Abaixo a história do primeiro EP. Aquela que diz que toda e qualquer banda ou todo e qualquer artista vale é pelo primeiro EP; que daí para a frente foi lixo, deixou-se seduzir por aquilo que as marcas iam introduzindo nas suas contas bancárias, foi dominado por produtores que tornaram a sua música mais arrumada; que, no fundo, morreu, e com ele morreu a ideia de liberdade, de punk, de não querer saber do mercado e do público. Já estamos enquadrados? Já sabemos que teoria é esta? Ótimo. Burna Boy é o oposto.

Bom, não nos precipitemos. Isto também não significa que L.I.F.E (Aristokrat Records, 2013), primeiro disco do nigeriano, seja de riscar da lista. Nada disso. É coisa interessante, mas nunca, ao escutar agora African Giant — quarto disco de originais, que acaba de editar pela Atlantic –, poderíamos rejeitar ouvi-lo, refugiando-nos no argumento do primeiro EP. Aliás, pensando bem, trocando as voltas, African Giant é o primeiro EP de Burna Boy, no sentido de obra-prima, de fim das dúvidas, de consagração de um artista que todos devíamos ouvir.

Damini Ogulu, 28 anos, responde por Burna Boy, uma personagem que sempre parece ter sido artisticamente, ainda antes de, em 2015, ao editar o seu segundo disco On a Spaceship, ter criado a sua própria editora, a Spaceship Entertainment. Burna Boy foi gradualmente chegando a mais gente, cruzando oceanos, sugando mais ouvintes, espalhando a palavra, manchando o mapa com a sua sonoridade tão particular. Mas o salto, aquele em que deixou claro que já não lhe perdemos o resto, ou seja, foi em 2018, quando editou Outside, terceiro disco que apelidou de mixtape. Aquilo que parece ter sido o tubo de ensaio para este African Giant.

Se tentarmos definir uma cronologia para Burna Boy vamos voltar à ideia de anti-primeiro EP. É claro que também gostamos de telediscos meio toscos, com pistolas de água dentro de piscinas e figurinos de um outro tempo, como testemunhamos no seu primeiro single de relativo sucesso: “Like to Party”.

Mas basta virar a página para “Ye”, tirado de Outside, para ver que alguma coisa mudou. A dança à beira da piscina transformou-se em efeitos com fumo e néons num estúdio profissional, numa realidade diferente.

African Giant não deixa de aparecer, por isso, como alguma carga de surpresa. Há um refinamento no som, um saber fazer, um oiçam-lá-esta, parece uma espécie de festa a que toda a gente veiopara abraçar o nigeriano. Não deve ser tomado por acaso o facto de o avô do artista ter sido manager de Fela Kuti, herói do afrobeat nigeriano que tanto influenciou Burna Boy. E que está neste disco, seguramente, em doses abundantes. Até aqui as texturas propostas estavam mais próximas de uma percussão quase ditatorial, carregamento de dub e vontade reggae, que, atenção, não desaparece, mas que se torna mais misturada, como uma caldeirada homemade, um caldo que é iguaria e segredo regional numa qualquer beira-de-estrada nigeriana.

“Gbona”, por exemplo, um dos grandes temas do disco, tem sopros e ecos de jazz sobre cordas que podiam ter sido roubadas a um hit de pop latino. Deve ser isso que torna este disco tão especial: a árdua tarefa de o definir. Parece que estão a gozar connosco. São terrenos arenosos aqueles pelos quais no guia Burna Boy e bem sabemos como é complexa a tarefa de dançar com areia pelos tornozelos. Mas talvez — é isso, só pode ser isso — seja um gozo inofensivo, um agora-é-que-te-apanhei.

É fusão, esse termo que tantos propósitos agora serve e que no caso de Burna Boy não é mentira nem moda, é verdade. Está lá o afrobeat, o ritmo do rap (“Show & Tell” é a meias com Future e “This Side” com YG), os refrões pop e celebrativos, o dancehall, e de que maneira. E está lá a história e e bandeira de um país. Escute-se, por exemplo, “Another Story”, décima do cardápio, onde uma intro nos resume a fundação da Nigéria, ou, por outro lado, a sua apropriação pelo Reino Unido, cujo propósito não foi, logicamente, a democracia e a liberdade.

A faixa-título, que é também a que abre o disco, é uma porta escancarada a dizer: “Entra, bar aberto”. É dança em rodinha sem querer saber quem ganha, é fim de tarde a vislumbrar a paz ou a uma ideia semelhante. Nesse sentido, é impossível não mencionar “Gum Body”, com Jorja Smith, que não abdica do seu esqueleto africano. É amor espontâneo, amor que se podia ter encontrado na fila de uma qualquer discoteca de cidade nigeriana e ter decidido não entrar. Lá dentro está muito barulho e, neste caso, as colunas podem bem ser um entrave ao diálogo que sustentará o início desta inusitada paixão. É, e não podia ser de outra maneira, a faixa mais soul das 19 que compõem o disco.

“Wetin Man Go Do” é deixar a percussão fazer das suas, é algo que podia vir da bateria de Tony Allen — artista consagrado do afrobeat nigeriano e baterista de Fela Kuti durante anos a fio –, que, aliás, deve dançar este tema como ninguém. “Dangote” é uma lição de dancehall, uma canção que, como todo o disco, pede a mão direita (só porque o coração está do lado esquerdo e dá mais jeito) no coração enquanto lhe adivinhamos o rasto sem tropeçar.

African Giant é seguramente um dos objetos que temos de ter no bolso ou num lugar acessível, onde o possamos facilmente tirar e hastear. É um país, um continente, uma forma de estar. E aqui, nesta morada com Burna Boy, só se pode estar de uma maneira: a dançar. Burna Boy a presidente.