Morreu o gestor Manuel Ferreira de Oliveira. O ex-presidente da Galp e da Unicer tinha 70 anos. A morte este sábado foi anunciada no site da Universidade do Porto da qual foi professor catedrático. Ferreira de Oliveira ficou conhecido por ter sido presidente executivo da Galp Energia durante três mandatos já com Américo Amorim como o principal acionista da empresa.

Foi também presidente da Unicer e mais recentemente foi nomeado para presidente da comissão de remunerações da Caixa Geral de Depósitos.

Com o desaparecimento de Ferreira de Oliveira, Portugal  “perde uma das suas mentes mais brilhantes e esclarecidas”, afirmou em nota citada pela Lusa o ministro das Finanças. Centeno lamenta “profundamente o desaparecimento do professor Ferreira de Oliveira”.

“No momento do desaparecimento do professor Manuel Ferreira de Oliveira, o Ministério das Finanças destaca a sua carreira profissional preenchida, como gestor de excelência em diversas áreas, com destaque para o setor energético”, refere o ministério, na nota, agradecendo “todo o seu empenho e trabalho nas funções que mais recentemente desempenhou como presidente da comissão de nomeações, avaliação e remunerações da CGD”.

As Finanças destacam ainda que o gestor era “um líder cujo percurso profissional e académico deixam uma marca inegável em Portugal”.

Também a Super Bock Group, antiga Unicer através do presidente do conselho de Administração, Manuel Violas, lamentou a morte do seu antigo gestor. “Foi com elevado sentido de ousadia, determinação e comprometimento que enquanto CEO [presidente executivo] liderou a então Unicer entre os anos de 2000 a 2006, deixando um legado valioso e inspirador”, adianta um comunicado citado pela Lusa.

Formado em engenharia eletrotécnica no Porto, Ferreira de Oliveira fez grande parte da sua carreira no setor do petróleo. Começou fora de Portugal e passou pela Venezuela e por Londres. Era responsável pela Petróleos da Venezuela na Europa quando o Governo o convidou, em meados dos anos 90, para regressar a Portugal e assumir a presidência da Petrogal, numa altura em que Estado ainda era o maior acionista. A empresa viria a marcar todo o seu percurso profissional.

A primeira vida na Galp, então Petrogal

Quando Ferreira de Oliveira chega em 1995, a Petrogal era uma empresa com prejuízos avultados e conflitos acionistas entre o Estado e os investidores privados. Do lado dos privados estavam alguns dos maiores grupos portugueses como o Grupo Espírito Santo de Ricardo Salgado, Américo Amorim e Patrick Monteiro de Barros. As participações destes investidores estavam reunidas numa holding chamada Petrocontrol que foi presidida por Diogo Freitas do Amaral que faleceu esta quinta-feira.

Enquanto presidente da Petrogal foi um dos responsáveis pela estratégia de aposta na produção de petróleo — até então a empresa era apenas uma refinadora e distribuidora de combustíveis. Foi com Ferreira de Oliveira que a Petrogal investiu em blocos de exploração, primeiro em Angola e depois no Brasil. Nos cinco anos que esteve pela primeira vez na liderança, a empresa estabilizou a situação financeira, mas assistiu a várias tentativas falhadas para encontrar um investidor estratégico.

Ferreira de Oliveira saiu da Petrogal no final de 2000, em conflito com a estratégia defendida pelo Governo de Guterres que entregou uma fatia relevante da empresa aos italianos da ENI. Por decisão do então ministro da Economia, Pina Moura, e em linha com a proposta dos acionistas privados, a Galp ficou com os ativos  do Estado no setor do gás natural. Foi também nesta altura que António Mexia chegou à empresa cuja presidência viria a ocupar durante os anos seguintes. Ferreira de Oliveira sai a denunciar que o controlo da Galp iria passar para as mãos da ENI — uma profecia que os governos seguintes tentaram e acabaram por conseguir contrariar. Mas iria voltar.

