De passagem por Lisboa, Gianvito Rossi não ignora a dimensão de uma das mais possantes indústrias portuguesas. Ainda assim, não troca Itália por nada. Afinal, é a terra dos grandes mestres do calçado e a sua. Diz que cresceu no meio de sapatos, com a casa colada à fábrica da família. Não nos espanta, já que faz parte de uma dinastia de artesãos. O pai é Sergio Rossi, nome maior do design italiano que, em 1951, começou a produzir os primeiros pares. O sobrenome tornou-se sinónimo de luxo, da mesma forma que os sapatos viraram objetos de desejo de uma elite.

Em dezembro de 2005, o patriarca vendeu a marca ao Grupo Kering, detentor de casas como a Gucci, a Saint Laurent, a Balenciaga e a Alexander McQueen. Pela primeira vez na vida, Gianvito não estava rodeado de sapatos. Ao Observador, admitiu ter sido nesse momento, aos 39 anos e já fora da alçada do pai, que decidiu, de livre e espontânea vontade, começar a fazer os seus próprios sapatos.

Hoje, calça algumas das maiores celebridades do mundo. Jennifer Lopez, Kendall Jenner, Gigi e Bella Hadid, Meghan Markle e Rania, a rainha da Jordânia, caminham frequentemente sobre estes saltos, obras de engenharia que resultam de um equilíbrio constante entre beleza e conforto. Não é por acaso que a produção de um par de sapatos passa por 60 etapas, desde a escolha dos materiais até chegar ao produto final. Ver uma criação sua ascender ao estatuto de clássico é um objetivo que persegue. Aí, a intemporalidade joga a seu favor. São sapatos sem data nem época, apesar de um ligeiro tempero dado a cada estação.

Annabelle, sapatos da coleção “Masquerade Ball” (outono-Inverno 2019/20) de Gianvito Rossi. Custam 790 euros

Gianvito Rossi é rigoroso no método e na técnica e consciente de que uma marca como esta, pensada e feita em Itália, tem ainda uma larga margem para se tornar mais sustentável. Defende que todos os produtos produzidos na China deviam ser banidos, ao mesmo tempo que enaltece o saber fazer e os procedimentos europeus.

Agora, Rossi veio a Lisboa pela primeira vez. Não é de muitas conversas, apenas as necessárias para complementar aquela que considera ser a sua linguagem principal, os sapatos. Na Stivali, ponto de venda da marca em Portugal, apresentou a coleção deste outono, uma viagem por silhuetas clássicas feita a partir da atmosfera dos grandes bailes de máscaras, em particular naquele que a família Rothschild deu em 1972, no Château de Ferrières. Mais do que imagens estáticas, é na vida e nas pessoas em movimento que reside a verdadeira inspiração.

Como é que começou esta relação com os sapatos? Foi uma paixão desde o início? Foi uma herança de família?
Bem, começou com uma questão de família. Literalmente, cresci no meio de sapatos. A casa do meu pai ficava por cima da fábrica. Quando era criança, descia as escadas e estava lá. De certa forma, era o meu recreio. Fez sempre parte da minha vida, todos aqueles elementos eram muito naturais para mim. Acho que, por isso, nunca senti que aquilo fosse especial. Comecei a trabalhar com o meu pai. Nem sequer consigo dizer quando é que isso aconteceu ao certo, porque estudava e estava na fábrica ao mesmo tempo — as coisas misturavam-se. Sempre adorei aquilo, mas também não posso dizer que fosse uma escolha minha. Nunca fui obrigado, é certo. Gostava porque estava ali e porque era divertido. Ali, tive a oportunidade de aprender tudo, de estar ao lado do meu pai, de viajar por todo o mundo.

Gianvito Rossi em Beverly Hills, abril de 2018 © Stefanie Keenan/Getty Images for Barneys New York

Entretanto, cresci, o meu pai vendeu a empresa, continuámos a colaborar durante alguns anos e depois parámos. E no momento em que saí da fábrica, pela primeira vez na vida, dei por mim sem ter sapatos à minha volta. Foi estranho. De repente, tinha ficado sem uma coisa que sempre tinha tido. Comecei a pensar e percebi, realmente, o que aquilo significava para mim. Os sapatos são o meu trabalho, a minha vida, são a forma como comunico. Nesse momento, sim, decidi fazer sapatos. Aos 39 anos, tomei essa decisão. Foi quando criei a minha marca, em 2006, e desenhei a minha primeira coleção, de primavera-verão 2007.

