Crítica de Livros

Balzac, o feminismo, cadáveres e trampolins

"A Mulher de Trinta Anos" deve ser visto como um estudo de costumes e esta edição permite aos leitores portugueses contactar com um extraordinário escritor por vezes esquecido.

Photograph: Lapi/Roger Viollet/G

Autor
  • João Pedro Vala

Título: A Mulher de Trinta Anos
Autor: Honoré de Balzac
Editora: Relógio d’Água
Páginas: 208
Preço: 12,50 €

A Mulher de Trinta Anos é, com certeza, um dos romances de Balzac mais mal tratados pela crítica ao longo do tempo e talvez uma historicização da sua publicação ajude a perceber porquê. Como era seu hábito, Balzac publicou inicialmente o romance em fragmentos difundidos em revistas parisienses da altura. No entanto, ao contrário do que acontece no caso da grande maioria das suas obras principais, Balzac nunca pareceu muito interessado em unificar os vários fragmentos da história de Julie d’Aiglemont sob um mesmo título. Assim, ler A Mulher de Trinta Anos implica uma certa tolerância para com a quantidade de coisas que ficam por explicar, bem como para com as suas  incoerências e repetições (particularmente evidentes nas cenas iniciais dos capítulos, em que o esquema de apresentação das personagens é sempre o mesmo, procurando criar um suspense que o romance, lido de seguida, anula). Assim, mais do que um romance, A Mulher de Trinta Anos deve ser visto como um Estudo de Costumes (é, aliás, nessa categoria da Comédia Humana que Balzac o insere).

É também verdade que, ao contar a história das desventuras amorosas de Julie, Balzac torna evidente que era muito melhor a descrever comportamentos e sequências de acontecimentos, deixando-os falar por si só, do que a teorizar sobre esses mesmos episódios, acerca dos quais estabelecia formulações gerais frequentemente pouco interessantes.

Feitos estes reparos, importa elogiar a publicação deste episódio da Comédia Humana, não só (o que já não seria pouco) por permitir a leitores portugueses contactar com um extraordinário escritor constantemente devotado ao esquecimento pelas editoras nacionais, mas essencialmente porque as críticas acima referidas ofuscam as enormes virtudes do livro, em especial as virtudes do capítulo inicial onde se encontra a descrição da parada militar das tropas napoleónicas antes de estas partirem para a Batalha de Leipzig.

No entanto, talvez o maior motivo de interesse neste romance seja o feminismo que o premeia e que permite integrar a história do infeliz casamento de Julie com o Marquês Victor d’Aiglemont num bizarro cânone feminista da literatura europeia do século dezanove, ao lado de romances como ‘Indiana’ de George Sand ou de ‘Daisy Miller’ de Henry James (ainda que a ideia de se ver integrado num cânone deste género pudesse horrorizar o próprio Henry James).

A primeira secção d’A Mulher de Trinta Anos tem o título de Primeiros Erros e consiste precisamente no elencar de um conjunto de erros de descrições acerca de Julie e da sua felicidade. Estes erros parecem ser de dois tipos, consoante a sua fonte original. Temos, portanto, os erros de Julie, que acontecem devido à sua imaturidade e à sua sempre frustrada tentativa de se conformar às regras que a sociedade parisiense lhe impunha, e os erros das outras personagens, que acontecem por estas estarem mais concentradas em obter de Julie o que dela desejam do que em fazer descrições e previsões acertadas.

Ignoremos, pois, o primeiro tipo de erro elencado e concentremo-nos nos erros deste segundo tipo. O mais peculiar nos erros iniciais que constituem o primeiro capítulo é o facto de muitos destes resultam em previsões acertadas. Embora previsões deste tipo sejam feitas quer pelo cura de Sainte-Lange quer pela Marquesa de Listomère-Landon (duas personagens generosas para com a protagonista, mas que parecem mais preocupadas em doutrinar pelo temor, no primeiro caso, e em arranjar um entretenimento para a sua velhice, no segundo, do que propriamente em compreender e ajudar Julie), é o pai de Julie o exemplo paradigmático destas previsões erradamente certeiras.

O pai de Julie é sempre descrito como uma personagem mesquinha e pouco perspicaz, bastante semelhante ao Rei Lear. No entanto, logo no princípio do romance, anuncia à sua filha que seria um erro esta casar com o Marquês que se viria a tornar seu esposo, uma vez que esse casamento faria de Julie uma esposa infeliz. O acerto deste oráculo é meramente contingente, uma vez que o único objectivo do duque ao pronunciá-lo parece ser o de aprisionar a filha. O pai de Julie torna isso bastante explícito quando explica que a sua rejeição do casamento entre a filha e o general não se deve a uma objecção de fundo, mas apenas à vontade de conservar a filha junto a si até que esta se torne órfã (“Ah! Esperava ver-te fiel ao teu velho pai até à sua morte” (p. 20)). O egoísmo do pai é aliás tornado evidente pelo facto de fazer acompanhar de “algum entusiasmo” (p.20) o anúncio que faz à filha de que nunca conheceu ninguém que lhe parecesse digno de a esposar.

Em certo sentido, Julie passa os anos iniciais da sua vida a servir de mulher para o seu pai (viúvo desde há muitos anos) e grande parte dos anos seguintes a ser tratada pelo seu marido ora como filha ora como mãe, apenas para se tornar depois na criatura monstruosa incapaz de amor filial que encontramos na segunda metade do romance. É este o problema que Balzac parece querer expor aqui: as mulheres parisienses do século XIX, ao se verem restringidas ao papel de esposa e de mulher, vêem a sua vida tornar-se ou feliz e harmoniosa quando se adaptam com sucesso a esse papel ou numa desgraça absoluta quando não é esse o caso. Pior ainda, a condenação moral que recai sobre estas mulheres incapazes de encontrar felicidade no matrimónio leva-as a nem sequer poderem falar abertamente sobre o seu desespero. Desta forma, os seus maridos, que, pelo contrário, podem livremente procurar consolo com outras mulheres, tornam-se nas vítimas mais visíveis de um casamento falhado, quando esse falhanço lhes é, na verdade, relativamente indiferente.

A intolerância religiosa vivida em França neste período, ao contrário do que seria de esperar, vem apenas agudizar a situação, ao eliminar quase por completo a opção de uma vida religiosa. Desta forma, a vida das mulheres burguesas, em vez de ter duas saídas possíveis (o que já seria, como é lógico, pouquíssimo), passa a ter apenas uma, fazendo destas mulheres mal casadas, como é sublinhado várias vezes no romance, escravas, mas escravas descritas como rainhas.

Em Ilusões Perdidas, Coralie pede a Lucien que utilize o seu corpo como trampolim quando o sucesso estiver à distância de um cadáver. É impossível, em cenas como a de quase violação que encontramos na noite de núpcias de Julie e Victor, não ver a protagonista como apenas um trampolim cadavérico pronto a oferecer-se em holocausto para dar uma família e um título de general ao seu marido.

joaopvala@gmail.com

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