Entre 2000 e 2006 foi presidente da Unicer, atual grupo Super Bock, mas nunca esqueceu os petróleos. O gestor foi desafiado a liderar um projeto para concorrer à privatização da Galp em 2004 lançada pelo Executivo de Durão Barroso. A Petrocer, da qual eram acionistas o BPI e outros investidores da Unicer, ganhou uma das mais renhidas corridas a uma empresa do Estado, contra os grandes grupos económicos nacionais, como o GES, Américo Amorim e a José de Mello, e o fundo americano Carlyle.

No entanto, a operação acabou por não ir para a frente.  A Comissão Europeia não permitiu a reorganização do setor energético defendida pelo Governo português e que passava por retirar o negócio de gás natural à Galp e transferi-lo para a EDP. O chumbo foi motivado por razões de concorrência e foi uma das primeiras medidas da Comissão Europeia depois de Durão Barroso chegar a presidente. Tinha sido o Governo de Durão Barroso a implementar o modelo que a Comissão Barroso acabou por deitar por terra.

Ferreira de Oliveira acabou por ficar na presidência do Grupo Super Bock até 2006. Segundo o comunicado da empresa, Ferreira de Oliveira “impulsionou decisivamente o processo de internacionalização da Super Bock, fomentou a diversificação do negócio, bem como apostou no desenvolvimento sustentável da empresa, quando poucos ainda o faziam”. Apesar de não ser petróleo, a Super Bock diz que o gestor se entregou “com paixão” ao setor, tendo sido o principal responsável pela criação da Confraria da Cerveja.

O regresso à Galp pela porta grande com o Brasil a jorrar petróleo

Mas passados dois anos, Ferreira de Oliveira estava de regresso à Galp, desta vez pela mão do empresário Américo Amorim que se tornou no principal acionista da empresa de gás e petróleo no final de 2005. O gestor esteve à frente da Galp durante nove anos, tendo abandonado o cargo de presidente executivo em 2015. Foi durante a sua presidência que a Galp entrou na bolsa, em 2006, e se tornou numa das empresas mais valiosas em Portugal graças à descoberta de reservas petrolíferas no pré-sal brasileiro e de reservas de gás em Moçambique. A produção de petróleo no Brasil, em parceria com a Petrobrás, é hoje o ativo mais valioso da Galp Energia e tem como parceiro a chinesa Sinopec, num negócio ainda conduzido por Ferreira de Oliveira.

Foi também a administração de Ferreira de Oliveira que aprovou o maior investimento industrial da década que permitiu reconverter as refinarias de Sines e Matosinhos, tornando-as mais competitivas. Pelo caminho ficou a ideia defendida por José Sócrates quando chegou ao Governo em 2005 de aumentar a concorrência na energia, pondo a Galp a concorrer com diretamente com a EDP. A elétrica era liderada por António Mexia e com quem Ferreira de Oliveira nunca teve grandes afinidades. Desde o tempo em que Mexia chegou à Galp e colocou o gás natural no centro da estratégia de crescimento, deixando para segundo o plano o petróleo.

Com Ferreira de Oliveira, a petrolífera nunca apostou a sério na produção de eletricidade, teve uma licença para uma central a gás que não fez e acabou por vender os investimentos que realizou em parques eólicos.

Durante os anos de presidência da Galp, Ferreira de Oliveira foi muitas vezes crítico da política fiscal sobre os combustíveis, sobretudo quando era confrontado com ataques à empresa por causa do preço dos combustíveis. Foi também durante o seu mandato que a Galp “comprou” uma guerra de centenas de milhões de euros com o Estado, ao recusar pagar a contribuição extraordinária sobre o setor energético, posição que o seu sucessor, Carlos Gomes da Silva, manteve.

Ferreira de Oliveira saiu da Galp em 2015 por sua iniciativa, depois de ganhar vários prémios internacionais e de ser um dos homens mais bem pagos das empresas cotadas em bolsa. Mas continuou ligado ao setor do petróleo com o lançamento de fundos de investimento vocacionados para oportunidades na exploração de hidrocarbonetos. O seu último cargo numa grande empresa foi o de presidente da comissão de remunerações da Caixa Geral de Depósitos.

Para além de gestor, Ferreira de Oliveira, fez carreira académica na Faculdade de Engenharia do Porto onde foi professor catedrático e fazia parte do Conselho de Curadores da Universidade do Porto.

Atualizado às 23h30 com comunicado da Super Bock.