No momento em que saí da fábrica, pela primeira vez na vida, dei por mim sem ter sapatos à minha volta. Foi estranho. Comecei a pensar e percebi, realmente, o que aquilo significava para mim. Os sapatos são o meu trabalho, a minha vida, são a forma como comunico. Nesse momento, sim, decidi fazer sapatos.”

Quanto tempo demora a fazer uma coleção e de onde vem a inspiração? De uma viagem? De uma musa? Da pesquisa de novos materiais?
É uma combinação de várias coisas. Diria que uma coleção é um trabalho de seis meses e que uma grande parte desse processo é uma evolução, uma evolução do estilo, das cores, uma evolução natural da própria coleção. Sempre que desenho algo, tento desenhar uma coisa original e moderna. Se estes dois elementos estiveram lá, então é possível fazê-los evoluir por si. Esta é uma parte muito importante de uma coleção. Do outro lado, temos o toque da estação — a inspiração, um mood mais especial pensado para cada coleção, bem como a sua vertente mais divertida. Na verdade, essa parte surge das mais diferentes formas, não há uma regra. Pode ser uma viagem, um encontro, determinadas pessoas ou imagens.

Diria que é, sobretudo, a vida real, muito mais do que algo que já foi resolvido como uma peça de arte, um filme ou uma fotografia. São elementos belíssimos, mas também são pensamentos que já foram elaborados. A vida é muito mais romântica, olhamos para ela e fazemos a nossa própria conceção daquilo que vemos. Uma peça de arte, por exemplo, é magnífica mas não acredito que possa ser uma inspiração porque já é o trabalho de alguém.

Belvedere, sandálias da coleção “Masquerade Ball” (outono-Inverno 2019/20) de Gianvito Rossi. Custam 790 euros

Espera-se que os saltos altos sejam dramáticos e inesquecíveis, mas confortáveis ao mesmo tempo. Como designer, como é que gere esse equilíbrio?
Quanto mais altos, menos confortáveis são. É já a pensar nisso que, especialmente nos saltos mais altos, damos muita atenção à fase de testes. Mas mesmo quando estamos a criar o conceito do sapato, a desenhá-lo, é possível, logo aí, fazer a diferença, ou seja, através da técnica, atingir um equilíbrio aceitável entre altura e conforto. Em primeiro lugar, é preciso perder tempo com esse processo. Às vezes, olhamos para os esboços e a tentação é relaxar, mas não, podemos sempre esforçar-nos mais um bocado. É assim que se gere esse equilíbrio, embora as opções são muito reduzidas. Por vezes, em mil, só em cinco é que conseguimos chegar a esse equilíbrio.

Acha que os saltos altos são um símbolo de empoderamento para as mulheres?
Não. Acho que o exagero — o salto muito alto — cria o efeito contrário. Para haver empoderamento, a mulher tem de se sentir confiante e poderosa. Se estiver demasiado frágil, ela não se vai sentir nem confiante, nem poderosa. Por vezes, para a mulher se sentir poderosa, não é preciso que esteja assim tão chique. Mas sim, poder é confiança.

Itália é conhecida por ser o melhor produtor de sapatos do mundo, mas Portugal tem ganhado destaque nesta área. Confiaria em nós para produzir os seus sapatos?
Seria possível, mas toda a minha tradição está baseada em Itália, bem como a rede de fornecedores. Ficarei sempre por lá. Mas sem dúvida que tem havido um crescimento do setor em Portugal. O cenário é complicado, porque o Extremo Oriente continua a ser muito agressivo e só as marcas com um posicionamento muito elevado conseguem aguentar determinados custos de produção. Não é fácil continuar nessa posição.

Para haver empoderamento, a mulher tem de se sentir confiante e poderosa. Se estiver demasiado frágil, ela não se vai sentir nem confiante, nem poderosa.”

Os sapatos continuam a ser a grande fantasia das mulheres?
Para mim, um sapato pode ser comparado a uma peça de lingerie, mas que, na prática, toda a gente vê. Sei que é uma abordagem bastante peculiar, mas para a mulher acredito que continuam a ser muito importantes. Os sapatos podem realmente determinar como elas se sentem, para o bem e para o mal. Eles têm o poder de afetar o humor. Não interessa se são saltos altos ou se são ténis. Tudo depende do mood e o importante é que a mulher escolha o que é bom para ela naquele momento.

