Um futebolista de eleição, uma eleição de homem. Ao longo desta sexta-feira, as reações à morte de Rui Jordão têm-se multiplicado entre clubes, antigos companheiros e amigos, numa notícia triste que já saltou fronteiras e que teve o destaque da publicação francesa L’Équipe ou nas próprias redes sociais da UEFA, entre outras, que recordam os dois golos apontados ao conjunto gaulês nas meias-finais do Europeu de 1984.

Marcelo Rebelo de Sousa, numa nota enviada para a agência Lusa, recordou “o tento no Estádio da Luz” contra a União Soviética que deu a Portugal “a alegria do apuramento para o Euro 84 em França” e também “os seus golos nesse torneio”. “Recordando o dinamismo, a imaginação nos relvados e a capacidade de entrega do atleta de primeira água que foi Rui Jordão, o Presidente da República lamenta a morte da ‘Gazela de Benguela’ e envia aos seus familiares as mais sentidas condolências”, salientou o Presidente da República.

“A linda memória de um dos nossos melhores artistas nunca vai desaparecer. Até sempre, enorme Jordão”, escreveu a Federação Portuguesa de Futebol, que deixou ainda uma mensagem através do seu líder, Fernando Gomes. “Marcou o nosso futebol de forma indelével. Jordão foi um jogador especial, uma figura ímpar que prestigiou todos os portugueses e nos fez arrancar aplausos e emoções fortes. A sua prestação no caminho para o Euro 84, e na nossa campanha em França, fez vibrar todo o País e foi digna de um verdadeiro campeão. À sua elegância e delicadeza em campo, Jordão deixa-nos igualmente um legado de resiliência e grande dignidade na sua vida pessoal”, destacou o dirigente federativo.

Já o Sporting recordou através de uma nota no seu site oficial “um dos maiores nomes da história do clube”. “O ex-avançado verde e branco vai ficar na memória de todos os sportinguistas como um atleta de excelência que deixou tudo em campo com o objetivo de engrandecer o nome do Sporting”, destacou.

“Hoje o Sporting e o desporto nacional estão de luto. Na história do Sporting encontramos grandes atletas, grandes jogadores e algumas lendas. Rui Jordão é uma dessas lendas. O Rui Jordão encantou uma geração com os seus mais de 180 golos com o leão rampante ao peito. Jordão é um homem de bem, de valores, um artista dentro de campo e continuou a sê-lo fora de campo. Rui Jordão partiu hoje e ganhou um lugar na imortalidade”, comentou mais tarde Frederico Varandas, presidente do clube verde e branco.

O Benfica, onde jogou nos primeiros anos em Portugal, deixou uma mensagem através do seu presidente, Luís Filipe Vieira. “Em meu nome pessoal e do Benfica expresso o mais profundo pesar pelo triste falecimento de Rui Jordão. Atleta de eleição que vestiu a camisola do Benfica durante cinco épocas, deixa em todos uma enorme saudade. Manifesto também, em particular, as mais sentidas condolências para toda a sua família e ao Sporting, clube de que era adepto e que representou durante vários anos”, destacou o líder encarnado.

O Saragoça, única equipa não portuguesa que representou na Europa (chegou a ter uma passagem fugaz pelos Estados Unidos), também se associou à homenagem ao avançado. “O Real Zaragoza quer transmitir as suas condolências pelo falecimento em Cascais, em Portugal, do seu ex-jogador Rui Manuel Trindade Jordão, que jogou na equipa aragonesa na época de 1976/77. Jordão chegou ao Real Zaragoza depois da saída de Carlos ‘Lobo’ Diarte e encerrou a brilhante etapa dos Zaraguayos”, escreveu na seu site oficial.

A Liga de Clubes e o Sindicato de Jogadores Profissionais de Futebol fizeram questão de se associar ao momento de luto no futebol nacional. “A Liga Portugal lamenta, profundamente, o desaparecimento de Rui Manuel Trindade Jordão, antigo jogador de Benfica, Vitória [de Setúbal], e glória do Sporting”, escreveu a Liga.

“Na memória de todos, fica o jogador e o seu fantástico percurso desportivo, mas também o homem que ajudou a elevar o futebol português para um patamar superior. Na minha, em particular, fica aquele golo, de antologia, no Euro84, como que a antecipar a carreira criativa a que se viria a dedicar. Há precisamente um ano, tive o prazer de privar com o Rui Jordão na exposição ‘Que a mente resista/Projeto de uma exposição/Palavras ditas’, da sua autoria, e conhecer mais um pouco deste ser humano excecional. Vi-o, pela última vez, na tribuna do Sporting onde regressou pela mão do amigo Manuel Fernandes. Jordão foi verdadeiro, amigo do amigo, distinto, um rasgo de inspiração no quotidiano desportivo”, salientou Joaquim Evangelista.

