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Física Nuclear

Único reator nuclear nacional foi desmantelado em operação secreta

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Urânio e outros produtos radioativos foram transportados por um camião do Exército até Tróia, revela o Público. Daí seguiram de navio até aos EUA, com quem Portugal acordou a remoção do material.

Reator nuclear do campus tecnológico e nuclear da Bobadela

IST

O único reator nuclear em funcionamento em Portugal foi desmantelado numa operação sigilosa, em março deste ano, revelou o jornal Público esta segunda-feira. A exploração do reator era feita pelo Instituto Tecnológico e Nuclear, integrado no Instituto Superior Técnico, mas deixou de operar em maio de 2016, como previsto num acordo assinado entre Portugal, Estados Unidos e Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA). Este ano, Portugal levou a cabo essa operação secreta para transporte o combustível de urânio e outros produtos radioativos que estavam no núcleo do reator do campus tecnológico e nuclear na Bobadela para Tróia, a fim de seguir para os EUA.

O transporte foi confirmado ao jornal por José Marques, físico nuclear responsável pela operação. “A operação teve de ser mantida secreta por razões de segurança”, explica o físico, que garante que quatro Ministérios (Ciência, Defesa, Administração Interna e Finanças) estiveram envolvidos na operação. “Foi tratada como um assunto de Estado.”

Mas esta é uma história que remonta a maio de 2016: segundo o acordo assinado entre as três partes, Portugal só poderia devolver o urânio aos norte-americanos se o reator parasse de funcionar até dia 12 desse mês; se continuasse a operar (tinha capacidade para o fazer até 2026), teria de ser Portugal a encontrar uma solução para se livrar desses materiais radioativos. A somar-se a isto, uma inspeção da AIEA detetou falhas técnicas e recomendou melhorias — as obras, explica José Marques, poderiam ser no valor de “dez milhões de euros”.

“Não mandaram parar o reator. Recomendaram é que fizéssemos diversas outras inspeções por causa do envelhecimento das estruturas”, acrescenta o físico. “Decidimos parar preventivamente.”

Assim, na sequência dessa decisão, a operação acabou por ser feita em março de 2019, após um longo processo de burocracia com os norte-americanos. Os 14 paralelipípedos com um peso de 100 quilogramas foram transportados num camião do Exército até Tróia. “O transporte foi feito pelo Exército com condutores que tinham formação para fazer esse transporte. Tínhamos a necessidade de manter a operação confidencial e seria muito delicado estarmos a lidar com empresas exteriores”, conta José Marques. A partir de Tróia, um navio norte-americano partiu com o conteúdo do reator para o Laboratório Nacional de Savannah River (Carolina do Sul), pertencente ao Departamento de Energia dos EUA.

Oficialmente sabe-se que foram pagos cerca de 600 mil dólares (cerca de 530 mil euros) aos norte-americanos pela operação, mas não são conhecidos mais valores. “Houve uma série de custos que foram absorvidos pelos diferentes ministérios do Governo”, diz José Marques, que garante que o custo foi, contudo, inferior ao que está estabelecido no Programa Nacional de Gestão do Combsustível Irradiado.

Daqui para a frente, falta saber como será feita a retirada do restante material nuclear. José Marques explica que será feito um plano de desmantelamento ao longo de 2020 e 2021, com o apoio de peritos da AIEA, que irá ser aprovado pela Agência Portuguesa do Ambiente. Deverá ser posto em prática daqui a “uma dezena de anos”. Esses resíduos radioativos poderão ser armazenados no Pavilhão de Resíduos Radioativos do próprio campus tecnológico e nuclear.

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