida em 2015 por Jamie Bulloch, com prefácio de Volker Weidermann, o mesmo que foi reproduzido pela PIM!.

Neste, Weidermann assinala que, numa carta a um amigo, datada de março de 1929, Grimm escreveu que o seu editor tinha esperança “de que um dia surja alguém que volte a descobrir Schlump”. “O facto de, 85 anos volvidos sobre a primeira publicação deste livro, e 100 anos após o início da Grande Guerra da qual ele fala, muitos leitores terem de novo a oportunidade de descobrir Schlump constitui um singular exemplo de boa ventura”, afirmou o escritor alemão.