A nova coleção de Gianvito Rossi está à venda em Lisboa, na Stivali

Mas não acha que os ténis vieram substituir a elegância clássica por um sentido de moda muito mais pragmático?
Eu gosto de ténis e acho que a grande conquista da moda tem sido a liberdade. Em tempos, tudo esteve padronizado, toda a gente se vestia da mesma forma. Estamos a viver um período fantástico porque qualquer um de nós se pode vestir de acordo com o seu mood — agora uns ténis, a seguir um stiletto. É uma ótima forma de se viver, com liberdade para nos expressarmos.

Qual foi a última vez que se surpreendeu com uma celebridade a usar os seus sapatos?
Quando a JLo usou as sandálias Stark. Ela é uma mulher poderosa, sem dúvida. E os sapatos são muito importantes para todas estas mulheres. O que há de interessante nestas celebridades é o facto de elas se preocuparem muito com o aspeto com que vão aparecer em público. Por isso, as escolhas que fazem não estão dependentes do que é tendência ou da marca ou do designer mais importante. Elas querem o que as vai fazer parecer melhor. Elas não escolhem os sapatos porque são meus, mas porque ficam bem com eles.

Jennifer Lopez a usar as sandálias Stark, desenhadas por Gianvito Rossi © James Devaney/GC Images

Os seus sapatos, mesmo os mais elaborados, mantêm um toque clássico. Considera que a moda, e os sapatos em particular, só fazem sentido se foram intemporais?
Como designer, o meu objetivo máximo é criar algo que seja original e que se torne um clássico. Para um designer, esse é, sem dúvida, o derradeiro objetivo. Não estou interessado em fazer algo dentro das tendências para durar dois meses. Acho que isso não é um trabalho relevante. Agora, quando algo é original, belo, elegante e se torna um clássico — é disso que ando à procura. É muito difícil, mas se acontecer vou ficar mesmo muito feliz. É claro que a modernidade tem de estar lá, mas para fazer algo intemporal é preciso olhar para o futuro, enquanto o trendy é apenas o agora, sem uma perspetiva.

Nem sequer vou falar da China, até porque acho que tudo o que lá é produzido devia ser banido. Os produtos feitos na China são o que há de mais prejudicial para o ambiente. Estamos a destruir o mundo ao comprá-los. A Europa tem de se orgulhar de ser o mais avançado sistema económico em termos de sustentabilidade.”

A sustentabilidade tornou-se uma grande questão na indústria da moda. É uma preocupação também para a marca Gianvito Rossi?
Preocupa-nos bastante. Não somos uma grande marca nem uma grande estrutura, mas estamos a dar os primeiros passos nessa direção. Começámos a colaborar com a Universidade de Bolonha, a mais antiga do mundo, num projeto em que o foco é fomentar uma economia circular dentro da nossa empresa e expandi-la à zona onde estamos. É um projeto muito importante, que arrancou há cerca de um mês. Estou confiante em como ele nos vai ajudar a orientar a evolução da empresa numa direção mais sustentável do ponto de vista ambiental. Basicamente, vai ajudar-nos a fazer o que já fazemos mas melhor, sobretudo porque acredito que temos muito espaço para melhorar.

Um dos dois espaços Gianvito Rossi em Milão. No total, a marca tem 23 lojas próprias espalhadas pelo mundo. Dessas, duas são exclusivamente dedicadas à linha masculina. Nove estão localizadas na Europa, três nos Estados Unidos e outras nova no continente asiático

É difícil, existe uma grande cadeia de elementos. Mesmo quando começamos a usar algo que pensamos ser bom, quando vamos até ao fim da cadeia vemos que não é. Não é algo que possamos simplesmente deixar de fazer para começar a fazer de uma forma diferente. Mas acredito que vamos ter um ótimo resultado com este projeto, até porque ele é especificamente orientado para a produção de sapatos.

E, para todos efeitos, a marca continua a ser uma estrutura quase local.
Bem, nós estamos à venda em todo o mundo, mas a produção continua a ser feita a 100% em Itália. Não usamos componentes feitos na Ásia e vamos manter-nos assim, mesmo por questões de sustentabilidade. Em Itália, tal como no resto da Europa, temos as regras mais rigorosas no que respeita aos ciclos de produção e ao uso de pele. Tudo é muito mais controlado do que em qualquer outra parte do mundo e acredito que em Portugal seja igual. Nos Estados Unidos, não há regras. Nem sequer vou falar da China, até porque acho que tudo o que lá é produzido devia ser banido. Os produtos feitos na China são o que há de mais prejudicial para o ambiente. Estamos a destruir o mundo ao comprá-los. A Europa tem de se orgulhar de ser o mais avançado sistema económico em termos de sustentabilidade.