Augusto Inácio, antigo companheiro no Sporting na Seleção, falou à Rádio Observador sobre “um excelente jogador, uma excelente pessoa e um excelente pai”: “Passámos bons momentos, muitos momentos naquele balneário. Tinha uma personalidade forte, vincada, e como jogador marcava a diferença. Na semana passada estive com ele no hospital, bem disposto, a recuperar e agora recebi esta notícia triste… É um homem justo, um homem frontal como eu e por isso é que nos dávamos bem, além de ser um goleador que marcou a diferença na sua era. Honrou a camisola do Sporting depois de ter jogado no Benfica, um elemento de grupo que agregava, era um líder e fica a imagem de um excelente jogador mas também de um excelente homem, com uma personalidade muito própria mas que entendíamos bem. Foi por isso que ficámos amigos tantos anos…”.

Dessas equipas do Sporting e da Seleção fazia também parte Eurico Gomes, que deixou uma mensagem sentida na sua página do Facebook. “Quero no imaginário ter a certeza que nada, mesmo nada, mudará na nossa eterna amizade. És especial, és um Homem, és um artista, és um Grandíssimo e maravilhoso companheiro, és enorme na arte de só escolheres os melhores. Sempre me disseste que eu sou especial… Sabes porquê Jordi? Porque tu és…. Sempre serás… Não especial mas o melhor de nós dois. Fica tanta coisa por dizer da tua personalidade. Poucos o sabem, que partiste como sempre querias, sem deixar vestígios da tua grandeza como homem. Viveste sabendo que nunca te respeitaram, nunca tiveram capacidade para ombrear com a tua grandeza como merecias. Do profissional? Claro, chegaste ao patamar dos melhores do mundo…”, escreveu o central.

Toni, antigo companheiro no Benfica e na Seleção Nacional, falou à Lusa sobre o futebolista e, em especial, sobre a pessoa: “Era um jogador de grande qualidade com quem partilhei no Benfica e na Seleção bons momentos. Deixa boas recordações. Como homem, era um homem bom, de valores e princípios. O futebol português perde um dos seus grandes vultos. O Jordão marcou o futebol português nas décadas de 70 e 80. É uma dor imensa que sinto. Eu e todos aqueles que têm paixão pelo futebol, independentemente das cores clubísticas. É uma perda de um jogador fantástico e de um homem bom. É uma hora de dor”.

Hilário, Magriço que é ainda hoje o jogador com mais encontros disputados pelo Sporting, enalteceu à agência Lusa “o grande jogador e homem” que foi Rui Jordão. “Foi um grande atleta e que deixa saudades. Estou muito chocado. Teve uma grande passagem não só pelo Sporting mas também pelo Benfica, clube no qual foi igualmente uma referência”, disse o antigo lateral esquerdo dos leões e da Seleção.

Já António Simões, com quem também jogou no Benfica e na Seleção, reforçou o “exemplo extraordinário” que Jordão deixou. “Desportivamente, desapareceu quando deixou os relvados e refugiu-se nesse talento [pintura], nessa capacidade. Depois de Eusébio, foi o português que vi jogar com mais talento naquela função. Simplesmente, extraordinário. Estou triste, desapontado, porque partiu tão cedo. Cada vez que vai um embora é um bocadinho de mim que também vai embora”, comentou o Magriço à SportTV.

Sérgio Conceição, antigo internacional português e atual treinador do FC Porto, aproveitou também a conferência de imprensa de antevisão ao jogo da Taça de Portugal com o Coimbrões para deixar uma palavra de solidariedade aos mais próximos de Jordão. “Um abraço à família. Era um ex-jogador de grandíssimo nível, que me habituei a apreciar, não só no Sporting mas também na Seleção”, disse o técnico azul e branco.

Também Ricardo Sá Pinto, antigo jogador do Sporting e da Seleção que está agora no comando do Sp. Braga, recordou alguém que conheceu da passagem por Alvalade. “Era uma referência para mim, uma pessoa afável e serena, simpática. Encontrávamo-nos esporadicamente, porque ele afastou-se um pouco do futebol. Gosto imenso de arte e pintura, ele também pintava, falávamos um pouco sobre isso… Foi com grande tristeza que recebi esta notícia”, contou o antigo capitão verde e branco.

O V. Setúbal, clube onde terminou a carreira ao lado do amigo Manuel Fernandes (e que acabaria por lhe abrir as portas ao regresso à Seleção), deixou também uma mensagem de pesar através das redes sociais. “O Vitória Futebol Clube manifesta o seu pesar pela morte de Rui Jordão. Representou o clube entre 1987 e 1989, tornando-se para sempre um dos nossos”, referiu entre o manifestar de condolências à família e amigos.