Até agora, quem quisesse ouvir Amália Rodrigues no Youtube tinha de se contentar com vídeos submetidos por utilizadores e fãs, não licenciados e alguns com qualidade de som dúbia (ou pior do que isso). Tudo mudou: no mês em que se assinala o 99º aniversário do nascimento da fadista, foi criado pela primeira vez um canal de Youtube oficial que incluirá, daqui em diante, parte do legado musical deixado por Amália.
O objetivo do novo canal — criado pela editora que detém os direitos dos discos lançados pela artista, a Valentim de Carvalho — será “garantir que todos possam desfrutar do legado de Amália com a merecida qualidade sonora”. No novo catálogo digital do Youtube estão já “recentes edições remasterizadas — que incluem gravações inéditas, ensaios, takes alternativos, raridades — e os fados mais emblemáticos”, aponta a Valentim de Carvalho, em comunicado oficial.
A discografia da fadista estava já disponível em plataformas de streaming como o Spotify, Apple Music e Soundcloud, mas agora temas como “Povo Que Lavas no Rio”, “Estranha Forma de Vida”, “Gaivota” e “Medo” podem ser ouvidos (em alguns casos acompanhados por vídeo) na sua versão oficial através do canal da fadista. É ainda possível encontrar gravações de ensaio em que Amália canta “Havemos de Ir a Viana”.
[“Gaivota”:]
No mês passado, foi reeditado o disco Com Que Voz, de 1970. A nova edição somou às canções lançadas à época “extras” e um inédito absoluto, que Amália gravou (mas não editou) para uma música de Alain Oulman. As edições póstumas têm sido coordenadas pelo cantor e especialista na obra de Amália, Frederico Santiago. Entre reedições e novas edições, foram lançados nos últimos três anos álbuns como É ou Não É, Encontro — Amália e Don Byas, Fados 67 (as sessões com o conjunto de guitarras de Raul Nery), Coliseu Lisboa (1987) — Ao Vivo e Amália em Itália — A Una Terra Che Amo.
“Bravo, Amália”. Quando ouviram La Rodrigues, os italianos apaixonaram-se
Espetáculo de homenagem itinerante e exposição no Colombo
A Fundação Amália Rodrigues anunciou também esta terça-feira um plano de comemorações para o 99.º aniversário do nascimento da fadista. Um dos destaques é o já anteriormente anunciado espetáculo de homenagem “Amar Amália”, que começou por assinalar os 20 anos da morte de Amália Rodrigues em fevereiro passado, na Altice Arena, mas que tem já novas datas anunciadas no mesmo local (a 5 de outubro), no Pavilhão Multiusos de Guimarães (8 de novembro) e no Pavilhão Rosa Mota, no Porto. O objetivo é estender o local dos concertos levando o espetáculo a outras cidades e outros países.
A celebrar Amália no espetáculo de tributo dedicado à fadista estarão cantores e músicos como Dulce Pontes, Simone de Oliveira, Paulo de Carvalho, Amor Electro, Jorge Palma, Aurea, Marco Rodrigues e Cuca Roseta, que vão atuar acompanhados por uma banda fixa.
A 12 de outubro, no Brejão, freguesia de São Teotónio, Odemira, onde Amália tinha uma casa de férias, será possível visitar essa moradia, participar numa missa campal cantada, ver o filme “Amália” e assistir a uma noite de fados.
Amália no Coliseu dos Recreios, em 1990, numa comemoração de 50 anos de carreira (@ ACÁCIO FRANCO / LUSA)
Já em janeiro, no dia 14, será inaugurada uma “grande exposição” no Centro Comercial Colombo, em Lisboa, que irá depois passar por outros centros comerciais.
De acordo com um dos administrador da Fundação Amália Rodrigues, Rui Órfão, trata-se de uma instalação, “um grande jardim que vai ser plantado com cem malmequeres – flor de eleição de Amália – que têm uma componente multimédia”.
“Os visitantes poderão intervir nas pétalas dos malmequeres, que serão um documento de afeto e memórias”, referiu, adiantando que “a envolver o jardim circular estará o mundo de Amália, com todas as cidades onde atuou”.
No final da exposição, “cada flor será leiloada, para que o valor arrecadado permita cumprir o legado de ajudar instituições que Amália deixou em testamento”.
Em 2020 haverá ainda uma outra exposição itinerante, para levar a fadista a todo o país, em parceria com autarquias, e ao estrangeiro.
De acordo com Rui Órfão, nesta mostra o público poderá contactar com “uma Amália menos vista, a pessoa que toda a gente conhece, mas ainda tem segredos para todas as pessoas”. Nesta exposição serão mostradas “indumentárias, adereços, fotos mais privadas, pouco vistas, e depoimentos de Amália, em vídeo”.
“Amália – As Vozes do Fado”. A homenagem com cabeça, tronco e membros
A estas iniciativas juntam-se “uma multiplicidade de outras”, como, segundo Vicente Rodrigues, a emissão de selos comemorativos do centenário de Amália, em parceria com os CTT, e a edição de “alguns produtos comemorativos”, como um relógio, um vinho ou uma coleção de óculos de sol.
Além disso, haverá uma Grande Gala Amália, em outubro de 2020, cujos detalhes serão anunciados mais tarde, mas que servirá de “tributo a pessoas que têm sido muito relevantes na cultura, no fado”.
Ao longo do ano, haverá também várias atividades culturais na Casa-Museu Amália Rodrigues, que é também sede da fundação, como debates e tertúlias, com o objetivo de levar “para casa da Amália os portugueses, as pessoas que gostam de Amália, que gostam de fado, para poderem apreciar a vida de uma mulher que foi ímpar, não apenas como cantora”.